Segunda-feira, 17 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

Boi de Goiás

Edson Vidigal

Essas garrafas de plástico, por exemplo, que são esquecidas nas praias quando, levadas pelas ondas, chegam ao alto mar causam um estrago enorme, você não faz idéia.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009


Boi de Goiás

Edson Vidigal*

Essas garrafas de plástico, por exemplo, que são esquecidas nas praias quando, levadas pelas ondas, chegam ao alto mar causam um estrago enorme, você não faz ideia.

As tartarugas, principalmente, confundindo as garrafas de plástico com as medusas tentam comê-las e morrem engasgadas. Também os golfinhos, coitados, imitando as tartarugas, se dão mal.

Tem gente que se engasga não só com um punhado de farinha. Há quem se engasgue, quando a ansiedade é tanta, até mesmo com nada, ou com a própria saliva.

Conheci um cidadão de muito respeito em sua cidade nos tempos em que estar gordo era sinal de riqueza e poder.

Luiz Gonzaga fez um xote em homenagem a Januário, seu pai, descrevendo a sua volta ao sertão depois de uma temporada de sucessos no sul.

E nesse xote ele canta vantagens e lá para as tantas faz um discurso em que simula a surpresa de Januário sobre o filho modificado – o homem agora está gordo que parece um major... é uma casimira lascada, um dinheiro danado, enricou, tá rico...

Então o cidadão de muito respeito na sua cidade, cuja gordura naquele tempo era sinal de riqueza, começou a emagrecer assim da noite para o dia.

O homem foi à capital, andou pelos hospitais, bateu chapas de radiografias, e quando ninguém conseguiu diagnosticar o que ele tinha emplacaram-lhe um câncer, aquilo só podia ser câncer.

Naquele tempo estar com câncer era o mesmo que estar com uma lepra, só que lepra invisível, o preconceito contra quem tinha câncer era grande.

Pois o cidadão assumiu-se com câncer e triste muito triste, não sabia fazer mais nada a não ser esperar a hora da morte.

Eis que um dia um colega de grupo escolar que morava em São Paulo chega à cidade em férias e visitando-o não deixa por menos – vais ter que ir a São Paulo operar esse câncer.

Depois de cortarem o homem numa cirurgia, suspeitando-se que o câncer era no esôfago, ele emagrecia porque não conseguia comer nada, lá para as tantas na cirurgia a revelação.

Que câncer que nada. Encravada na traqueia, uma espinha de peixe. E aí depois da anestesia foi que ele se lembrou que havia se engasgado mesmo com uma espinha de peixe.

Agora tem gente que depois de se engasgar com os próprios sonhos agora se engasga com os próprios pesadelos.

E você me pergunta o que tem a ver boi de Goiás com engasgos. Tem a ver, sim.

Foi num tempo em que o Povo da Ilha ia à feira e não encontrava carne de boi. Se havia carne de carneiro, falavam que era de bode. E se falassem que era bode mesmo, logo vinham outros dizendo que a carne não era de bode, era de cachorro.

O Povo da Ilha, você sabe, é rebelde. E começou a se rebelar contra a falta de carne de gado. Aí alguém teve a ideia de mandar pegar jacaré em Pedreiras, Bacabal, Lago da Pedra, na região dos lagos, enfim.

A carne chegava macia, sem osso, gelada em toneis. As pessoas comiam e gostavam, mas sem saberem direito de que bicho era. A curiosidade foi aumentando e o clima foi ficando tenso, de que bicho era aquela carne, todos queriam saber.

Foi quando uma autoridade para aplacar a ira popular falou que aquela carne era diferente mesmo porque era de boi, mas de um boi muito especial, o boi de Goiás.

Até hoje o Povo da Ilha Rebelde anda até aqui, engasgado com a mentira.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA





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