Quarta-feira, 16 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Mais Com Menos

Josie Jardim

É chegado aquele período do ano que pode ser tão frustrante para os que atuam em empresas.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010


Mais Com Menos

Josie Jardim*

É chegado aquele período do ano que pode ser tão frustrante para os que atuam em empresas. É a hora da discussão acerca do orçamento do departamento jurídico para o ano vindouro e da conversa acerca do valor agregados pelos profissionais de direito, assunto que pouca ressonância encontra com os que nos encaram como simples centros de custos.

É quase sempre a mesma história, vamos ter de continuar a "fazer mais com menos". A participação da empresa no mercado está crescendo e o número de funcionários também, mas o chefe informa que não há espaço para a contratação de novos advogados ou para aumento do orçamento para escritórios externos.

Já passei por isso tantas vezes que ao invés de chorar e fugir para abrir uma barraquinha de vender coco na praia, vi por bem aprender que essa é uma das muitas regras do jogo e que temos de ser criativos para dar conta do recado se quisermos continuar no mundo corporativo. E é com base nos anos de labuta com as planilhas orçamentárias e a falta de um time com gente suficiente para que assim pudesse ser chamado, que desenvolvi algumas regrinhas básicas de sobrevivência:

a) nem todo contrato precisa ser revisado pelo jurídico. Vale a pena construir uma matriz estabelecendo que somente contratos acima de determinado valor ou sobre determinado assunto devem ser revisados antes de assinados.

b) Use e abuse dos modelos de contratos que sejam justos para ambas as partes e avise seus clientes internos de que caso eles consigam utilizar o seu modelo, a aprovação e assinatura do mesmo será imediata.

c) Treine seus clientes internos nas bases contratuais normalmente aceitas por sua empresa, agilizando assim as fases da negociação. Você ou sua equipe somente devem entrar para negociar as cláusulas sobre as quais restem controvérsias reais e jurídicas.

d) Perca a mania de corrigir tudo o que passa em sua mesa e de gastar seu tempo trocando "porém" por "todavia". Cansei de ver advogados perdendo horas discutindo determinada redação, sem que a dita cuja fizesse a menor diferença, do ponto de vista de conteúdo.

e) Assuntos relacionados ao bê-á-bá da área trabalhista podem e devem ser resolvidos pelo departamento de RH.

f) Assuntos relacionados à área de compras podem e devem ser cuidados pelo departamento de compras.

g) Mais vale um mau acordo do que uma boa demanda. Estabeleça processos de análise prévia dos casos de forma a decidir se vale a pena defender-se ou buscar um acordo. O seu tempo deve ser gasto nos casos que realmente importam para a companhia.

h) Delegue. Não interessa quão bom você é, aceite o fato de que as outras pessoas podem realizar as tarefas de forma satisfatória, mesmo que não seja exatamente igual à sua. Envolva-se profunda e pessoalmente nos temas que realmente importam e daí sim, faça a diferença.

i) Gerencie seu tempo. Incentive as pessoas a realizarem reuniões com agenda e tempo determinados, faça resumo dos assuntos tratados e estabeleça as tarefas que deverão ser realizadas.

j) Terceirize de forma inteligente:

a) quando for necessário utilizar-se de determinada competência que você ou seu time não possuem;

b) quando o trabalho for burocrático e não exigir conhecimento profundo sobre o negócio da sua empresa.

C) quando você não suportar cuidar de determinado assunto. É claro que nem sempre podemos fazer isso, mas continuo achando que é um excelente critério, pois tendemos a cuidar melhor e mais rapidamente, dos assuntos que gostamos.

E não se esqueça de comprovar o seu trabalho e o da sua equipe com dados, métricas, planilhas comparativas e gráficos. Tudo o que for necessário para que os não advogados compreendam a diferença positiva que o departamento jurídico faz. E quem sabe, no ano que vem, você tenha mais sorte e consiga ampliar sua equipe ou resolva, de uma vez por todas, que o melhor mesmo é a barraquinha na praia.

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*Diretora Jurídica da GE para América Latina e integrante do grupo Jurídico de Saias







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