Terça-feira, 19 de março de 2019

ISSN 1983-392X

A casa do "Dindo"

Julio Valente Junior

Não há muito tempo, toda a mídia, com muita dignidade, preocupou-se em divulgar as farras na mansão da mãe de Fernando Collor, transformada em palácio presidencial, com a aplicação de recursos públicos em um bem privado.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

A casa do "Dindo"

Julio Valente Junior*

Não há muito tempo, toda a mídia, com muita dignidade, preocupou-se em divulgar as farras na mansão da mãe de Fernando Collor, transformada em palácio presidencial, com a aplicação de recursos públicos em um bem privado. O ex-presidente parecia não acreditar na antiga, mas sempre nova lição do Império Romano: Não basta ser honesto, deve-se parecer honesto.

Hoje, pouquíssima cobertura vem sendo dada a “privatização do Palácio da Alvorada”, palco de jantares com empreiteiros em prol da sua reforma e de acantonamento de férias de inúmeros coleguinhas do filho do Sr. Presidente.

Os convivas lá presentes chegaram até a reclamar em público, na internet, que só faltou a presença do “Lula” para que esse “convescote” no Alvorada fosse completo. Verdade.

Quem sabe não teria sido a oportunidade para o Presidente Lula, rememorando os duros tempos de luta contra o regime militar, ter ministrado uma aula magna (naqueles tempos seria denominada de moral e cívica) ensinando a moçada o que foram os tempos difíceis do passado, quando tantos brasileiros indignados, como ele e seus companheiros do PT se insurgiram por um ideal comum, a JUSTIÇA SOCIAL; a custa de muita repressão, perseguições, maus tratos e até de mortes. Seria a hora de lembrar a luta, à época, contra os representantes do imperialismo americano e do brado sistêmico das insubstituíveis palavras de ordem: “abaixo o FMI”, fora o “capitalismo”, destacando as batalhas que tiveram contra os juros escorchantes, a época, cobrados pelos banqueiros que sugavam o suor do trabalhador brasileiro. Nessa aula seria o momento de rememorar a luta, à época, pela justa igualdade social, já então inadiável, pelo respeito aos mais humildes, oprimidos e esquecidos. Nesse encontro, poderia ainda ser mostrado toda posição e estratégia da guerra, à época, declarada contra os impostos pesadíssimos que, à época, oneravam muito mais os operários, o setor produtivo do que o capital. Finalmente, ainda, nessa aula magna, o Sr. Presidente poderia enfatizar as denúncias e as batalhas que travaram, também “à época”, contra as famigeradas mordomias palacianas dos presidentes generais, e, mais recentemente pelo uso dos jatinhos da FAB para ecoturismo dos filhotes de alguns ministros no governo FHC.

Talvez aprendendo essa lição, muito atual, essa geração coca-cola possa tirar algum proveito dessas férias palacianas; e, sendo mais autêntica, muito menos demagógica que os messias de plantão, venha, em respeito a toda essa luta e ideal da época, traduzir, a esperança do povo sofrido, em ações concretas, efetivas e corajosas em prol de sua dignidade, da sua cidadania.

Com todo respeito ao Presidente Lula, a quem com muita esperança emprestei meu voto, nos dois turnos da eleição presidencial, juntando-me a outros tantos milhões de brasileiros ansiosos por novos tempos, há de se ter um trato diferençado do bem público, especialmente por quem apresentou a bandeira da moralidade para com a rës püblica como plataforma daquela campanha eleitoral.

Assim, não se pode, não se deve confundir o privado, o pessoal com o público, ou será que o próximo passo neoliberal desse governo será a “ terceirização do Alvorada”.

Quem sabe faz a hora, já disse o poeta. É preciso clamar por isonomia. Essa mesma mídia, com a mesma dignidade de outrora, isenta de paixões e cores partidárias, deve agora, com muito vigor, divulgar essas farras; e, mesmo não sendo tão rigorosa como os romanos, mostrar que, ao menos, caberia ao governo, parecer honesto aos princípios que levaram Luis Inácio a se eleger presidente do Brasil.

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* Advogado

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