Ortotanásia - Conselho Federal de Medicina aprova resolução

23/11/2006
Jairo Sergio Szrajer - médico

"Novos argumentos estão surgindo para não 'deixarmos o caminho natural da vida seguir'. A ocorrência de milagres que só podem ser operadas por Deus. Gostaria de tentar esclarecer alguns pontos, para que fiquem claros os conceitos baseados no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, e desta forma possamos falar a mesma língua: Ortotanásia: morte natural, normal, boa morte, supositivamente sem sofrimento. Distanásia: morte lenta, com grande sofrimento. Eutanásia: ato de proporcionar morte sem sofrimento a um doente atingido por afecção incurável que produz dores intoleráveis. Milagre: qualquer indicação da participação divina na vida humana, indício dessa participação, que se revela esp. por uma alteração súbita e fora do comum das leis da natureza. Esclarecidos que falamos de Ortotanásia e que somos contra a Eutanásia e firmemente contra a Distanásia, que está sendo proposta, no meu entendimento, por diversos migalheiros, passo a uma análise de um caso clínico que todos acompanhamos pela imprensa. Paciente de 75 anos que, após sentir-se mal teve três paradas cardíacas em salão de beleza. Foi atendida e encaminhada para UTI de Hospital de ponta de São Paulo. Após alguns dias, retirada a sedação a paciente continua em coma, respirando com a ajuda de aparelhos. Comecemos com a suposição de algumas possíveis evoluções clínicas: 1 - A paciente recobra a consciência e tem alta da UTI sem seqüelas. É o que todos esperamos. 2 - A paciente recobra a consciência, mas tem que ficar respirando por meio de aparelhos. Continuaremos, sem dúvida, fazendo todos os esforços para seu restabelecimento. 3 - Nova parada cardíaca. Devemos reanimar novamente? Sem dúvida. E se a parada se prolongar por 10 minutos sem sucesso, continuamos com as manobras de ressuscitação? E 20 minutos, e... Quando será a hora de pararmos a massagens cardíaca? E se após a reanimação desta nova parada cardíaca ocorrer outra. Reanimamos a paciente? E uma terceira, e... Quantas paradas cardíacas terão que ocorrer para que os médicos possam definir que a paciente morreu? Devemos fazer um transplante cardíaco? Colocar um coração artificial? Por quanto tempo? Seguindo o raciocínio de diversos migalheiros que execram a ortotanásia devemos prolongar o sofrimento da paciente 'ab aeterno'. Pois somente a interferência de Deus poderá definir quando parar os procedimentos. Citei este caso por ser fácil a correlação, mas imaginem um paciente com câncer que já atingiu muitos órgãos (metástases), que cause muita dor, que o paciente tenha declarado que está sofrendo e que não quer prolongar mais seu sofrimento. Se este paciente tiver uma parada cardíaca em UTI, ele também deve ser reanimado? Ou devemos deixar que o caminho natural da vida, ou seja, a morte ocupe seu lugar? Desculpem o tamanho da migalha, mas me sinto muito incomodado com algumas posições de pessoas que achando que estão fazendo o bem e só prolongam o sofrimento de muitos."

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