Constituição na Escola

Volta às aulas da cidadania: O que a Constituição nos pede em janeiro?

Janeiro é tempo de “matrícula cívica”: avaliar direitos, acompanhar serviços e agir com cidadania, transformando rotina em participação consciente.

19/1/2026

Janeiro tem uma energia própria de agenda reaberta, metas renovadas, aquela vontade de “fazer diferente”. A gente organiza as finanças, retoma a saúde, pensa na escola, planeja o trabalho. Mas existe uma decisão silenciosa e poderosa que quase nunca entra nessa lista: levar a sério a cidadania como prática cotidiana.

Quando o Projeto Constituição nas Escolas leva a Constituição para dentro da sala de aula, a mensagem de fundo é simples: Constituição não é só para faculdade, concurso, tribunal ou debate de especialistas. Ela serve como um manual de convivência, um pacto sobre como o poder deve funcionar e sobre o que cada pessoa pode exigir, respeitar e construir junto. E isso fica ainda mais visível no começo do ano, quando os dilemas como matrículas, filas, transporte, orçamento público, prioridades reaparecem com força.

É por isso que vale uma espécie de “matrícula cívica” em janeiro. Não é um convite a transformar a vida em um litígio permanente; é uma forma de atravessar o ano com menos improviso e mais clareza. E dá para começar com atitudes bem objetivas, do tipo que cabem no cotidiano de qualquer pessoa.

A primeira é trocar a sensação difusa por um diagnóstico simples. Em vez de deixar os direitos virarem apenas discurso, vale olhar para a rotina e responder, com honestidade sobre saúde, educação, transporte e segurança: o que está funcionando? O que piorou? O que travou? O objetivo aqui não é “reclamar melhor”, mas transformar experiência em pauta.

Mesmo observações pequenas, quando ganham local, data e exemplo concreto, deixam de ser desabafo e passam a ter potencial de providência. E, para não se perder em mil frentes, a regra é uma só: escolha um tema para acompanhar por um mês. Um só. Consistência costuma vencer indignação dispersa.

A segunda atitude é abandonar o “me disseram” e adotar o “me mostre o documento”. Todo começo de ano vem com alguma novidade. Mudanças nas regras da escola, no procedimento na unidade de saúde, na tarifa, no fluxo de atendimento.

A cidadania madura começa quando a gente faz uma pergunta simples, com educação e firmeza: “onde isso está escrito?”. Pedir base e transparência não é afronta; é o mínimo esperado numa administração pública, que deve justificar seus atos.

E, em um país em que boatos viram rotina, procurar a fonte oficial e guardar o link (ou o print com data) é um hábito que protege o cidadão e melhora a conversa pública.

A terceira atitude é aprender o mapa da competência, para não brigar com o “balcão” errado. Muita frustração com serviços públicos nasce do erro comum de cobrar quem não tem poder de resolver. A Constituição distribui responsabilidades entre União, Estados e Municípios e, na prática, isso significa que alguns problemas são decididos localmente, outros dependem do governo estadual e outros são federais.

Não é preciso virar especialista, basta um exercício rápido: pegue três problemas do seu cotidiano e tente identificar quem costuma resolver e por qual canal. Vaga em creche, por exemplo, tende a ser municipal; policiamento ostensivo costuma ser estadual; determinados programas e financiamentos podem ser federais. Quando a gente acerta o destinatário, metade do caminho está feito.

A quarta atitude é usar duas ferramentas subestimadas, mas muito eficazes, justamente porque são formais: ouvidoria e pedido de acesso à informação. A ouvidoria não é “reclamação jogada ao vento”; é registro com protocolo, data e dever de resposta. O pedido de acesso à informação é o caminho para perguntas objetivas que mudam a qualidade do debate público. Quantas vagas existem? Qual o critério da fila? Qual o contrato? Qual o prazo? ,Qual o custo? Qual a meta?

A diferença entre ser ignorado e ser respondido muitas vezes está no modo como se pergunta. Quem escreve de forma simples e delimitada costuma receber respostas úteis; quem escreve de forma genérica, costuma receber respostas genéricas.

Por fim, existe uma atitude que dá consistência a todas as outras: praticar o ciclo da cidadania. Registrar é o começo, não o fim. Acompanhar é o que transforma protocolo em solução. É o famoso “mandei e-mail e esqueci” versus “mandei, anotei o prazo, cobrei retorno, ajustei o pedido com base na resposta”. Um truque prático é salvar os protocolos, as respostas, os links e os prints, com datas. Pode parecer detalhe, mas é justamente esse detalhe que dá memória ao pedido, e ser levado a sério, em muitos casos, depende de ter informação organizada.

Começar o ano com essa “matrícula cívica” não significa viver em estado de conflito. Significa o oposto, reduzir ruídos, fortalecer a confiança pública e aumentar a chance de solução, porque você passa a conversar com as instituições de um jeito mais efetivo.

No fundo, é isso que a educação constitucional pretende quando sai do papel e entra na vida: não apenas formar juristas, mas formar pessoas que saibam se orientar no mundo, reconhecer direitos, cumprir deveres e exigir do poder público aquilo que a sociedade prometeu a si mesma.

Colunistas

Grasieli Regina Rocha Bueno Vice-presidente do Projeto Constituição nas Escolas, advogada do Escritório Lobo de Rizzo Advocacia, formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Júlia Trindade de Sá Advogada formada pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. Especialista em Direito Administrativo pela FGV Direito SP. Diretora de Conteúdo do Projeto Constituição nas Escolas.

Pedro Henrique Araujo Silva Advogado no Escritório Dinamarco, Beraldo & Bedaque Advocacia. Formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco da Universidade de São Paulo. Presidente do Projeto Constituição nas Escolas.

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