Segunda-feira, 17 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

Um Cadish para os Governos de George W. Bush?

Jayme Vita Roso

Como de hábito, hospedava-me no Grand Hotel Beauvau, localizado em frente ao Velho Porto, com esplêndida vista à prisão que abrigou o herói da obra O Conde de Monte Cristo.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009


Um Cadish para os Governos de George W. Bush?

Jayme Vita Roso*

I

Marselha, França, em 15 de setembro de 1968

Como de hábito, hospedava-me no Grand Hotel Beauvau, localizado em frente ao Velho Porto, com esplêndida vista à prisão que abrigou o herói da obra O Conde de Monte Cristo.

Retornava de Cassis, da qual me despedira, após ter concluído com penoso serviço no Tribunal do Comércio da região, com o encerramento de uma falência, extintas as obrigações, propiciando aos sócios gerentes retornar à cidade que haviam adotado para residir. Missão cumprida. Não imaginava quando retornaria a passeio ou a trabalho. Para marcar o momento, exatamente, às 13 horas, com o maître Emanuel Benazar, acordara em almoçarmos no Le Piment Rouge, restaurante armênio, com especialidade em pratos próprios e da cozinha do Magreb.

Benazar era um dos dois síndicos oficiais, nomeados pelo Tribunal do Comércio para exercerem suas funções em concordatas e em falências. Tornaramo-nos freqüentes, após tantas visitas que lhe fizera, para dar andamento à falência da Soderal. E o êxito deveria ser comemorado naquele restaurante, que tanto apreciávamos e no qual já era conhecido pela assiduidade. Ele, ainda está, no 19 Chemin Neuf, como o Grand Hotel Beauvau. Este é um marco histórico da cidade com mais de dois séculos. Em seus quartos, já hospedou, além de músicos eternos, escritores símbolos da literatura francesa. Lembro apenas George Sand e Alfred de Musset.

Tranquilamente almoçamos, Benazar e eu. Revivemos os anos de trabalho sério, ético e dedicado que, cada um, aplicou em suas funções e atividades. Celebramos, com um bom rose. Ao derradeiro, com bom chá de hortelã, com uma semente. A despedida foi emocionada, com a promessa de nos reencontrarmos e voltarmos a conversar de tudo e criticar tudo. Aliás, a França, no mês seguinte, teve acontecimento, recém lembrado, do Movimento Estudantil de 68. Sobre ele, quem consultar, encontrará tantas obras publicadas que se enfileirarão para formar uma biblioteca.

Fui a Marignane, ao aeroporto, de onde retornei a Paris em na mesma noite, num 707 da Varig para o Brasil.

II

Paris, França, no salão do Hotel Normandy, em 16 de janeiro de 2009

Eram 21 horas. Tranquilamente, ouvia, no bar, o som de um piano, após ter acompanhado François Tesserant, um amigo, ao Au Pied de Cochon. Despedíramos há poucos minutos. Localizado nos Les Halles, na Rue Coquillière; ali está desde 1946. Sempre irradiou um bom humor comunicativo: nunca fechou suas portas, trabalhando 24 horas.

Frugalmente, não abandonei a sua famosa sopa de cebola, enquanto François atacou a especialidade: o cochon (o porco). À moda clássica elaborado, preparado e servido.

Tradicional nos hábitos e costumes, sempre utilizei o Hotel Normandy, que já ultrapassa 130 anos. Impecável localização: cerca da Place Vendôme, da Ópera Garnier e do Faubour Saint Honoré.

Como bom francês, ele – com propriedade –, se auto intitula "déliceunsement retro", pois "despertar no Hotel Normandy, em face do Louvre, é degustar o raro luxo de um lugar privilegiado e do savoir faire à francesa".

Enquanto sorvia um cognac, bem servido, reviveram-me os pensamentos sobre os amigos com que encontrava no Hotel, ocasionalmente. Inclusive, em torno de 1976, vários promotores de São Paulo, de passagem por Paris, após terem comparecido a um encontro ministerial, com colegas italianos, em Milão, os mesmos que desencadearam a "operação mãos limpas".

Eis que, de repente, senta-se na poltrona próxima uma face que nunca esqueceria: Emanuel Benazar. Sondei-o. Não me reconheceu de pronto: afinal, já passaram 40 anos, quando nos despedimos em Marselha, à frente do Hotel Beauvau. Tenho esse privilégio: reconhecer faces, anos passados, não obstante as agressões que os anos nos causam, mas os rostos sempre expressam a alma, que nos emoldura. O rosto nos desnuda para a imortalidade, mesmo, pois como disse e celebrou o filósofo Emanuele Severino, em obra recente – Immortilitá e destino – em palavras esculpidas: "Somos destinados a alguma coisa que é infinitamente 'a mais' de tudo quanto o mais insaciável dos desejos possa querer".

Com muita afeição, saudamo-nos. Afinal, sobrevivemos a muitos dos nossos antigos companheiros da Provence e redondezas.

Tombamos na conversa, como curso normal, sobre o que fazer da vida, após ultrapassarmos 7 décadas de percurso neste planeta.

Revivemos a época contemporânea, os dias correntes. Ele, judeu, praticante, embora não ortodoxo, mostrou os equívocos políticos da invasão da Faixa de Gaza, com um dado histórico surpreendente: se as armas que ingressam no território administrado pelo Hamas passam pelo Egito – ou dele vem – é porque, na fronteira de Israel com esse país, preponderada mente, no deserto do Sinai, não há segurança, nem menos patrulhamento adequado. E acrescentou, com meu espanto: ao longo da fronteira com o Egito, Ariel Sharon – em coma – é proprietário de uma extensa fazenda.

Com realismo, ele, que viveu e sofreu a perseguição do governo de Vichy, durante a ocupação, milagrosamente, escapou de ser deportado. Por isso, e pela sua própria formação, aferroa as ditaduras, mostrando que, também na França, se vive uma democracia de ficção. Suas palavras urlam pela autêntica liberdade.

Nada mais, nem menos do que vem fazendo o premiado Imre Kartécz e que agora o faz Emanuel Todd – seu homônimo, escritor francês – no livro "Aprés la Démocratie" (Após a Democracia), com muito vigor. Acusa o governo Sarkozy de provocar uma verdadeira crise na democracia do país. Identificou, - segundo Benazar -, que Todd se debruçou na história, colocando a nu as suas fraturas fragilisantes, como o vazio religioso, a estagnação educativa, a nova estratificação social, o impacto destruidor do livre comércio, o empobrecimento da classe média e o desregramento das classes superiores. E Benazar, com ironia e mordacidade, questionou: "Buscamos uma democracia de opinião? Vamos suprimir o sufrágio universal?".

A avalanche de idéias me derrotaram. Na defensiva, preferi dizer a Benazar que o cardápio era variado e exigia reflexão, antes de optar. E, percebendo meu embaraço, também resultante da diferença de horário, convidou-me para um encontro entre homens da mesma idade, no dia 20, às 10:30, na Librairie Barmont, localizada na Rue Jacob.

Ao mencionar a Rue Jacob, alvorocei-me. Freqüentei-a intensamente nos anos 70. Há poucos meses, voltei a revisitá-la.

Não resisti. Perguntei quem seriam os interlocutores, sobre que assuntos se manifestariam. Com ironia, Benazar disse tratar-se de um fantasioso miniam (quorum de 10 pessoas para dizerem preces, segundo as leis judaicas). Vendo minha interrogação, não hesitou: "São dez homens. Judeus: Mendel Cyrulnik, Abrahan Katz, Gustavo Luzzati (dono da livraria) e eu; árabes: Fuad Riskalah e Emir Riad, além dos "gentios" franceses: Claude Ravel, Herbert Villon, Juste Proudhomme e Remy D’Alembert".

Seria um convidado especial.

"Os trabalhos tem finalidade terapêutica: só um se manifesta, os escolhidos pelo proprietário da livraria, que elege 2 temas para cada reunião. O tempo da exposição é de 60 minutos para os 2 oradores, dividido em partes iguais. Os temas são divulgados na hora aos presentes e os oradores não se comunicam com os companheiros, nem para informar terem sido escolhidos, nem sobre o que falarão", encerrou Benazar.

Afetuosamente, despedimo-nos às 23:45 horas. Tombei na cama. Acordei às 3 horas: Rue Jacob, quanto me diz! Sonhei com encontros e desencontros, em épocas próximas e distantes, sempre no bairro Saint Germain des Près, onde está a Rue Jacob. Ah! E a Seuil, minha editora preferida na época, tinha seu escritório num edifício de esquina, na mesmíssima Jacob.

III

Libraire Barmont, 70, Rue Jacob, 10:15 horas, 20 de novembro de 2009

Às 10 horas, chamei um táxi, na Rue de l’Échelle, em frente ao Normandy. Cruzou o Louvre, passou pela Quai François Mitterand e pela Pont des Arts, sobre o rio Sena. Revi o Institut de France. Ingressou na Mazzarine, à esquerda do Sena, até chegar à Escola Nacional Superior de Belas Artes, na Bonaparte.

Desembarquei. Sentir o odor daquela região, embora a temperatura maltratasse, pois estávamos com -3ºC. Inesquecível.

E não é que o numero 7 da Rua Jacob (75006, em Paris) situa-se em frente a um prédio de 2 andares, onde em 1972, se localizava a Galerie Tortue, ao lado de um velho (na época) e mal cuidado armazém, que portava o glorioso cartaz: "Comitê pour la libération du Brésil". Ainda guardo a foto sacada com uma Rollei...

Na Tortue, com o pouco que ganhara – apenas parte – de um trabalho no antigo Zaire (hoje República Democrática do Congo), comprei quatro gravuras de artistas refugiados da Cortina de Ferro. Conservo uma delas: a Anunciação, em arte-pop. Impecável.

Atravesso a rua. A Libraire Barmont foge das mega-stores tipo FNAC. Tem um dono, não um manager, nem um conselho de administração, nem um marqueteiro, sequer faz publicidade. Par contre, como se diz, é cheia de calor humano. Seus clientes são tradicionais, com dose acentuada de freqüentadores nos seus 30 anos e muitos (e muitas) balzaquianos. Seu estoque é reduzido, porque, na palavra de Luzzatti, a falta de capital exige o atendimento just-in-time. A vantagem é que os preços de capa sempre tem desconto, lembrando que a legislação francesa exige que os livros tenham o preço impresso na contra-capa (idem, na Inglaterra e nos Estados Unidos).

Vieram os 10 membros da confraria, aqueles que se auto intitulam, como seguidores do lema "Envelhecer sem ser velho" (Vieiller sans être vieux). Feitas as apresentações, com a surpresa geral de estar presente um brasileiro, sentamo-nos confortavelmente em uma sala de trinta metros, mobiliada espartanamente, mas confortáveis poltronas.

Luzzati, mestre de cerimônias e nosso anfitrião, anunciou, pontualmente, às 10:30 horas, que Fuad Riskalah e Herbert Villon seriam oradores daquela manhã. O primeiro, com idade superior, iniciaria com o tema "O coração nunca envelhece".

Buscou Rizkalah no filósofo Robert Mizrahi as idéias para sintetizar que "a velhice pode ser uma abertura e não o fechamento de portas para o acesso à idade considerada 'dourada'. Para conquistar esse fim, é preciso ter uma serenidade confiante e uma paciência reassegurada no comportamento". O envelhecimento depende "do que sua consciência contém, alimentado pela cultura de onde se vive, com as crenças próprias de cada um". Se a medicina, em especial, a gerontologia pode ajudar, diz Mizrahi, que se "trabalhe o máximo para manter as forças da vida, mesmo porque a alegria da existência é o bem absoluto". "É preciso reeducar. É preciso que a velhice não seja um naufrágio, porque imaginou a reeducação em três níveis: o da criatividade, o da alegria e o da serenidade face à morte". Não é uma resignação estóica, mas uma nova visão sobre a vida que se esvai.

Rizkalah lembrou que a obra de Mizrahi é extensa, valiosa, intrigante e educativa. Sintetizando a exposição, afirmou melhor seria convidar os anciãos a viajar em espírito, pensar em sua vida, escutar música, ler, escrever, contemplar, descobrir as obras de arte, caminhar, meditar, ou seja, convidá-los a viver.

Agradeceu os comedidos aplausos, lembrando que Robert Mizrahi escreveu "Conversion et temps vécu", em "Penser le temps pour vivre la vieillesse", publicado pela Fundação ESAI, PUF, em Paris em 2006, de onde tirou as idéias trazidas para os colegas da confraria. Arrematou com um pensamento de Spinoza para ser memorizado e meditado: "O prazer intenso do presente não cessa de enriquecer o tempo".

Herbert Villon foi o segundo orador. Francês de origem nobre, seus antepassados remontam à Alta Idade Média. Não perdeu a classe com os anos. Sentou-se ao meu lado e pudemos trocar algumas impressões, desconhecendo que tomaria a palavra em seguida.

Curiosamente, inclusive para os demais participantes judeus e não-judeus, exceto Luzzatti, que lhe sugerira o tema, iria falar de um fictício cadish para os governos de George W. Bush.

Iniciou, dizendo que a palavra em aramaico significa sagrado. Consultara o "Código da Lei Judaica" organizado pelo Rav S. Gantzfried, que viveu no século XIX. Para ele, o cadish é "prece que compreende resposta por parte do público, recitada depois de um estudo feito em conjunto, no decorrer de um funeral e durante todo o período em que a pessoa está de luto, no final da leitura da Torá e em outras ocasiões" (15;16). Jocosamente, esclareceu que somente é recitado na presença de um quórum de dez pessoas.

O tema é polêmico e provocativo, porque a tônica do presidente americano, em seus mandatos foi de luta incessante contra o terrorismo. Custasse o que custasse. Fantasiado ou não, teria que ser eliminado.

Villon, referindo-se aos governos de George W. Bush, salientou que ele dera ao mercado mais importância do que à saúde pública; dera ao combate à teoria darwiniana maior ênfase do que à extensão de recursos para as pesquisas, cujos orçamentos foram diminuindo ano a ano; dera plena liberdade aos agentes financeiros, esquecendo-se de que os interesses, sobretudo dos intermediários, sobrepunham-se aos princípios de confiança e estabilidade nas relações nessa área cinzenta da economia. Por isso, salientou Villon, os resultados apresentados foram ínfimos, a verdadeira economia derrapou, a qualidade dos serviços públicos decaiu e os meios de comunicação, terrestres e ferroviários, assim como os aéreos, foram se encolhendo cada vez mais e o país deixou de investir nesses setores cruciais. Mas, o personagem merece respeito pois pagamos caro as brincadeiras que fizemos sobre ele. Referiu-se a Oliver Stone que foi colega de Bush na escola, em entrevista recentemente publicada na revista Point de Vue: "É um excelente vendedor, lê a sua linguagem corporal para conseguir de você o que ele quiser. É um animal político. Trabalhou duro para ser presidente. E não o foi por acaso...", continuando, "Ele não é culto e não gosta de ler mas é tudo, menos besta" (edição de 29/10 a 4/11 de 2008).

Então, enfatizou Villon, humanista, não caberia o cadish para os governos de George W. Bush? Disse ele, com tintas amargas, que a lembrança dos governos de W. Bush poderá ser equiparada no futuro à Shoá: "é duro admitir-se mas as violações aos direitos humanos que foram midiatizadas, não deixam dúvida às consciências bem informadas."

Arrematou, com um pequeno poema de Hanna Sêméch. Foi uma jovem judia nascida na Palestina. Quando recrutada para a brigada judaica do Exército inglês, levaram-na a lançar-se de páraquedas atrás das linhas alemãs, para levar socorro aos judeus da Hungria. Feita prisioneira dos alemães, não mais retornou. Deixou, à posteridade uma breve oração, que é um hino à vida tanto quanto uma profissão de fé, daí a razão de ser cantada ou recitada algumas vezes à mesa do shabbat. E, com os olhos embassados pelas lágrimas, o octogenário Villon, de cor, repetiu:

"Eli, Eli – Meu Deus, meu Deus!

Que jamais acabem

A areia e o mar,

O rumor da águas,

O clarão do céu,

E a prece do homem!"

Luzzatti, também emocionado, disse que havíamos conseguido acender a luz por meio de um gentio (Villon). Pediu a todos que refletissem sobre os temas que havíamos discutido e, entre si, trocassem idéias e considerações pessoais, para não dizer muito particulares.

Estava terminando, quando a sua secretária anunciou a presença na livraria, para um café, de Marc Levy. Foi um alvoroço. Afinal trata-se de um escritor com menos de dez anos de atuação e que cada vez mais alcança o grande público pela qualidade do que redige.

No seu último livro, aliás, o oitavo, lançado exatamente há um ano na França, já vendeu mais de um milhão de exemplares. Com o sugestivo título "Toutes ces choses qu’on ne s’est pas dites" renova o universo romântico e fantástico que o fez conhecido. É uma aventura cheia de suspense, de carinho e de humor. O autor nos leva ao centro da relação de um pai com uma filha e conta a história de um primeiro amor.

Assim, encerramos a reunião, todos alegres, todos cheios de vida e contentamento e de muita esperança para que, colocada nos trilhos a América, possa o mundo reencontrar-se e finalmente as pessoas poderiam, sem medo, como diz Marc Levy, dizerem umas às outras, todas as coisas que antes não foram ditas e que não se repita mais a tragédia narrada por Jane Chaplin que lançou, em novembro do ano passado, um sombrio livro "Dezessete minutos com meu pai". Nesta obra, mostra que a família Chaplin tinha tudo para ser feliz, sobretudo quando moravam na cidade de Vevey, na Suíça. Mas, ela nunca conseguiu mais do que esses dezessete minutos com o genial Chaplin. Lamentava que, com dez anos, seu pai já tinha setenta e oito: era velho, movia-se com dificuldade e tinha os cabelos brancos como neve, apesar de trabalhar, de tocar piano, acordeom, fazer partituras e tentar escrever uma autobiografia, nunca acabada.


_________________







*Advogado







_________________