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ISSN 1983-392X

Justiçamento - Lava Jato

terça-feira, 31 de março de 2015


"O nosso século tem estudado criminologia como gente."

Machado de Assis

Justiçamento - Lava Jato

Em debate realizado na OAB/DF, o conhecido criminalista Kakay comentou o que para ele são as inúmeras arbitrariedades perpetradas no âmbito da operação Lava Jato. Kakay chegou a falar em justiçamento, citando o "Código de Processo Penal de Curitiba" como exemplo das ilegalidades. Veja como foi.

Criminalista Machado de Assis

A frase de abertura deste nosso vibrante matutino foi colhida na edição de 1º de janeiro de 1893 da Gazeta de Notícias. Naquele vetusto jornal, Machado de Assis assinou - de abril de 1892 a março de 1897 -, uma coluna de crônicas intitulada "A Semana". Conta-nos o bruxo do Cosme Velho que na semana anterior tinham inventado um crime. Começava contando que "o nosso século tem estudado criminologia como gente", sem deixar de notar que "os italianos estão entre os que mais trabalham". Quanto ao crime, Machado dizia que um vizinho, velho advogado, teria assegurado que tal crime "não existe em tratadista algum moderno, seja de Parma ou da Sicília". E no melhor estilo machadiano, sugere : "Julgue o leitor por si mesmo". Então, vamos aos fatos :

O crime foi inventado em sessão pública do conselho municipal. Três intendentes, não concordando com a verificação de poderes, a qual se estava fazendo entre os demais eleitos, tinham recorrido ao presidente da República e aos tribunais judiciários, os quais todos se declararam incompetentes para decidir a questão. Não alcançando o que pediam, resolveram tomar assento no conselho municipal. Um deles, em discurso cordato, moderado e elogiativo, declarou que, no ponto a que as coisas chegaram, ele e os companheiros tinham de adotar um destes dois alvitres : renunciar ou tomar posse das cadeiras. "Renunciar (disse), entendemos que não podíamos fazê-lo, porquanto seria um crime..."

Narrados os acontecimentos, Machado de Assis retoma o discurso asseverando que talvez a renúncia seja realmente um crime. "Os crimes nascem, vivem e morrem como as outras criaturas. Matar, que é ainda hoje uma bela ação nas sociedades bárbaras, é um grande crime nas sociedades polidas. Furtar pode não ser punido em todos os casos ; mas em muitos o é. Nunca me há de esquecer um sujeito que, com o pretexto (aliás honesto) de estar chovendo, levou um guarda-chuva que vira à porta de uma loja ; o júri provou-lhe que a propriedade é coisa sagrada, ao menos, sob a forma de um guarda-chuva e condenou-o não sei a quantos meses de prisão." Cioso da dosimetria da pena, Machado de Assis pondera que "pode ter havido excesso no grau da pena ; mas a verdade é que de então para cá não me lembra que se haja furtado um só guarda-chuva". Para ele, "é assim que os crimes morrem ; é assim que a própria idéia de furto ou fraude (sinônimos neste escrito) irá acabando os seus dias de labutação na terra".

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Machado de Assis e o Direito

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