Quarta-feira, 18 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Das Barrancas às Carrancas

Edson Vidigal

Agora, há pouco, numa esquina próxima ao Mercado Central de Santiago, dei de cara com um Papai Noel pedindo esmolas.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009


Das Barrancas às Carrancas

Edson Vidigal*

Agora, há pouco, numa esquina próxima ao Mercado Central de Santiago, dei de cara com um Papai Noel pedindo esmolas.

Eu tinha acabado de sair, ainda meio inebriado, da casa de Neruda quando, mais adiante, um forte cheiro de camarão fresco me deu conta de que não me perdi.

Camarão fresco aqui, no caso, não tem nada ver com ácido úrico. É que esse Papai Noel mendigo me faz lembrar a Rua de Nazaré, por onde hoje não passa quase ninguém.

A Rua de Nazaré, que antes já foi também de Odylo, marido de Nazaré, está assim, impossível de se andar. Não por causa de um forte cheiro de camarão, mas de um insuportável odor de ácido úrico.

Houve um tempo em que a Rua de Nazaré com sua loja de disco era uma alegria só. E ainda tinha o ceguinho do piston, figura do ano inteiro.

Dezembro chegava e com ele, na mesma rua, um Papai Noel herniado balançando moedas em sua bacia tirada de queijo cuia.

O nosso Papai Noel da Rua de Nazaré, naquele tempo, não parecia triste como este que eu vi há pouco no Mercado Central de Santiago.

Ao contrário, até simulava orgulho, como se quisesse nos fazer inveja, quando ajeitava na perna da calça a sua hérnia indisfarçável.

Para ser Papai Noel hoje em dia já se dispensam certas formalidades e caracterizações.

Para alguns nem é mais preciso o vermelho na roupa, nem mesmo a barba branca e farta encobrindo as bochecas. Há quem ache até que só um bigode pintado resolve.

Outros, mais conservadores que nem eu, não admitem ninguém encarnando o Papai Noel sem os trajes e as configurações completas, inclusive com aqueles trejeitos na voz, falando manso como um bom velhinho.

Se não for assim, não é Papai Noel. É carranca da Fonte do Ribeirão.

A mulher que se notabilizou como Ana das Carrancas era viúva quando viu na Feira de Picos, no Piauí, um cego pedindo esmolas. Não pensou duas vezes, levou o ceguinho para casa, depois se casaram e foram morar em Petrolina, em Pernambuco.

Ana sabia que as carrancas são o melhor remédio para afugentarem os maus espíritos. As embarcações antigas as ostentavam nas proas e quanto mais feias, mais horrorosas, mais segurança passavam aos navegantes.

Qual diabo era tão doido de seguindo rio acima ou rio abaixo não se desviar das carrancas?

Ana ganhou dinheiro, educou os filhos, fazendo carrancas assustadoras e muito coloridas, vendendo-as não só para quem tinha medo de maus espíritos em viagens pelos rios, mas também para quem precisasse se prevenir dos maus fluídos dentro de casa.

Corre agora pelas estradas e leitos dos rios que o diabo anda assumindo forma de carranca, de modo que é preciso reinventar a feiura para que os fazedores de carrancas as façam mais feias, muito mais feias ainda.

As carrancas da Fonte do Ribeirão parecerão sósias de Marx ou, com algum esforço, do Marquês de Sade, se comparadas às que foram encomendadas em desafio ao diabo solto, que anda querendo mudar resultados de eleições.

Muita gente que tirou o diabo da garrafa e que agora anda querendo que ele fique solto não tem ideia do quanto pode se dar mal. Esquece, por exemplo, que a serpente, aquela que veio para vingar os vivos e os mortos, continua viva e está onde sempre esteve.

Ou seja, com a cabeça na Fonte do Ribeirão, a barriga debaixo da Igreja do Carmo e a cauda debaixo da Igreja de São Pantaleão. Quanto mais aporrinham o povo mais ela vai se mexendo devagar e, aos poucos, se estica e cresce.

E numa dessas, assim que a cauda encontre a cabeça, ela se contorcerá lentamente produzindo um terremoto, e aí, ó meu, nada de pedra sobre pedra.

A cidade será destruída, promete a lenda. E com a cidade, é claro, aquele palácio que uma menina, tipo chapeuzinho vermelho, pensa que é seu, que será sempre seu, que ela achou que Papai Noel iria lhe dar de presente neste Natal, mas não lho deu.

Agora, câmera de Glauber Rocha, close para Zé Lewgoy – "Das barrancas do Tocantins às carrancas do Ribeirão..." É o "Terra em Transe 2", amiga, amigo.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA





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