Quarta-feira, 18 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

terça-feira, 3 de abril de 2012

Política & Economia NA REAL n° 192

Estímulos à economia : fatos e expectativas

Em matéria econômica, as expectativas antecedem aos fatos. Na política, ocorre o contrário. Na economia, os agentes operam em função das expectativas. Na política, os agentes políticos operam em função dos fatos e, assim, formam-se as expectativas. Nesta terça-feira, Dilma tentará operar as expectativas dos agentes econômicos por meio de uma série de medidas que visam reverter o quadro de letargia que está por tomar a economia. Também, criará um fato político, tentando atrair, para o suporte de seu governo, agentes econômicos desconfiados em relação a seu governo. As chances de sucesso das medidas econômicas são relativamente limitadas em função de dois aspectos gerais : (i) ao estimular setores econômicos específicos, os efeitos das medidas se limitam em larga medida a cadeias de produção limitadas. Sobretudo a desoneração de certos tributos nas exportações tenta criar uma espécie de "taxa de câmbio" para cada setor "selecionado". Com isso a competitividade do sistema é mitigada em prol de uns poucos ; (ii) a taxa de investimento cresce em função do "espírito animal" dos agentes pelo qual estes criam uma nova base produtiva para lucrar no futuro. Ora, com o consumo cadente (os salários em termos reais estão estagnados) e pouca crença dos agentes em relação às reformas estruturais e regulamentações estatais pró-iniciativa privada, o cenário torna-se mais incerto. O governo sabe disso, mas aparentemente operará conforme as necessidades forem surgindo. Ou seja, no ritmo lento e gradual que é a marca da gestão Dilma. Por tudo isso, o fato político é insuficiente para ampliar a base política do governo.

A necessária criatividade e paciência presidencial

Há de se reconhecer que a política econômica do governo é segura, mas carece de criatividade num mundo complexo e cheio de armadilhas. Assim, estrategicamente, o governo mostra-se incapaz de operar contra a "guerra cambial" que ele próprio diagnostica. Enquanto isso, os países centrais, especialmente os EUA, atuam com medidas vastas e de peso – no caso norte-americano, até com o "apoio" dos modelos e algoritmos do Pentágono – o governo Dilma não enfrenta assuntos pendentes e relevantes. Vejamos alguns pontos : quem estrutura "políticas industriais" que atraem investimentos externos ? Quais os efeitos concretos da "política de campeões" do BNDES ? Há algo de "esquisito" numa economia onde a tributação sobe em termos reais e a atividade econômica patina. O fisco tem de combater a sonegação, mas não estará onerando exatamente os mais produtivos ? O BC reduz (corretamente) os juros básicos, mas como agirá em relação ao spread bancário e aos elevados custos do crédito doméstico ? Eis algumas questões inquietantes que precisam ser enfrentadas e que carecerão de dois outros aspectos : (i) dependem, em parte, de apoio político congressual e social e (ii) da paciência presidencial em articular interesses e ações governamentais. Ambos os aspectos andam meio capengas.

Novo imposto ?

Informações extraoficiais da semana passada, enquanto Dilma carregava a tiracolo na Índia dois de seus outros conselheiros em matéria de economia – o ministro Pimentel e o secretário-executivo do ministério da Fazenda, Nelson Barbosa - davam conta de que a presidente teria pedido mais criatividade ao ministro Mantega nas medidas do pacote de indução ao crescimento mais acelerado da economia nacional e proteção da indústria pátria. Ela não quer mais do mesmo. Nesse caminho, a Fazenda deixou vazar em Brasília a informação de que pode criar, excepcionalmente, uma Cofins especial para taxar os produtos importados. Criatividade, mais do mesmo de sempre ou uma forma de compensar a desoneração de alguns impostos para alguns setores da indústria ?

Silêncio constrangedor

Todas essas discussões sobre pacote ou não pacote, mais ou menos subsídios, redução dos juros do BNDES (uma das medidas em estudo), que transferem dinheiro público de um lado para outro, determinando vencidos e vencedores, e de um modo ou de outro, para o bem e para o mal vão interferir na vida de milhões de brasileiros, se dão totalmente à margem do Congresso e dos partidos. A sociedade em seus momentos mais cruciais continua indefesa. A oposição não sabe o que fazer, os governistas sabem bem demais o que querem.

E o ministério do Desenvolvimento ?

Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento e amigo da presidente, deveria ser peça fundamental para a articulação econômica do governo. Todavia, anda tropeçando na prestação de contas de seus altíssimos rendimentos pós-gestão na prefeitura de BH e, ao mesmo tempo, anda se desentendendo com a Fazenda de Guido Mantega. Não há nenhum empresário, ao que parece, querendo protestar contra a falta de apetite do Desenvolvimento para atacar os problemas da indústria nacional. Todavia, não são poucos os sussurros que se ouvem nas reuniões de empresários quando o assunto gravita em torno das políticas do Desenvolvimento. Se fossem em voz alta, tais sussurros corariam as bochechas do mineiro.

Mas ele ainda tem prestígio

Apesar disso, do "malfeito" (vide Dilma) de que é suspeito, o ex-prefeito de BH ainda é um dos homens de maior confiança da presidente. Basta ver as fotos das viagens dela ao Exterior, como p. ex. esta agora à Índia para a reunião dos Brics : Pimentel está sempre ao lado. Sem contar o esquema que ela montou para evitar que ele vá explicar-se na Câmara e no Senado. No calcanhar dessa estratégia está a Comissão de Ética Pública da Presidência. Abriu-se uma investigação sobre as consultorias de Pimentel, com o voto de desempate do presidente da Comissão, o ex-ministro do STF, Sepúlveda Pertence. Viu-se no voto de Pertence uma reprimenda pública e dura a Pimentel. Bons farejadores de Brasília apostam que vai ficar por aí. Pimentel poderá receber apenas uma reprimenda leve, ao contrário do que ocorreu, por exemplo, com o ex-ministro do Trabalho, Carlos Luppi. Observa-se que o pedetista carioca, ao contrário do petista mineiro, não está no coração de Dilma. Além do mais, quando a Comissão anunciou que trataria do caso Pimentel, a presidente não escondeu sua contrariedade. Algumas daquelas pessoas que portam a voz da presidente, anonimamente, informaram até que ela pensava em trocar praticamente todos os membros da Comissão. A história foi timidamente desmentida. Mas ficou o recado. Um momento decisivo para o prestígio do grupo dirigido por Pertence.

Enquanto isso nos EUA...

Não se sabe ainda se a demanda "em aquecimento" nos EUA será suficiente para sustentar e estimular o investimento e, sobretudo, o consumo futuro. Todavia, a patota de Wall Street começa a especular que é possível que a maior economia do mundo esteja saindo do buraco em que se meteu. Não são poucos os que temem uma disparada futura da inflação, é verdade. Basta ver que os metais e outras commodities que são "reserva de valor" persistem com demanda por parte daqueles que querem se proteger contra um dólar mais frágil e inflacionado. Todavia, no curto prazo está se consolidando a ideia de que as ações seguirão em rota de alta (o que ajuda a demanda) e o emprego sobe ainda mais no curto prazo (atualmente ao redor de 8,7%). Obama agradece duplamente o melhor desempenho da economia e o discurso desencontrado dos republicanos, além da tibieza verbal e política de seu principal candidato Mitt Romney. A sina de Obama pode ser a reeleição. Depois dela, virá a necessidade de dar maior consistência à política econômica. Aí a "onça vai beber água". Por enquanto, vale apostar na melhoria de cenário.

Os BRICS

O mercado financeiro e de capital é hábil em provocar movimentos mais enérgicos nas economias (grandes e pequenas) de todo o mundo. Todavia, também é pródigo em modismos e siglas. Jim O´Neill, chefe de pesquisa econômica da Goldman Sachs, cunhou o acrônimo BRICS para se referir a um "grupo" de países que inclui o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul, esta última "incorporada" tardiamente aos presumidos emergentes. Pois bem : deste acrônimo nasceram muitas iniciativas governamentais, inclusas as reuniões de cúpulas que tentam articular as ações destas nações. A julgar pelos resultados da reunião da semana passada na Índia, o destino destas reuniões parece ser o de produzir muito papel e pouco resultado. O motivo é simples e, por enquanto, bem claro : nenhum destes países tem suficiente interesse comum para se somar aos outros do grupo. A China está preocupada com o seu passivo comercial perante os EUA, a Índia tenta se opor a certas estratégias da China, a Rússia vive booms e revezes conforme andam as cotações de petróleo e a África do Sul, bem... de fato, não sabemos...

A fome e a sede

O PT, acusa abertamente os aliados e os fatos o comprovam, é partido de deixar apenas migalhas para os aliados. Mesmo quando faz concessões, como agora quando cederá algumas disputas em capitais e grandes cidades, com mais de 150 mil habitantes, está de olho grande em coisas maiores. No caso, manter no redil petista em 2014 os parceiros de hoje. Os parceiros entregam-se ao jogo. Uns por falta de opções e porque o Palácio do Planalto, com cargos, verbas, canetas e "Diário Oficial" é um imã irresistível. Outros, visam, além dessa vantagem, estar próximos e bem situados para o momento do bote, quando ele se abrir. Nesta última posição estão o PMDB e o PSB. Os dois se preparam para eventuais vacilações petistas em 2014. Com Lula fora de uma outra empreitada eleitoral, só resta ao PT abraçar-se a Dilma ou criar uma opção em dois anos caso a presidente falhe. No primeiro caso, há parte do PT que não saboreia inteiramente a presidente, porque acha que ela usurpou o que era deles. E, no segundo, tropeços vários anularam o surgimento de líderes de peso no partido no médio prazo. É nesse vazio que apostam os sedentos aliados de hoje, possíveis adversários do PT amanhã.

Lula em tempos de crise

Contrariando conselhos médicos, Lula mergulhou de vez na campanha eleitoral, um dia apenas após ter tido a excelente notícia de que houve remissão do seu câncer na garganta. O fez pelo gosto, pelo prazer, e porque fazer política é tudo para ele. Já marcou até aparições públicas, que certamente desabarão em grandes comícios, em abril – uma em São Bernardo outra em Brasília. Está fazendo por gosto mas também porque, apesar da aparente tranquilidade, os pepinos políticos estão no ar : é Haddad que não deslancha, são os parceiros que estão cobrando caro do PT e do governo Federal as parcerias de outubro, e as dificuldades de Dilma com o Congresso, apenas empurradas com a barriga para "depois da Semana Santa". Somente Tio Lula para botar a casa em ordem, mesmo com sacrifício.

Radar NA REAL

30/3/12 TENDÊNCIA
SEGMENTO Cotação Curto prazo Médio Prazo
Juros ¹
- Pré-fixados NA estável estável/alta
- Pós-Fixados NA baixa baixa
Câmbio ²
- EURO 1,3323 baixa baixa
- REAL 1,8291 estável/baixa estável/baixa
Mercado Acionário
- Ibovespa 64.510,97 estável/alta estável
- S&P 500 1.408,47 estável/alta alta
- NASDAQ 3.091,57 estável/alta alta

(1) Títulos públicos e privados com prazo de vencimento de 1 ano (em reais).
(2) Em relação ao dólar norte-americano
NA – Não aplicável

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* José Marcio Mendonça jornalista e comentarista político; editou o Caderno de Sábado, o suplemento de Cultura do Jornal da Tarde e foi chefe de redação da sucursal de Brasília dos jornais: O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Apresenta: A Palavra de Quem Decide na Rádio Eldorado e escreve para o Portal Estadão e no Blog: A Política como Ela é.

* Francisco Petros é economista, graduando em Direito, pós-graduado em Finanças. Trabalha há vinte e cinco anos no mercado de capitais, em instituições brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associacao Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais. Atualmente é membro do CSA - Conselho de Supervisão dos Analistas do Mercado de Capitais, órgão supervisionado pela CVM - Comissão de Valores Mobiliários.