Diagnóstico do Judiciário

6/3/2006
Ramalho Ortigão

"Chamado a me manifestar pelo migalheiro Alexandre Thiollier, que entrou pendenga com o dr. Pintassilgo (nem ele escapou!), sinto poder não entrar na arenga. Em questão de bicudos e chatos, é melhor não meter minhas farpas. No entanto, como escólio, repito o que já disse Guilherme de Figueiredo em seu impagável 'Tratado Geral dos Chatos'

'Durante toda a vida, o indivíduo está submetido a uma quantidade enorme de coisas e seres chatos, cuja ação varia com o meio, a capacidade de resistência, etc., enquanto ele próprio emite suas partículas de chateação. Por conseguinte, vivemos imersos num caldo de cultura, um universo de maior ou menor poluição momentânea, o que nos obriga a pequenos gestos às vezes inconscientes, tais como ir beber água, ir lá dentro, acender um cigarro, fingir que não vê ou não ouve, dar o bolo, fugir da rotina, esquecer nomes de pessoas, tirar férias, viajar e outros paliativos. Para nossa própria existência, tudo consiste em rarefazer cientificamente a chateação circulante, evitar as camadas onde é mais densa, etc. Infelizmente, até hoje foi impossível inventar um artefato, aspirador, aerador, renovador de ar, borrifador que suprima ou diminua a densidade de chateação ambiente.'

Deixando minha farpa, chata e bicuda, despeço-me."

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