Benazir Bhutto

2/1/2008
Fábio de Oliveira Ribeiro - advogado

"A morte de Benazir Bhutto num atentado que muito provavelmente foi executado por um fundamentalista islâmico reacendeu o debate sobre o Oriente Médio. Os papagaios da Casa Branca já começaram a lamentar o fato de que é difícil construir uma 'democracia islâmica' naquela região por causa da natureza da religião dos paquistaneses. Tomo a liberdade de entrar na discussão porque percebi que os defensores da política externa de Bush II partem de dois pressupostos errados: 1) O ocidente cristão é democrático; 2) O islamismo é antidemocrático por causa de suas características. Já disse aqui e torno a repetir. O que chamamos democracia é na verdade liberalismo oligárquico. Voltemos no tempo. A 'democracia' foi o regime criado por Clístenes e aperfeiçoado por Péricles. Seu apogeu foi no século IV AC. Democracia quer dizer literalmente 'poder' do 'demos'. O vocábulo 'demos' designa a forma pela qual a sociedade ateniense foi dividida por Clístenes. Para entender melhor a novidade criada pelo reformador das instituições atenienses é preciso lembrar que as Cidades-Estado foram criadas à força. À medida que a primeira Guerra Médica se aproximava os maiores núcleos populacionais gregos (Atenas, Esparta e outros) fortificaram seu perímetro e forçaram às populações rurais a abandonarem as aldeias e a se transferirem para a cidade. A reação popular a este processo, conhecido como sinecismo, foi grande e a absorção das populações das aldeias pelas cidades acabou sendo executada à força. No princípio, os novos habitantes de Atenas não tinham como interferir nos destinos da cidade e isto acarretou uma crise que acabou sendo resolvida com a democracia. O sistema adotado por Clístenes possibilitou a todos os cidadãos participarem da administração pública, da elaboração das leis e da distribuição justiça. Péricles aperfeiçoou o sistema ao possibilitar que os cidadãos mais pobres participassem da vida pública mediante remuneração. O que conhecemos como 'democracia representativa' está a anos luz da democracia ateniense. Na verdade o regime político adotado no Ocidente Cristão (no Brasil também) se parece muito mais com o que havia em Esparta, Cidade-Estado que era governada por uma 'oligarquia'. O vocábulo 'oligarquia' quer dizer literalmente governo dos mais ricos. Nas chamadas 'democracias representativas' ocidentais todos podem se candidatar a um cargo público. Na prática, entretanto, o acesso aos cargos do Poder Executivo e do Poder Legislativo é um privilégio das pessoas ricas ou muito ricas, porque as campanhas são milionárias. Mesmo que ingresse num Partido Político, o cidadão acaba sendo submetido ao poder dos caciques que controlam as estruturas e verbas partidárias. E os caciques dos partidos já eram ricos ou enriqueceram ao longo de suas carreiras políticas. O acesso aos cargos do Poder Judiciário também é vetado aos cidadãos de baixa renda de duas maneiras. Quem não tem formação universitária em Direito não pode concorrer a um cargo de magistrado. Mesmo que consiga cursar uma universidade pública ou particular o candidato esbarrará num obstáculo praticamente intransponível: os critérios de seleção são dúbios, exames orais são exigidos e o candidato fica à mercê dos preconceitos daqueles que dominam a cena jurídica e ficam tentados a colocar seus filhos nos cargos vagos. Na 'democracia representativa', salvo raríssimas exceções, o Estado só espera do povo três coisas: votar, se submeter à vontade do governante ou ser submetido á força. Portanto, o regime que predomina no Ocidente não é a 'democracia', mas a 'oligarquia'. Para ser mais preciso num 'liberalismo oligárquico', pois o vocábulo 'liberalismo' designa os direitos e garantias individuais e econômicas concedidos à população de baixa renda. Dentre os quais se destaca consumir segundo suas posses. O islamismo não pode ser necessariamente considerado antidemocrático. De fato, no apogeu da civilização islâmica e durante quase 200 anos cristãos e judeus viveram pacificamente nas terras dominadas pelos califas. A única coisa que os islâmicos exigiam dos 'povos do livro' (como eram chamados os cristãos e judeus) era o pagamento de um imposto para poderem realizar seus cultos. Desde que pagassem este imposto os 'povos do livro' eram deixados em paz e não foram poucos judeus e cristãos que prosperaram bastante sob o islamismo. A 'democracia religiosa' que existia no Oriente Médio foi perturbada apenas no século XI quando começaram as Cruzadas. Nunca é demais lembrar que estas campanhas militares violentas foram desencadeadas pelos cristãos. Aliás, quando os cruzados conquistaram Jerusalém até cristãos e judeus foram passados no fio da espada pelos intolerantes e brutais guerreiros da cristandade. Atualmente, em vários paises islâmicos há um regime muito parecido com o 'liberalismo oligárquico' ocidental. Abaixo do líder (político ou religioso) há uma elite econômica que ajuda a sustentá-lo e que se beneficia dos favores, cargos e contratos públicos. Dizer que o islamismo é especialmente violento por causa de atentados políticos praticados por fundamentalistas é um absurdo. Atentados políticos também ocorrem no Ocidente. Será demais lembrar que Itzhak Rabin, Primeiro Ministro de Israel, morreu num atentado praticado por um judeu ? Quantos foram os presidentes dos EUA que morreram em atentados executados por americanos ? Quantos ocupantes da Casa Branca sobreviveram a atentados praticados com armas de fogo ? Esta quimera 'democracia ocidental x islamismo antidemocrático' é produto da mente doentia de Bush II e seus assessores e admiradores na mídia. A extrema direita norte-americana queria um motivo para invadir o Iraque e alegou que pretendia 'construir uma democracia islâmica' porque não podia admitir publicamente que desejava unicamente outra coisa (o petróleo iraquiano). A propósito, a Casa Branca diz que constrói democracias, mas sempre conviveu pacificamente com ditadores desde que eles fossem cordiais aos interesses americanos. Os exemplos da ligação entre americanos e ditadores são tantos que somente citarei alguns: Franco na Espanha, Ferdinando Marcos nas Filipinas, Suharto na Indonésia, Somoza na Nicarágua, Fulgêncio Batista em Cuba, Pinochet no Chile, Costa e Silva no Brasil, Saddan Hussein até 1991 no Iraque, etc. Na verdade os americanos fizeram questão de ajudar vários ditadores chegar ao poder, como o Xá Reza Pahlevi no Irã, Noriega na Nicarágua, Suharto na Indonésia, etc. A quimera da construção de uma 'democracia islâmica' não tem qualquer fundamento histórico ou fático. Mas é claro que vocês podem acreditar nela. Muitos já não acreditam em anjos ou Papai-Noel ?"

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