Quinta-feira, 14 de novembro de 2019

ISSN 1983-392X

Beata, Beatos

Edson Vidigal

Odiava que a chamassem de papagaio. Mas não havia dedo ainda que fosse de ginecologista que pudesse encostar. Queria ser tratada e respeitada como do sexo oposto. Virava uma arara se desconfiassem.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009


Beata, Beatos

Edson Vidigal*

Odiava que a chamassem de papagaio. Mas não havia dedo ainda que fosse de ginecologista que pudesse encostar. Queria ser tratada e respeitada como do sexo oposto. Virava uma arara se desconfiassem.

Quem lhe nomeou, ela não contava. E fazia cara de mistério. Seu nome? Arlinda, respeito é bom e eu gosto.

Determinada, bem comportada, cheia de bons modos, elegante no falar, gostava de rezar. Passava horas seguidas rezando.

Manhã bem cedo, antes do desjejum, rezava um terço. Voava até a mangueira próxima, no quintal, bicava uma manga e de lá mesmo entoava uma salve rainha.

Vida doçura, esperança nossa, salve, a vós bradamos os degradados filhos de Eva, a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas, advogada nossa, esses olhos misericordiosos a nós volvei, e depois deste desterro, e por aí seguia contrita, e em voz alta, dona Arlinda.

A notícia foi correndo de rua em rua, tem uma papagaia beata no alto de um pé de manga, as pessoas começaram a aparecer contritas, esperançosas, algumas achando até que aquilo fosse um milagre, alguma encarnação de vidas passadas em penitência.

Não faltavam versões querendo explicar o fenômeno da papagaia rezadora.

Nove da manhã, hora da merenda, outras bicadas na manga, e ela já declamava outro terço.

Depois emendava. Padeceu sob o poder de Poncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, está sentado à direita, de onde virá julgar os vivos e os mortos.

Ela pulava frases da oração, tamanha a pressa em rezar tudo, e muito.

Quando juntava muita gente debaixo da mangueira, parecia se encabular e num tom de muita humildade sussurrava a prece, às vezes em inglês.

Lord, make me na instrument of yor peace, where there is hatred, let me show love, where there is injury pardon, where there is discord, unity, to be loved, as to love, for it is in giving that we receive.

Às vezes em francês, o maitre divin, que ne cherche pas tant, d'etre console que de consoler, d'etre compris que comprendre.

Com o tempo, a papagaia era levada para algumas liturgias. Fez parte de coral, puxou reza em velórios, até mesmo o vigário, que só aparecia no povoado nos domingos de festas, se impressionou positivamente com as performances de dona Arlinda.

Eis que, ao contrário da papagaia contrita, de bons modos, que só vivia rezando, apareceu nos arredores um papagaio desbocado, daqueles de piadas escabrosas, um papagaio tresloucado, muito saliente, humorista de indecências.

Alguém teve a ideia de levá-lo à papagaia na certeza de que ele seria convertido àquelas alturas aos bons modos, ao lado bem da vida.

Quando a papagaia viu o fulano não prestou. Parecendo um iô-iô, ia e voltava riscando o chão, dizendo os palavrões mais inimagináveis para um bico tão santo de onde saiam até então as orações mais contritas.

Seu filho daquela, seu isso, seu aquilo. Onde você andou, que estou há anos vagando pelo mundo e rezando tudo para te reencontrar, seu isso, seu aquilo.

Decepção geral, claro.

A papagaia rezava tudo porque encontrou naquelas demonstrações de fé uma maneira de ser aceita e reconhecida pelos outros, os de verdadeira fé.

Usava as orações, instrumentos da verdadeira fé, numa religião que não professava, apenas para, iludindo a boa fé alheia, sobreviver em segurança.

Seus propósitos, na verdade, eram outros, muito pessoais.

Como a dona Arlinda, a papagaia dessa estória, temos visto pelas igrejas muitas senhoras e muitos senhores da política se mostrando numa fé cristã que, na verdade, não praticam.

Tudo hipocrisia. Suas ações visíveis não têm nada a ver com os ensinamentos sagrados das igrejas, que só frequentam para serem vistos. Nem com a fé das religiões que dizem professar.

Assim também há os que se dizem democratas e não praticam a democracia.

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*Ex-Presidente do STJ e Professor de Direito na UFMA





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