Ordem na Banca

Domando gatos: A arte e o desafio de liderar advogados

Liderar advogados é como domar gatos: independentes, críticos e territoriais. O segredo? Direção clara, governança invisível e autonomia com responsabilidade.

10/9/2025

Eu aprendi com meu professor da Harvard, Jay Lorsch, um ditado curioso: “liderar advogados é como domar gatos”.

A imagem é irresistível e quem já tentou conduzir um grupo de advogados em um mesmo projeto sabe exatamente o que isso significa.

Gatos são independentes. Não vêm quando você chama, a não ser que queiram. Não gostam de imposição. Escolhem onde dormir, quando caçar, como brincar. Não pedem permissão para explorar novos territórios.

Isso soa familiar? Pois é.

Na advocacia, a independência é cultivada desde a formação (temos inclusive um artigo na nossa Constituição Federal garantindo isso). O advogado é treinado para questionar, analisar, argumentar, desconfiar. Sua ferramenta de trabalho é o raciocínio próprio, não a obediência cega. E isso, que é uma das grandes forças da profissão, também é um dos maiores desafios para quem precisa liderar um grupo de advogados dentro de um mesmo escritório.

E por que advogados são como gatos? Algumas razões.

Primeiro, pela independência intelectual. Advogados não seguem ordens apenas porque “sempre foi assim”. Querem entender a razão, avaliar a lógica, medir as consequências. Sem convencimento, não há engajamento.

Depois tem o territorialismo profissional. Cada advogado tende a proteger seu território: clientes, casos, métodos de trabalho. Qualquer tentativa de interferência pode ser vista como invasão.

Conte também com instinto crítico. Advogados são naturalmente treinados para encontrar falhas. É o que os torna bons litigantes, negociadores e estrategistas - mas também pode tornar reuniões intermináveis se não houver método.

Por fim, baixa tolerância a microgestão. Assim como gatos se afastam quando tentamos controlá-los demais, advogados se fecham diante de supervisão excessiva. Sentem-se sufocados e reagem com resistência velada.

Agora, se a ideia é ter uma equipe jurídica e se todos trabalham de forma isolada, o escritório corre risco de se fragmentar:

  •  A visão estratégica não é compartilhada;
  • As decisões se tornam pontuais, reativas;
  • O cliente percebe falta de alinhamento entre os advogados;
  • A cultura se dilui em práticas individuais, não institucionais.

O pior cenário é o da “liderança simbólica”: um sócio nominalmente responsável, mas sem influência real sobre as decisões e prioridades dos demais. Nesse modelo, o “líder” não lidera, ele apenas observa.

Literalmente, o pulo do gato tem mais a ver com conduzir do que com controlar.

Advogados respeitam líderes que sabem para onde estão indo, que dominam seu ofício e que, ao mesmo tempo, dão espaço para que cada profissional exerça sua autonomia com responsabilidade.

A liderança felina eficaz nesse contexto se sustenta em alguns pilares:

Clareza de visão. Nenhum gato segue um assobio, mas eles seguem um caminho se perceberem segurança, comida e abrigo. Advogados se engajam quando entendem o destino e confiam que o líder sabe a rota.

Convite, não imposição. Em vez de ordens verticais, convide à construção conjunta. A participação genuína na decisão aumenta o comprometimento com a execução.

Estrutura mínima, liberdade máxima. Regras demais sufocam, ausência de regras cria caos. O equilíbrio é ter processos claros para o que precisa ser padronizado (prazo, controle de qualidade, comunicação com cliente) e liberdade para que cada advogado desenvolva sua forma de trabalhar dentro desse quadro.

Reconhecimento com critério. Elogios vazios não funcionam. Reconheça o mérito real e mostre como isso contribuiu para o resultado do escritório. É sobre valorizar a entrega, não alimentar vaidades.

É aí que precisa entrar em cena a “coleira invisível” da governança.

Ocorre que gatos não usam coleiras. Mas, no mundo dos escritórios, a governança cumpre esse papel: ela alinha comportamento e decisões sem necessidade de comando constante.

Comitês, reuniões de pauta definida, políticas claras e critérios objetivos funcionam como essa “coleira invisível” que mantém todos no mesmo rumo. Assim, mesmo advogados muito independentes sabem o que se espera deles, quais são os limites e como suas ações impactam o coletivo.

O segredo para “domar os gatos” está no equilíbrio: permitir que cada um tenha seu estilo, mas dentro de uma estrutura comum que garanta consistência e resultados.

Quando advogados trabalham juntos por escolha, e não por obrigação, o engajamento é mais profundo. Eles se sentem parte de algo maior, e não apenas peças de um maquinário jurídico.

Isso exige três tipos de catnips1:

  • Cultura de responsabilidade compartilhada;
  • Escuta estruturada, para que críticas e ideias circulem antes que virem crises;
  • Clareza de indicadores, para que todos saibam como o desempenho é medido.

Já percebemos que liderar advogados não é transformá-los em cães obedientes. Afinal, são felinos e não caninos. É orquestrar os talentos independentes para que os miados aconteçam no mesmo tom.

Quando a liderança respeita a autonomia, mas oferece direção clara e mecanismos de alinhamento, o escritório deixa de ser um conjunto de profissionais isolados e se transforma em um time coeso, capaz de entregar mais, com mais qualidade e menos fricção.

No fim, a grande lição é esta: bons líderes de advogados não tentam domar gatos, mas sim aprendem a guiá-los na mesma direção, sem que eles percam a elegância de andar sozinhos.

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1 Catnip, cientificamente denominada Nepeta cataria, também conhecida como erva do gato, é uma planta in natura que possui a capacidade de modificar o comportamento de gatos domésticos e, inclusive, de felinos selvagens como leões, tigres, leopardos e jaguatiricas.

Colunista

Lara Selem é advogada, professora, escritora, palestrante, conselheira, advisor especialista em Gestão Legal, Sociedades de Advogados e Planejamento Estratégico para a Advocacia. Executive MBA pela Baldwin Wallace College (2002, EUA), especialista em Gestão de Serviços Jurídicos pela FGV-EDESP (2003, São Paulo, SP), Leading Professional Service Firms pela Harvard Business School (2006, Boston, EUA), Culture & Business in Arabic World pela Emirates Academy of Hospitality Management (2009, Dubai, UEA), Psicologia Transpessoal pela Unipaz (2015, Brasília-DF), Business Law in Practice for Transnational Lawyers pela Fordham Law School (2014, NY, EUA), Structural Issues in Law Firm Management pela Fordham Law School (2024, NY, EUA), Board Program pela StartSe (2025, São Paulo, SP).

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