Sábado, 19 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Pois é, Prá Que?

Edson Vidigal

Os poetas, como os cegos, são os únicos capazes de enxergar na escuridão. Alguém constatou isso e saiu espalhando. Achei ótimo e até inseri num discurso.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009


Pois é, Prá Que?

Edson Vidigal*

Os poetas, como os cegos, são os únicos capazes de enxergar na escuridão. Alguém constatou isso e saiu espalhando. Achei ótimo e até inseri num discurso.

Realmente tem cego que enxerga longe, apontando coisas que muitos de nós, mesmo com os óculos em dia, não somos capazes de vislumbrar.

E quando o cego é poeta? Chega mais prá perto, presta atenção, é um assombro. Steve Wonder, por exemplo.

Mas não era exatamente sobre cegos que eu queria te falar. O que me acorreu à lembrança, na verdade, foi aquele dito de que o pior deles é o que não quer ver.

Claro que não se trata aí da cegueira nos olhos propriamente dita, mas da incapacidade de muita gente em enxergar certas realidades, muitas deles tão óbvias.

A pessoa fica cega para as realidades circundantes não só quando o amor, sentimento melhor, se lhe apodera por inteiro e o enlouquece de paixão.

Mas a razão apanha mesmo, indo a nocaute, é quando a cegueira é pelo poder, quando o cara acha que tendo o poder pode garantir-se com tudo, incluindo as impunidades.

O despautério é grande quando o sujeito, além de cego pelo poder, se acha poeta além de alunte e por isso, ele também, capaz de enxergar mais que os outros na escuridão.

Aí está feito o estrago.

Os poetas bons, e os medíocres também, antigamente morriam muito cedo. Muitos de tuberculose, sífilis, febre tifoide, doenças do mundo de então. Outros, de amores não correspondidos. Se encegueiravam, morriam de depressão, alguns se suicidavam.

Já há tese de mestrado não apenas sobre a influência do rabo do peixe no movimento das águas.

Rolam também pesquisas acadêmicas sobre a idade ideal para a morte de um poeta, tendo em vista sua imagem futura, suas possibilidades de se tornar figura histórica muito admirada.

Estátua de poeta velho, ninguém demora vendo. A turma jovem de antigamente querendo passar ideia de maturidade não fazia a barba nem aparava os cabelos.

É só conferir. De Gonçalves Dias a Jesus Cristo, ninguém era velho e todos muito bons, aliás excelentes, no que faziam. Verdade é que nenhum deles escolheu morrer cedo.

Nosso poeta da Canção do Exilio, que prometera a si mesmo várias vezes voltar a morar de vez no Maranhão, mais precisamente em Caxias – não permita Deus que eu morra sem que volte para lá, teve o barco em que voltava da Europa tragado por uma tempestade já bem perto da ilha de São Luis.

O nosso grande companheiro Jesus Cristo, que ainda hoje, dois mil anos depois, lidera a maioria dos povos no planeta, também não morreu tão jovem por decisão própria.

Seu ativismo dissidente incomodou tanto os donos de então da antiga Judeia que ele acabou, denunciado por subversão, torturado até a morte.

Os do bem não morrem. São dados como mortos, mas não morrem. Nem os que desparecem nas tragédias dos acidentes como Gonçalves Dias, nem os que são mortos nas torturas como Cristo, nem os que são assasinados nas guerras como Garcia Lorca, nem os que são fuzilados nas emboscadas como Che Guevara.

Agora o cego que não é cego, mas tão somente um encegueirado da paixão, da ambição desmedida e do ódio, da gana incontida por dinheiro e poder e que, ainda por cima se imagina poeta só para ver se, assim duplamente, transita bem enxergando tudo na escuridão, o que aliás é um perigo danado, nesse aí, amiga, amigo, quem pode dar jeito?

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA





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