Gramatigalhas

Uniformidade de tratamento

Professor José Maria da Costa responde dúvida sobre uniformidade de tratamento.

3/11/2004

1) É de regra que, na fala e na escrita, o pronome escolhido para tratamento das pessoas espraie seus efeitos para todos os elementos envolvidos.

2) Assim, se se trata o interlocutor por vós, além de concordarem os verbos nessa pessoa, só se podem usar os pronomes oblíquos e os pronomes possessivos que a ela correspondem (vos, convosco, vosso, vossa, vossos, vossas); se, por outro lado, a pessoa for tratada por tu, os pronomes oblíquos haverão de ser teu, tua, teus, tuas (jamais seu, sua, seus, suas, não podendo, assim, haver mistura de pronomes). Exs.:

a) "Se você quer, vou até teu gabinete" (errado);

b) "Se você quer, vou até seu gabinete" (correto);

c) "Se tu queres, vou até seu gabinete" (errado);

d) "Se tu queres, vou até teu gabinete" (correto);

e) "Vou te contar uma coisa para você..." (errado).

3) Nesse exato sentido se dá a lição de Vasco Botelho de Amaral: "Misturar pronomes ou formas verbais na segunda pessoa do plural com pronomes ou formas verbais da terceira constitui um erro crasso".1

4) Em outra obra, o referido autor é ainda mais didático acerca do problema analisado: "Certa carta de um conhecido ministro estrangeiro publicada nos jornais portugueses, entre outros deslizes de tradução apresentava este: 'Foi com grande pesar que recebi a vossa decisão de não aceitar o cargo que lhe ofereci na remodelação do Ministério...' Onde se pôs vossa, devia estar evidentemente - sua. O inglês your não corresponde só a vosso, vossa, vossos, vossas; deve traduzir-se, não só às vezes por teu, tua, teus, tuas, mas, como ali na carta, por seu, sua, seus suas, de V., de V. Exa., etc".2

5) Não menos clara é a lição de Júlio Nogueira: "Não há, pois, redigir frases em que, sendo tu a forma de tratamento, se usem em relação à mesma os possessivos seu, sua e as variações o, a, lhe".3

6) No exemplo trazido pelo leitor, vê-se que o sujeito de achariam  é vocês (o qual, embora da segunda pessoa do discurso – aquela com quem se fala – leva o verbo para a terceira pessoa); apesar disso, traz-se, mais ao final, o pronome vossas, que só poderia referir-se a um vós (inexistente no caso). Há, portanto, no período, um erro de concordância, já que não se guarda a uniformidade do tratamento.

7) Tecnicamente, a correção do exemplo pode dar-se de dois modos:

a) “Não creio que acharíeis o fato hilário se fosse com vossas mães” (os interlocutores estariam sendo tratados por vós);

b) “Não creio que achariam o fato hilário se fosse com suas mães” (os interlocutores estariam sendo tratados por vocês).

8) Em termos práticos, como não é comum que, no linguajar diário, se tratem interlocutores por vós, a opção normal de uso deve ficar para o segundo modo de expressão.
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1 Cf. AMARAL, Vasco Botelho de. Problemas da Linguagem e do Estilo. Porto: Livraria Simões Lopes, 1948. p. 287.

2 Cf. AMARAL, Vasco Botelho de. A Bem da Língua Portuguesa. Lisboa: Edição da Revista de Portugal. 1943. p. 177.

3 Cf. NOGUEIRA, Júlio. A Linguagem Usual e a Composição. 13. ed. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, 1959. p. 75.

Colunista

José Maria da Costa é graduado em Direito, Letras e Pedagogia. Primeiro colocado no concurso de ingresso da Magistratura paulista. Advogado. Mestre e Doutor em Direito pela PUC/SP. Ex-Professor de Língua Latina, de Português do Curso Anglo-Latino de São Paulo, de Linguagem Forense na Escola Paulista de Magistratura, de Direito Civil na Universidade de Ribeirão Preto e na ESA da OAB/SP. Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras Jurídicas. Sócio-fundador do escritório Abrahão Issa Neto e José Maria da Costa Sociedade de Advogados.

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