Sábado, 19 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Unha encravada

Edson Vidigal

O que é pior, num Governo? Aloprados, trapalhões ou unha encravada? Como diria Chico Pires, famoso em Canto do Buriti por ter sido o único a responder direito, num programa de auditório, quem foi Shakespeare, eis aí, amiga, amigo, a grande questão.

segunda-feira, 9 de junho de 2008


Unha encravada

Edson Vidigal*

O que é pior, num Governo? Aloprados, trapalhões ou unha encravada? Como diria Chico Pires, famoso em Canto do Buriti por ter sido o único a responder direito, num programa de auditório, quem foi Shakespeare, eis aí, amiga, amigo, a grande questão.

Muita gente se defronta hoje em dia com mosquito da dengue, e ultimamente com essa coisa que empapa a vista e avermelha os olhos, como é mesmo o nome? Sucessão municipal, não. Tem palavra mais sofisticada para classificar enfermidade tão passageira, mas ainda assim tão incômoda? Conjuntivite.

Por falar em palavras, nosso idioma tem umas sonantes, no sentido de sonoro, é claro, que soam agressivas e, no significado, querem dizer pouca coisa. Por exemplo, pusilânime.

Imagine aí a cena, o companheiro irritado ergue o dedo fura bolo e o aponta para o camarada com uma grave imputação – você não passa de um grande pusilânime! O camarada mais ofendido com o som da palavra do que com o seu real significado reage e logo os dois se atracam pedindo, em silêncio, pelo amor de Deus, que surja logo a turma do deixa-disso.

Um horror mesmo foi quando no uso dessas palavras sonoras, mas raras no dia-a-dia da política, outra acusação se fez a um Governador. Você não é Governador coisa nenhuma, você não passa de um sátrapa.

Só não acabou em processo por crime contra a honra e desacato à autoridade, lei de segurança nacional e outras coisas do gênero e da época, porque alguém mais versado em história antiga lembrou que sátrapas eram os chefes das satrapias, as antigas colônias gregas.

Doutra feita, um Senador nosso, figura muito querida e que, entre nós, ainda faz muita falta até hoje, Alexandre Costa, se indignou no plenário quando um outro Senador requereu uma licença para assumir a Superintendência da Zona Franca, em Manaus.

A frase. Vejam a que ponto chegou este País, um sujeito deixa de ser Senador da República para ser gerente de gueguéu no Amazonas. Tomaram a palavra gueguéu como grande insulto, e houve até quem quisesse apelar enquadrando aquela intervenção como falta de decoro.

Ora, amiga, amigo, está no dicionário de maranhês, do Professor Domingos Vieira Filho, opúsculo de grande serventia, intitulado A Linguagem Popular do Maranhão, que gueguéu por nossas plagas significa muamba, ou seja, contrabando. E a Zona Franca de Manaus naqueles tempos era conhecida como o paraíso da muamba.

Até que eu comecei a anotar algumas dessas palavras sonoras que soam a insultos, mas que no frigir das coisas não dizem nada, ou quase nada. Encontrei na Livraria Cultura, em São Paulo, um Dicionário de Insultos, mas não o tenho aqui, até porque não é minha intenção agora recorrer ao indispensável compêndio. Trapalhões existem em todo lugar, geralmente não são amigos do alheio. Os aloprados, geralmente também, não costumam meter as mãos nas cumbucas do erário.

E os aloprados?

Pergunte, amiga, amigo, ao Professor Houaiss e ele dirá que se trata de alguém muito inquieto, até amalucado, mas oh gente o mundo não estaria parado numa única estação, a das mesmices, se não fossem as inquietações criativas?

É do planeta dos amalucados que emergiram os grandes avanços, incluindo a penicilina e algumas máquinas de fazer doidos, como a televisão e a política, por exemplo.

E unha encravada, o que vem a ser?

Ora divino mestre, unha encravada vem a ser exatamente o sujeito paradão, aquele que até para dar um passo à frente faz cara de sofredor e, pior, acha que está fazendo aos outros, que o sustentam, um grande favor.

Ah ia me esquecendo, pusilânime é o que está sempre posando de forte, mas que no fundo, no fundo, é o fraco. Ou seja, o fracasso em pessoa.
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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA





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