Segunda-feira, 24 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

Estratégias digitais: se você não está entendendo, provavelmente é incompreensível

Oswaldo Pepe

A cada dia que passa, ouvimos e lemos sobre Estratégias Digitais. Tendo acompanhado o tema, já há bastante tempo, acabei por reunir algumas anotações, no sentido de se entender - e tentar explicar - o que está acontecendo a partir da nossa cultura, da nossa informação e do nosso dia-a-dia.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009


Estratégias digitais: se você não está entendendo, provavelmente é incompreensível

Oswaldo Pepe*

A cada dia que passa, ouvimos e lemos sobre Estratégias Digitais. Tendo acompanhado o tema, já há bastante tempo, acabei por reunir algumas anotações, no sentido de se entender - e tentar explicar - o que está acontecendo a partir da nossa cultura, da nossa informação e do nosso dia-a-dia. São elas:

1. Calma: se você não está entendendo é porque é incompreensível

Não se preocupe quando você tiver aquela sensação de que não está entendendo nada. Se não captou a utilidade e o porquê do Twitter, por exemplo, é porque - simplesmente - é incompreensível.

Antes que me acusem de ludita esclareço: sei que existem usos potenciais interessantes e, em alguns negócios, usos já provados. Mas, no sentido inicial, de fato, é incompreensível: para quê?! Portanto, partindo daí, vamos nos acertando.

A Cultura que recebemos e com a qual operamos é - em essência - linear. Desta forma, nos habituamos a pensar linearmente, a relação causa e efeito balizando nosso entendimento, por assim dizer.

Assim, se construímos uma ferramenta, sabemos de antemão para que servirá. Entretanto, já há algum tempo, temos descoberto possibilidades e inventado ferramentas para as quais, paradoxalmente, não temos uma visão clara para que servem!

Quando os físicos lá no começo do século passado, descobriram a essência da luz, de que era formada, os tais pacotes - ou "quanta" - também descobriram o raio laser, resumindo muito à grosso modo. Mas só nos anos 50 foram montar um aparelho para concentrar os raios de luz (como possibilitava a teoria) e só nos anos 60 foram descobrir utilidades práticas para o laser - Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation. E só 'agora' foi ser usada no processo de leitura de CDs e DVDs.

Claro que estou escrevendo como se estivéssemos conversando, mas este é o objetivo; tenho visto tantos advogados brilhantes, de enorme cultura e sabedoria com dificuldade de compreender o mundo digital pois a forma clássica de pensarmos é linear. O mundo digital pensa diferente - mas nada que você não entenda até o final deste artigo.

2. Como você estudou: não há nada de novo

Sites, blogs, e-mails, e-newsletters, i-pods, twitters e tudo o mais são apenas ferramentas de comunicação que foram inventadas um pouco antes de descobrirmos o melhor jeito de utilizá-las.

Não tem problema, é a essência delas. Mas ao fim e ao cabo, elas só servem para comunicar. O problema então não é saber usar. É ter e saber o que falar e para quem.

Para isto é necessário saber-se quem se é, saber definir-se com clareza e montar uma estratégia de comunicação de acordo com estes itens: quem somos, o que queremos, o que oferecemos, para quem e como. Isto vale tanto para a pessoa física, quanto para a jurídica.

Pronto, você já sabe o que é preciso para montar uma estratégia de comunicação digital: nada de novo, não é ?

3. Entendendo estas novas ferramentas: olhando de pertinho

Você sabendo tudo o que está dito acima - não pense que é fácil, é imensamente dificultoso saber-se quem se é e definir-se com clareza - fica fácil entender as novas ferramentas.

Veja este exemplo que selecionei para que este texto fique curto e objetivo: uma das advogadas que mais admiro, grande amiga, me apresentou lá atrás uma newsletter humorada, inteligente, focada, descolada, com aquele wit, sentimento que me fez fazer apaixonadamente meu curso de Direito e passar brincando no Exame da Ordem (uma história engraçada que fica para uma outra vez...).

Tinha até esquecido, desiludido; pensava que o espírito humano, razoável, sopesado, culto e mergulhado de legados era morto, finado - mas eis que não, aí estava uma despretensiosa newsletter só possível neste tempos digitais, gostosa de ler que só ela. O Direito que tanto amei (e amo), ali, inteirinho. Amor à primeira vista.

Estudiosos explicam que este Migalhas - de quem mais estaríamos falando? rs - é um fenômeno do fenômeno chamado de Cauda Longa. Ou, simplesmente, só é possível porque o sistema de distribuição de conteúdo é incrivelmente barato e tem características únicas de se auto propalar. Coisas da ferramenta, que permite e enseja isto.

Em outras palavras, não seria possível a existência do Migalhas sem as ferramentas digitais - desde os processadores de texto, os exploradores de internet (Explorer, Firefox), o Google, os portais, o RSS (que acha notícias específicas automaticamente) e por aí vai, até o sistema de distribuição - instantâneo, inviolável, prático e praticamente sem custo.

Não esquecendo os recursos de feedback, de interatividade, você lê e na hora da sua opinião, seu voto, apoia, critica. Pode acrescentar algo, recortar, reproduzir, mandar para ene outros destinatários.

E estando na rede, quem pesquisar, acaba por achar o que você fez. Fica gravado para sempre, automaticamente arquivado, não dá mais para tirar, corre tanto, está em tantos lugares que é impossível. Dê um Google logo depois que seu artigo saiu publicado na rede... ou seu filminho foi parar no YouTube. É incrível !

Mas, claro, é preciso o conteúdo. Sem ele...

4. O Facebook

Mas voltemos a esta minha querida amiga advogada. Foi-me apresentada por uma outra amiga, esta irmã de um amigo da adolescência com quem fiz o curso de Direito no Mackenzie. Assim, de um amigo de muito tempo atrás, fiz uma amiga nova, já na maturidade. Aconteceu por acaso, e foi uma benção, mas não precisa ser assim. Entram o sites de relacionamento.

Antigamente, estou falando do tempo histórico, a tribo estava relativamente coesa. Tínhamos lugares para nos encontrar casualmente, formar amizades, se ver. A contemporaneidade privilegiou o indivíduo e assim nossos laços tribais se dissolveram. Não temos mais praças, parques, clubes, tavernas, feiras, fóruns e festas regulares onde nos encontrar, desfrutarmos um dos outros e aplacar nossa sede social.

Claro, ganhamos um espaço próprio gigante, que nos permitiu uma evolução extraordinária. Se hoje nem conhecemos direito nossos vizinhos, podemos viver como bem entendemos, "Cada Um Vive Como Quer" ('Five Easy Pieces'), esta é benesse dos tempos.

Esta situação nos deixa sempre ansiosos pelo outro, que nos falta. A vida corrida que tantos bens traz não permite o cultivo adequado do social. Acabamos por nos isolar, muitas vezes em frente da televisão, que só fala mas nunca ouve.

Bem, não mais: entram os sites onde você vai fazendo e descobrindo amigos e também pode recuperar um monte de amizades que estavam (aparentemente) "perdidas para sempre", engolfadas pelo turbilhão da vida moderna (ufa, que clichê...).

É fácil. É só ir clicando que magicamente vão aparecendo seus colegas do primário, do ginásio, da faculdade, dos lugares onde trabalhou, dos esportes que praticou, as empresas onde trabalhou, suas realizações profissionais, as viagens, as cidades, os bairros, tudo o que puder ser referência lá está.

Agora o xis da questão. Para que e como explorar todo este relacionamento agora possível?

5. Imergindo na nuvem da internet...

Relacionar-se é fundamental para nossa espécie. É a base - como o trabalho - da saúde mental. Precisamos do outro, se for me estender posso dizer que "somos o outro". E como não dá para freqüentarmos as praças, as ruas, os parques e encontrarmos todo mundo a todo tempo, temos os sites de relacionamento. Como usá-los ? - me pergunta esta querida amiga.

Conhecendo-a razoavelmente sugeri a seguinte estratégia para o Facebook. Três pontos:

(a) família estendida;

(b) advocacia e negócios jurídicos;

(c) amigos e conhecidos.

O conceito "família estendida" é para falar de fatos que acontecem em sua família que podem ser de interesse mais geral. Exemplo: sua cunhada é uma autoridade na área da Psicologia. Seu filho é um jovem músico e sua filha, recém formada, está preparando um mestrado.

Todas estas informações devem gerar comentários, ligações, interconexões entre pessoas de família que também estão no Face.

O segundo item trata de sua especialidade, o Direito. Comente sempre sobre seus trabalhos, aponte fatos, soluções, casos de interesse que demonstrem expertise e o que você vem fazendo, seu mister, sua paixão pelo Direito, seus mestres, seus colegas, o que lhe admira.

Certamente será de interesse de muita gente acompanhar o que uma advogada militante madura e experimentada como Você tem a comentar de seu dia a dia. Evidente que toda discrição e resguardo se aplicam, mas ainda assim muito se tem a dizer, o Direito é uma área riquíssima, de interesse geral.

Com o tempo, quem lhe acompanha terá a impressão - verdadeira! - de que lhe conhece bem e se precisar de uma opinião na área do Direito certamente a lembrará. Da mesma forma como acontecia antes da internet, a essência é a mesma, você vai conhecendo alguém através de seus contatos sociais e quando precisa lembra deles.

O terceiro item trata de recuperar antigos conhecidos e formar novas amizades. Estes serviços são craques em oferecer sugestões. Basta que você complete com capricho seu perfil que a partir dele os programas vão sugerindo uma legião de pessoas legais.

Fora que a partir dos seus amigos, você conhecerá outros amigos. Sabe aquela teoria que existe no máximo cinco pessoas entre você e qualquer outra pessoa? Pois é, na internet Voce vê isto acontecer!

Neste item não recomendo falar nem de família nem de profissão. Seja a pessoa culta e informada que sempre foi. Comente o livro que está lendo, o filme que viu, as compras que fez (ou queria fazer, rsrsrs), as viagens, coloque um link para a música que lhe emociona, comente matérias e artigos da mídia, mostre fotos, indique um vídeo no YouTube. E paralelamente, desfrute da vida intelectual e afetiva/emocional dos amigos.

É extraordinário, é uma riqueza sem par. Você nem imagina. Mas atente para um fato muito importante: voce não está perdendo tempo. Digo porque muita gente boa, à princípio, tem a nítida impressão de que ficar meia hora em frente a um computador se comunicando é tempo perdido. Como estão enganados!

É um tempo preciosamente ganho. Cada ligação, cada passo que você der em direção a um domínio maior destes instrumentos significa que você poderá ter, desfrutar e interagir com um grupo de amigos cada vez maior - como se você fosse a um parque, a uma festa, a um ponto de encontro onde todos estivéssemos - e de fato estamos -, a toda hora, todo dia.

6. Finalmente, voltamos ao ponto de partida: o conteúdo

A internet não é mágica, não cria nada. Portanto é como disse lá atrás: é necessário saber-se quem se é, o que se faz, o que se procura, como e porque, com precisão.

Sabendo isto, é fácil desenhar uma estratégia digital - ou seja, como aproveitar esta maravilha, este novo e inconnu Renascimento que estamos vivenciando sem ser dar conta que é a era digital. Você tem uma oportunidade de reconhecimento, de amizades e de novos negócios antes impensável. Olhe a tela do computador agora e veja: estamos conectados!

Escolha a ferramenta: e-mail, oswaldo@artpresse.com.br; Skype, oswaldo.pepe. E também Facebook, Plaxo, MySpace, Hi-5, Linkedin, Sonico... sem contar celular, fixo, Nextel, Twitter. É uma orgia de opções de comunicação. Podemos ficar de fora? É uma época, realmente, extraordinária: sejam bem vindos!

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*Advogado






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