Segunda-feira, 17 de junho de 2019

ISSN 1983-392X

Somos mesmo mais competitivas?

Josie Jardim e Luciana Gualda

Todos nós, que navegamos pelos meandros da internet, já tomamos conhecimento de pelo menos uma lenda urbana. Normalmente, uma mensagem que traz um depoimento ou relato de algo como sendo verdadeiro, ocorrido com o amigo de um amigo. Com frequência, inclusive, são relatos comoventes, ou revelações chocantes, quase exigindo uma atitude de nossa parte. Quem lê aquilo, começa a disseminar a informação como sendo verdadeira. Às vezes ela é e outras vezes não. Mas como podemos saber?

quarta-feira, 2 de setembro de 2009


Somos mesmo mais competitivas?

Josie Jardim*

Luciana Gualda**

Todos nós, que navegamos pelos meandros da internet, já tomamos conhecimento de pelo menos uma lenda urbana. Normalmente, uma mensagem que traz um depoimento ou relato de algo como sendo verdadeiro, ocorrido com o amigo de um amigo. Com frequência, inclusive, são relatos comoventes, ou revelações chocantes, quase exigindo uma atitude de nossa parte. Quem lê aquilo, começa a disseminar a informação como sendo verdadeira. Às vezes ela é e outras vezes não. Mas como podemos saber?

Ultimamente temos ouvido muito que mulheres são mais competitivas do que seus pares masculinos, tanto na vida pessoal quanto no mundo profissional. Ficamos imaginando o quanto dessa afirmação é baseada em fatos. De verdade, parece-nos, pelo menos a nós mulheres, que isso vem de percepções ou interpretações individuais, decorrentes de conceitos vazios que, de tão repetidos, tornam-se "verdadeiros".

Será que somos mesmo mais competitivas do que os homens ou isso é mais uma lenda urbana, igual aquelas que dizem que beber manga com leite faz mal ou que um fiozinho de lã na testa do bebê, faz parar o soluço?

Temos dúvidas.

Somos mulheres, profissionais e, sem dúvida, competitivas. Mas não nos vemos mais agressivas quando comparadas aos homens ou mesmo outras mulheres com carreiras ou trajetórias similares às nossas.

Parece-nos muito mais acertado dizer que há pessoas – e não mulheres ou homens – de todos os tipos e com grau de competitivade mais ou menos elevado.

Há pessoas, sejam elas líderes, chefes, subordinados ou colegas, que agem de determinada maneira, independentemente de seu gênero. Há pessoas boas e más. Há bons e maus chefes, há profissionais que trabalham bem em equipe e há aqueles que mal conseguem comunicar-se.

Todos que querem exercer algum papel dentro do mundo corporativo sabem que não há espaço sobrando. E ninguém mais duvida que nós mulheres lutamos em condições desiguais. Os números escancaram o fato de que, se iniciamos na carreira em igual proporção com nossos colegas homens, no topo da pirâmide, a proporção não se sustenta. E além da batalha corporativa, há ainda o inevitável conhecido como "terceiro turno", onde a mulher cuida da casa e dos filhos, com ou sem infra-estrutura e reforços, mas estes sempre sob sua própria administração.

Reconhecemos que nós mulheres somos muito críticas, tanto na auto-avaliação quanto na avaliação das outras. Não basta (nem quando nos avaliamos individualmente) realizar bem nosso trabalho e alcançar sucesso.

No pacote de avaliação feminino há muitas variáveis: as unhas têm de estar bem feitas, o terninho há de cair bem, o cabelo bem cortado e o peso dentro dos limites ditados sabe-se lá por quem. O olhar crítico serve para avaliar a nós mesmas e às nossas colegas e, nesse sentido, somos mesmo implacáveis. Pensando bem, é possível que, nessas condições, as mulheres sintam necessidade de mais armas.

Pior para nós.

Nós buscamos um resultado, nós o conseguimos, mas nós pagamos um preço mais alto do que esperávamos. Se não buscarmos (de novo) e conseguirmos (de novo) o equilíbrio, vamos arcar com o prejuízo do nosso próprio sucesso. E ainda carregaremos a pecha de competitivas demais.

_______________

*Diretora Jurídica da GE para América Latina e integrante do grupo Jurídico de Saias


**Diretora Jurídica da Schering-Plough Brasil e integrante do grupo Jurídico de Saias


_______________