Violência

26/2/2007
A. Cerviño - SP

"Confesso que minha tendência é concordar com todas as opiniões já manifestadas, o que nada tem de absurdo. Nós sabemos que a democracia tem esse grave defeito: é mosaica, no sentido de que alguém manifesta uma opinião, vem uma segunda pessoa com uma opinião diversa, tornando-se necessária uma terceira pessoa para dizer se concorda com este ou com aquele. E acaba dando a opinião dele. Que prevalece até que venha um quarto e dê uma outra opinião, todas, claro, devidamente fundamentadas, tornando-se necessário agora o surgimento de um novo terceiro que analisa as duas opiniões e dá a sua. E assim a coisa vai. O que os sociólogos preferem chamar de tese, antítese e síntese. E a vida vai seguindo seu rumo enquanto as academias se prestam a esse tipo de discussão. A vida, prática, do lado de cá; eles, teóricos, do lado de lá. Até que o teórico se elege administrador da sociedade e diz, logo de cara, todo prático: 'esqueçam o que eu escrevi'. É claro que ninguém pode ficar indiferente vendo alguém ser morto barbaramente, seja ao ser arrastado por um carro, seja ao ficar por mais de duas horas nos braços da mãe mulata debaixo de sol diante de um posto médico de subúrbio. À indiferença do motorista pode somar-se a atitude da diretora do tal posto médico: 'de agora em diante mandarei que um médico examine na fila os casos mais urgentes'. Foi preciso que uma criança de meses morresse para que uma médica descobrisse que se alguém leva uma criança a um posto de saúde é porque supõe que o filho está doente. Segundo supúnhamos, essa pessoa escolheu tal profissão porque tem sensibilidade diante do sofrimento alheio. Ou estávamos errados? Quem agora sairá à rua fazendo passeata em solidariedade à mãe daquela infeliz criança mulata que morreu nos braços da mãe num bairro de subúrbio? Ou clamando por justiça em relação à médica branca de classe média que é a diretora daquele posto de saúde?"

Envie sua Migalha