Saudação aos Calouros de 2007 - Goffredo Telles Jr.

26/2/2007
Regina F. Mattoso

"Obrigada a toda a equipe de Migalhas por nos presentear com esse excelente informativo. Com 45 anos de formada, tive o privilégio de ter sido aluna do Mestre Goffredo Telles Jr.: que aulas magníficas (Migalhas 1.601 – 26/2/07 – "De viva voz" – clique aqui)! As regras que ele aconselha sejam seguidas, contidas no livro 'A Folha Dobrada', páginas 422 a 424, deveriam ser gravadas no coração de cada advogado. Aí sim, teríamos uma elite com valores a serviço dos clientes. Todo calouro deveria receber impressas essas 'regras' para se guiar por elas desde o início de sua formação acadêmica. Vejam como tenho razão.

'Mas o que eu mais almejava, naquela aula final, não era apenas agradecer. O que eu mais queria era ser útil, era dizer palavras que pudessem servir, exprimir idéias que pudessem ser utilizadas pelos moços na procura da felicidade, no decorrer da vida.

Então, deixando falar minha alma, terminei com as seguintes palavras:

Se um filho meu me perguntar, um dia, quais as normas de convivência humana, responderei que as leis estão cheias delas, mas que a vida me ensina a resumí-las em sete regras essenciais.

Primeira regra: ser simples de coração e de atitude.

Ser simples de coração significa sentir que somos todos irmãos, iguais uns aos outros. Uns são poderosos, outros são pequeninos, mas a essência humana é uma só.

Arranquemos, pois, de nossos corações a arrogância, a empáfia, a insolência. Abafemos nosso orgulho. Sejamos afáveis uns com os outros. Jesus disse: "Bem-aventurados os mansos porque eles possuirão a terra."

Segunda regra: ser verdadeiro, mas não falar oracularmente.

Ser verdadeiro! Não querer jamais impingir o falso pelo autêntico. Não mascarar a mentira, para apresentá-la como verdade. Não ser cínico ao interpretar a verdade.

Ser verdadeiro é ser fiel à nossa verdade. É não traí-la. Não traí-la nunca, por moeda nenhuma. Não adulterá-la ou obumbrá-la, em troca de cargos, mordomias, títulos. É não fraquear em sua defesa. Não escamoteá-la. É não se deixar corromper.

Ser verdadeiro é firmar posição. É ficar com o que acreditamos. É dar a nossos semelhantes a segurança do que somos. É ser leal. É ser honesto. É nunca trair ninguém.

Mas ser verdadeiro não significa decretar a infalibilidade de nossas próprias convicções. Lembremo-nos sempre de que ninguém é dono da verdade e da virtude.

Aquilo que hoje consideramos verdade absoluta poderá, amanhã, por uma circunstância qualificada, revelar-se erro e falsidade.

Toda verdade é sujeita a prova em contrário. E quando esta prova é feita, a nós compete nos submeter ao que foi provado, por amor da própria verdade.

O que precisamos reconhecer é que tudo quanto sabemos é bem pouco, é quase nada.

Em consequência, quando proclamamos as nossas verdades, não devemos falar oracularmente.

Terceira regra: saber ouvir, saber reconsiderar, saber confessar nosso engano.

Muitos são os que falam, poucos os que dizem, menos ainda os que ouvem.

Saber ouvir não é só escutar. Saber ouvir significa procurar entender o que está sendo dito. É procurar penetrar o espírito das palavras faladas, e, mais do que isto, é tentar descobrir o sentido que lhes quer dar aquele que as pronuncia.

Saber ouvir não é somente ficar com o som do discurso, mas, também, com a alma dele.

Saber ouvir é ouvir sem preconceitos, sem predisposições, sem a intenção prefixada de discordar.

Quem sabe ouvir sabe aprender com o que ouve. Sabe evoluir.

Quarta regra: não ferir o amor-próprio alheio.

A ferida do amor-próprio não cicatriza jamais. Eis por que o sarcasmo, a zombaria, a chufa são armas perversas, que destroem o entendimento entre os homens.

Melhor é não usar tais armas. Melhor é recolhê-las, enfurná-las, mesmo fazendo violência a nós mesmos. Melhor, muito melhor, é substituí-las por um sorriso ou uma carranca, um convite ou um adeus.

Quinta regra: não atormentar o próximo com críticas ou lamúrias.

Facilmente se derruba num dia o que levou um ano para construir. A crítica malévola só destrói.

A crítica só é construtiva quando não constitui a picareta do despeitado ou do incompetente. Só é construtiva quando não é um tormento infligido por gosto de atormentar. A crítica só é construtiva quando é útil, para o aperfeiçoamento de uma obra.

Não criticar por desfastio. Não criticar por não ter o que dizer. Na vida, o que vale é o incentivo dado aos que querem acertar e construir. O que vale é a mão do colaborador, na obra planejada.

E não ser lamuriento!

O lamuriento é um trambolho. Só tem olhos e palavras para os óbices, os embaraços, as tragédias. É uma fonte de lamentações, e não percebe que sua própria presença é lamentável.

O lamuriento é um pessimista atravancador, crítico nocivo, um obstáculo nos relacionamentos construtivos, um estorvo na convivência humana.

Cada um sabe de sua própria vida. Que cada um guarde suas próprias críticas mais frequentes, suas fortuitas lamúrias, para seu uso pessoal.

Sexta regra: evitar a intimidade.

Cuidado com a intimidade!

Há um relicário secreto em cada consciência. Há uma região de mistério na alma de cada pessoa.

Ser íntimo é invadir o jardim fechado do coração alheio. É um devassamento.

Pode a intimidade ser uma benção, uma graça. Mas, muitas vezes, ela é uma assolação sem volta, causa de um dilaceramento sem remédio.

Cuidado com a intimidade! Ela destrói amizades, impossibilita a convivência.

Mais vale ser amigo, do que ser íntimo.

Sétima regra: ser prestativo, sem se tornar intruso, nem servo.

Servir o próximo! Servi-lo como melhor pudermos, servi-lo por amor; servi-lo, muitas vezes, sem idéia de recompensa.

Mas não nos imponhamos onde não formos desejados. Não sejamos intrusos, intrometidos, alegando intenção de servir.

Por outro lado, não permitamos que a estupidez alheia abuse de nosso ideal de servir, avilte nossa dignidade e pretenda nos transformar em servo.

Tais são as palavras que eu diria, se meu filho me perguntasse, um dia, quais são as normas de convivência humana.

* * *

Calei-me. Dei minha aula por terminada. Voltei para casa apreensivo. Assaltou-me a idéia de que eu próprio, talvez, não tenha sido sempre um fiel seguidor das sete normas por mim enunciadas.

"O ser do homem é o dever-ser", escreveu Miguel Reale.

Mas é fácil ditar o dever-ser dos outros. Difícil, para cada um de nós, é ser o que devemos ser.

Goffredo Telles Junior
A folha dobrada – Lembranças de um estudante – Ed. Nova Fronteira
Pg. 421/424'

Um abraço,"

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