Terça-feira, 26 de março de 2019

ISSN 1983-392X

Honestidade...coisa de otário

Gilberto Job

Adam Smith, ao escrever em 1774 o livro RIQUEZA DAS NAÇÕES, ficou conhecido mundialmente como o pioneiro da sistematização das idéias que viriam a ser chamadas de Economia. Foi a primeira das ciências humanas a se separar da Filosofia.

quarta-feira, 27 de outubro de 2004

Honestidade...coisa de otário


Gilberto Job*


Adam Smith, ao escrever em 1774 o livro RIQUEZA DAS NAÇÕES, ficou conhecido mundialmente como o pioneiro da sistematização das idéias que viriam a ser chamadas de Economia. Foi a primeira das ciências humanas a se separar da Filosofia. Poucos sabem, no entanto, que ele era professor de Filosofia Moral, na Universidade escocesa de Glasgow e que editara seu primeiro livro, com o título de Teoria dos Sentimentos Morais, 35 anos antes, em 1739, onde declarava que “a essência para o funcionamento da sociedade é a Justiça, entendida como limite às ações danosas aos outros homens”.Por sua origem, pois, não se pode separar a Economia da Moralidade, sob pena de cairmos num terrível laisser faire moral.

Estudiosos do tema vieram mais tarde a nos ensinar que o trabalho é que representa a riqueza de uma nação e não a posse da moeda buscada avidamente pelos mercantilistas. No Brasil, contudo, onde se fala muito em “capitalismo selvagem”, o que se pratica mesmo, desde a sua descoberta é o mercantilismo. Neste regime, a justiça e a moral, são meras abstrações.

O importante é o lucro, a posse da moeda como passaporte que conduz à entrada no clube privado dos “colunáveis”. No Brasil mercantilista, a maneira mais rápida e fácil de conseguir a independência econômica é o peculato, ou seja, a apropriação dos bilhões que circulam de forma descontrolada nas organizações estatais, que pode ser alcançada através de uma simples concorrência pública fraudulenta como a do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, ou com uma das centenas de licitações de obras, embargadas pelo Tribunal de Contas da União, sob suspeita de fraude.

A roubalheira é tão escancarada que foi preciso que o governo suíço denunciasse alguns fiscais de impostos que haviam “amealhado” mais de 39 milhões de dólares em bancos suíços para que constatássemos que a corrupção vem de cima, isto é, dos delinqüentes que nos dirigem. O pior da história é que toda a quadrilha, que a imprensa batizou de “propinoduto”, foi condenada a 20 anos de prisão, mas 8 meses depois foi libertada por um ministro do STF.

Uma parte desse dinheiro desviado dos cofres públicos irá sustentar a eleição dos políticos que indicaram para os cargos os dirigentes do nosso aparelho estatal. Daí porque se considera que o Brasil tem os melhores homens públicos que o dinheiro pode comprar. É tudo tão natural que o desvio de dinheiro público já é encarado por esses delinqüentes como um simples fringe-benefit, ou seja, como uma vantagem suplementar do cargo.

Por esta razão, no Brasil, a única atividade que conta com estímulos para se desenvolver é o peculato. Seu estímulo é a impunidade, assegurada por um código processual caótico, propositadamente criado para dificultar e protelar o julgamento dos nossos mega-ladrões, até que o crime prescreva ou caia no esquecimento.

Machado de Assis considerava a virtude como o braço direito do homem, mas já naquela época lamentava o fato de nossos homens públicos serem quase todos canhotos. Daí nos depararmos hoje com a inaceitável injustiça que produziu 53 milhões de miseráveis num país como o nosso que é sem dúvida um dos mais ricos do planeta. Um certo controle desta corrupção poderia, no mínimo, diminuir a violência que se alastrou pelo Brasil e que – na opinião do antropólogo gaúcho Gilberto Velho - tem parte de suas raízes na liderança pobre da periferia, que prefere correr o risco de morrer num assalto do que contentar-se com as poucas migalhas que lhes caem da mesa dos cleptocratas.

E o nosso Poder Judiciário o que faz?... Em São Paulo, recentemente um juiz federal, denunciado pela Operação Anaconda, absolveu quase todos os integrantes da quadrilha que furtou 263 milhões de reais do erário público através da obra do TRT-SP. . Sabemos que a grande maioria dos juizes brasileiros não compactua com esses crimes e nem merece conviver com os corruptos que se abrigam sob a toga, mas é imprescindível que tomem a iniciativa de limparem a própria Casa. Este sistema está produzindo o mais nefasto dos criminosos, que é o criminoso que ministra a justiça.

Uma justiça manchada pela corrupção tem como resultado a impunidade e leva a que a rés público passe a ser confundida com a cosa nostra. Não podemos mais conviver com esta situação, pois os jovens que estão crescendo excluídos da sociedade, acabarão por buscar seus direitos com uma arma na mão. É preciso unir os esforços dos homens de bem, a fim acabar com esta situação que está punindo toda a população inocente. Caso contrário, teremos que dar razão ao filósofo Leandro Konder , quando diz que no Brasil, Justiça é uma palavra sem sentido e Honestidade é coisa de otário.
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*Engenheiro Civil





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