Gramatigalhas

Como quando – Está certo?

Como quando – Está certo? O Professor esclarece a questão.

22/5/2019

A leitora Regiane Soares envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Analisando uma letra de música, eu vi esta frase, que me chamou a atenção: 'Estou apaixonado como quando eu era adolescente'. Quero saber se essa construção está correta, com o uso das duas conjunções (como e quando)."

1) Uma leitora encontrou a seguinte frase: "Estou apaixonado como quando eu era adolescente". E indaga se essa construção está correta, com o emprego da expressão como quando.

2) Ora, toma-se, como exemplo didático de explicação, uma citação do Marquês de Maricá – "O medo é a arma dos fracos, como a bravura é a dos fortes" – a cujo respeito se podem tecer as seguintes ponderações: a) esse período é formado por duas orações; b) a primeira delas é "O medo é a arma dos fracos"; c) a segunda, "como a bravura é a dos fortes"; d) não é difícil perceber que a segunda oração representa um elemento de comparação em relação à primeira; e) e, porque a segunda oração estabelece uma relação de dependência em relação à primeira, diz-se que o período é composto por subordinação; f) nesse período, a primeira é a oração principal; g) como a segunda oração está em relação de dependência quanto à primeira, diz-se que ela é uma oração subordinada; h) e, porque, na relação assim estabelecida, tal segunda oração constitui um termo de comparação em relação à primeira, diz-se que ela é uma oração subordinada adverbial comparativa; i) apenas se complementa ser bastante comum que a conjunção como introduza orações subordinadas comparativas.

3) Com essas ponderações genéricas, passa-se ao exemplo trazido pela leitora, de uma canção de Talles Roberto – "Estou apaixonado como quando eu era adolescente": a) nele, a oração subordinada comparativa é "como quando eu era adolescente"; b) por um lado, como é a conjunção que a introduz; c) por outro lado – e aqui reside a peculiaridade da questão – tal oração subordinada traz em si a ideia de tempo; d) é fácil perceber essa ideia de tempo, ao se ler o trecho sem a conjunção comparativa, a saber, "quando eu era adolescente"; e) não há erro algum na junção, para o caso, das palavras como e quando.

4) Acrescenta-se, até para confirmar tal conclusão, um verso de Chico Buarque de Holanda: "Amou daquela vez, como se fosse a última". Nesse trecho podem-se fazer observações similares: a) a oração subordinada comparativa é "como se fosse a última"; b) por um lado, como é a conjunção que a introduz; c) por outro lado – e aqui reside a peculiaridade desse novo exemplo – tal subordinada traz em si a ideia de condição; d) é fácil perceber essa ideia de condição, ao se ler o trecho sem a conjunção comparativa, a saber, "se fosse a última"; e) também aqui, não há erro algum na junção das palavras como e se.

 
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Colunista

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.