Marizalhas

Baús e armários: Quantos fantasmas!

O texto trata da memória familiar e da importância de preservar e revelar histórias do passado, usando a metáfora de dois espaços simbólicos: o baú e o armário.

20/1/2026

Todas as famílias mantem o seu baú ou o seu armário. Em ambos ficam trancados a sete chaves. Por vezes são abertos.

O baú guarda lembranças na forma de documentos, escritos, cartas, pequenas relíquias, enfim todo um acervo revelador de múltiplos passados, vividos em épocas e por   espectadores diversos.

Já o armário é um depósito de fatos e de pessoas que se deseja fiquem ocultos e envoltos em indecifrável mistério. Representam o que se denomina de "esqueletos do armário". Acontecimentos irreveláveis e personagens enterrados em nossas memórias.

Pois bem, eu diria que a minha família, dos quatro lados, avô, avó paternos e avô e avó maternos possuem armários, mas os escondem tornando-os inacessíveis, quase absolutamente. Poucos e inofensivos são os esqueletos que escaparam.

Quanto ao baú ele transborda de eventos, recordações, lembranças doces, amáveis, que acalentam a alma. Algumas poucas amargas, em regra relacionadas às perdas dos entes amados, parentes, amigos e até gente que não conhecemos, mas sabemos que fazem falta.

À medida que o tempo avança o baú vai ficando lotado e por vezes transborda. Outros devem vir em socorro. Tantos quantos necessários. Aliás, sempre achei que os baús de cada família deveriam ser abertos para o seu conteúdo ser gravado e escrito. Esse registro perpetuaria eventos, lembranças, ocorrências que podem compor a história de uma época determinada. Esse rol teria o condão de refletir com mais fidelidade a realidade do que a própria história oficial.

Nessa linha do meu baú, hoje retiro um episódio que envolve um irmão de meu pai, Eugênio Mariz de Oliveira Neto, tio Marizito.

Combatente de 1932, suspendeu o curso de Medicina para lutar com São Paulo para que o Brasil tivesse uma Constituição. Fomos derrotados na revolta, mas vitoriosos no objetivo, pois dois anos após uma Carta Magna nos foi outorgada.

Posteriormente, meu tio Eugênio tornou-se um dos maiores psiquiatras do Brasil.

Com a derrota dos paulistas, consta que ele chegou à sua casa escondido em uma carroça de entregas, leite ou pão. Graças à solidariedade de um seu conterrâneo, que lhe deu carona para a fuga, pode chegar à casa de seus pais, meus avós.

Essa ocorrência não era muito comentada por ele ou pela família. Uma única vez a ouvi de meu pai, que também foi responsável por outra narrativa que conto a seguir.

A fonte histórica, ou seja, o baú, dessas e de outras infindáveis narrativas, parece não se secar. Creio que outros e muitos outros episódios estão no baú e eu continuarei a removê-los para revelá-los. 

Na mesma década de trinta, meu avô Waldemar Mariz de Oliveira, adquiriu uma pequena chácara na então Vila Conceição, hoje a próspera Diadema. Eu desde a infância a frequentava, primeiro com a família, posteriormente com meus amigos da gloriosa rua Stella. Formávamos a Turma Stella – T.S.    

Voltando ao nosso herói de 32, ele não só chegou a São Paulo como clandestino, como enterrou na chácara de meu avô o seu fuzil. Esse não foi encontrado, apesar de nossos esforços por anos para encontrá-lo.

Tio Marizito também levou para a Chácara Zizi, assim chamada em homenagem à minha avó Zulmira, uma caixa repleta de munição. Projeteis que, possivelmente, municiariam a arma. Mas, parece não ter havido tempo para tanto. Estavam todos intactos. Os projeteis não foram bem escondidos pois eu mesmo os achei.  

Abrir o baú é arejar as nossas mentes, suavizar nosso espírito e, especialmente manter vivos aqueles que jamais se foram. 

Talvez um dia eu fale dos esqueletos do armário dos Marizes.

Colunista

Antonio Cláudio Mariz de Oliveira é advogado.

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