Todas as famílias mantem o seu baú ou o seu armário. Em ambos ficam trancados a sete chaves. Por vezes são abertos.
O baú guarda lembranças na forma de documentos, escritos, cartas, pequenas relíquias, enfim todo um acervo revelador de múltiplos passados, vividos em épocas e por espectadores diversos.
Já o armário é um depósito de fatos e de pessoas que se deseja fiquem ocultos e envoltos em indecifrável mistério. Representam o que se denomina de "esqueletos do armário". Acontecimentos irreveláveis e personagens enterrados em nossas memórias.
Pois bem, eu diria que a minha família, dos quatro lados, avô, avó paternos e avô e avó maternos possuem armários, mas os escondem tornando-os inacessíveis, quase absolutamente. Poucos e inofensivos são os esqueletos que escaparam.
Quanto ao baú ele transborda de eventos, recordações, lembranças doces, amáveis, que acalentam a alma. Algumas poucas amargas, em regra relacionadas às perdas dos entes amados, parentes, amigos e até gente que não conhecemos, mas sabemos que fazem falta.
À medida que o tempo avança o baú vai ficando lotado e por vezes transborda. Outros devem vir em socorro. Tantos quantos necessários. Aliás, sempre achei que os baús de cada família deveriam ser abertos para o seu conteúdo ser gravado e escrito. Esse registro perpetuaria eventos, lembranças, ocorrências que podem compor a história de uma época determinada. Esse rol teria o condão de refletir com mais fidelidade a realidade do que a própria história oficial.
Nessa linha do meu baú, hoje retiro um episódio que envolve um irmão de meu pai, Eugênio Mariz de Oliveira Neto, tio Marizito.
Combatente de 1932, suspendeu o curso de Medicina para lutar com São Paulo para que o Brasil tivesse uma Constituição. Fomos derrotados na revolta, mas vitoriosos no objetivo, pois dois anos após uma Carta Magna nos foi outorgada.
Posteriormente, meu tio Eugênio tornou-se um dos maiores psiquiatras do Brasil.
Com a derrota dos paulistas, consta que ele chegou à sua casa escondido em uma carroça de entregas, leite ou pão. Graças à solidariedade de um seu conterrâneo, que lhe deu carona para a fuga, pode chegar à casa de seus pais, meus avós.
Essa ocorrência não era muito comentada por ele ou pela família. Uma única vez a ouvi de meu pai, que também foi responsável por outra narrativa que conto a seguir.
A fonte histórica, ou seja, o baú, dessas e de outras infindáveis narrativas, parece não se secar. Creio que outros e muitos outros episódios estão no baú e eu continuarei a removê-los para revelá-los.
Na mesma década de trinta, meu avô Waldemar Mariz de Oliveira, adquiriu uma pequena chácara na então Vila Conceição, hoje a próspera Diadema. Eu desde a infância a frequentava, primeiro com a família, posteriormente com meus amigos da gloriosa rua Stella. Formávamos a Turma Stella – T.S.
Voltando ao nosso herói de 32, ele não só chegou a São Paulo como clandestino, como enterrou na chácara de meu avô o seu fuzil. Esse não foi encontrado, apesar de nossos esforços por anos para encontrá-lo.
Tio Marizito também levou para a Chácara Zizi, assim chamada em homenagem à minha avó Zulmira, uma caixa repleta de munição. Projeteis que, possivelmente, municiariam a arma. Mas, parece não ter havido tempo para tanto. Estavam todos intactos. Os projeteis não foram bem escondidos pois eu mesmo os achei.
Abrir o baú é arejar as nossas mentes, suavizar nosso espírito e, especialmente manter vivos aqueles que jamais se foram.
Talvez um dia eu fale dos esqueletos do armário dos Marizes.