Constantino de Oliveira Júnior, fundador da Gol Linhas Aéreas, nos deixou no último dia 24/1. Conheci Júnior não apenas como empresário bem-sucedido e responsável por uma enorme transformação na aviação brasileira, mas como amigo. Conheci sua família, acompanhei de perto sua trajetória e testemunhei sua coragem em momentos decisivos da construção da Gol.
Minha ligação com a aviação vem de antes ainda: meu pai, François E. Moreau, foi executivo da empresa aérea Cruzeiro do Sul; meu irmão, Edouard Moreau, também é um apaixonado por aviação.
Ainda na juventude, acabei me tornando amigo de Joaquim Constantino, irmão de Júnior, quando a família ainda concentrava a sua atuação no ramo de transporte rodoviário. Ao lado de Joaquim, vivi muitos momentos alegres. A alegria, aliás, é uma das marcas da família Constantino, que levou sua energia e postura positiva para o desenvolvimento das suas empresas, formando um grande império no setor de transportes no Brasil, dentro da holding Comporte (antigo Grupo Áurea), composta por diversas companhias de ônibus e atuante ainda no setor ferroviário.
Os filhos de Nenê Constantino - quem começou tudo - sempre trabalharam nas empresas da família e a expansão para o setor aéreo parecia fazer sentido para o grupo, em meio às transformações do setor em todo o mundo, com o transporte aéreo se mostrando cada vez mais acessível.
Quando os Constantino começaram a pensar na criação da Gol, tivemos boas conversas sobre o assunto. Falamos da escolha da agência de publicidade DPZ e do nome Gol, de funding e, como não poderia deixar de ser, de propósito. A ideia não era apenas expandir o grupo, mas democratizar o transporte aéreo no Brasil se tornou uma convicção operacional e estratégica, o que faria a Gol ser a primeira companhia aérea brasileira a operar com o modelo de baixo custo e alta eficiência (low cost).
Alguns anos depois, quando a Gol buscava investidores para fazer uma operação de private equity e, num segundo momento, surgiu a ideia de abrir o capital na bolsa brasileira, voltamos a conversar. Henrique Constantino esteve comigo e trocamos algumas ideias. Eu sugeri, por exemplo, que ele conversasse com algumas instituições do mercado como o BBA (atual Itaú BBA), liderado por Candido Bracher, e o Credit Suisse.
Em 2004, a Gol passou a operar na bolsa, apenas cerca de três anos após a sua fundação. Nos primeiros anos de operação, com Júnior se firmando à frente da companhia, a empresa crescia rápido, mas sempre buscando a disciplina mais do que necessária em um setor com altos custos e investimentos. Ele seguiu seu próprio caminho como empresário e mostrou que também tinha faro para reduzir custos, buscar eficiência, além de uma capacidade incomum de simplificar decisões complexas.
A Gol ia muito bem quando, em 2006, ocorreu um dos momentos mais duros de sua história: a colisão de um Boeing da companhia com um jato Legacy, da ExcelAire, empresa norte-americana que havia acabado de adquirir a aeronave da Embraer. Ao todo, 154 vidas a bordo do avião da Gol foram ceifadas. Foi um período devastador.
A colisão se mostrou resultado da irresponsabilidade dos pilotos norte-americanos do jato, que desligaram – alegadamente de forma involuntária - o transponder (equipamento que ajuda na identificação no radar de controle de tráfego aéreo). Entretanto, em meio às investigações, houve versões conflitantes, disputas narrativas, inclusive a falta de colaboração da Justiça dos Estados Unidos, o que fez com que os pilotos nunca chegassem a cumprir a pena a que foram condenados no Brasil pelos erros cometidos. Ficou a sensação, mais atual do que nunca, de que a América do Sul muitas vezes é tratada como quintal dos Estados Unidos.
O acidente foi um baque pessoal para Júnior e para a Gol, na época uma companhia low cost com poucos anos no mercado. Mesmo levando em consideração possíveis riscos, impossível prever uma colisão em pleno ar causada por erros grotescos de pilotos de um jato. Porém, Constantino mostrou ali coragem e uma postura decisiva para enfrentar a dor, a responsabilidade e a pressão pública com sensibilidade, firmeza e humanidade.
Lembrei imediatamente da conduta de Júnior ao assistir uma aula do professor Ranjay Gulati, na Harvard Business School, recentemente. Reconhecido como um dos pensadores de gestão mais influentes do mundo e autor de obras como “How to Be Bold: The Surprising Science of Everyday Courage”, Gulati defende que todos podem - e devem - aprender a ser corajosos, e que a coragem não é ausência de medo, mas ação orientada por valores, apesar dele. É o desenvolvimento dessa habilidade que fará com que líderes não hesitem em agir em tempos voláteis e incertos, conduzindo da melhor forma suas empresas. Em meio a essa crise, Júnior nunca terceirizou o sofrimento nem se escondeu, e exemplificou como poucos que “a moeda para sobreviver em uma era de incertezas é a coragem”, como diz Gulati.
Anos mais tarde, quando Júnior decidiu que deixaria a presidência e iria para o conselho de administração da Gol, ele relatou que durante a busca por um novo CEO tinha uma pergunta que fazia a todos os candidatos: “O que você faria se houvesse um acidente aéreo?”. A maioria travava. Ele próprio contou essa dificuldade em uma palestra na Casa do Saber, a meu convite. Não buscava uma resposta técnica perfeita, mas a compreensão de que liderança, em certos momentos, é atravessar o fogo com dignidade e clareza de valores.
Nessa mesma palestra estava Mariana Caltabiano, autora do livro “Vips: Histórias Reais de um Mentiroso” que contou a história de Marcelo Nascimento da Rocha, um golpista que fingiu ser Henrique Constantino, irmão de Júnior. Mariana buscava apoio para transformar a obra em filme. A Gol, compreensivelmente, não se envolveu financeiramente, já que decisões de patrocínio envolvem inúmeros fatores. Porém, nunca impediu que a marca da Gol aparecesse no livro ou mesmo no filme. Mais uma vez, pude ver a postura exemplar de Júnior, que ouviu Mariana com grande respeito e educação, além de nunca ter interferido na obra ou colocado qualquer obstáculo. Pequenos gestos que revelam caráter.
O escolhido para o cargo de CEO da Gol foi Paulo Kakinoff, executivo vindo do setor automotivo, e que conduziu a empresa por uma década. Kakinoff, aliás, foi um dos presidentes que contou sua história no livro "A Nova Geração de CEOs" (Portfolio Penguin, 2018), que organizei ao lado da editora do Brazil Journal, Giuliana Napolitano, e outros.
Ranjay Gulati diz que coragem se constrói de dentro para fora, quando valores claros orientam decisões difíceis. Constantino de Oliveira Júnior era assim. Uma pessoa e empresário corajoso não porque ignorasse o medo, mas porque sabia conviver com ele sem paralisar. Tinha propósito, senso de responsabilidade e uma rara capacidade de agir quando muitos prefeririam esperar.
O Brasil perdeu um empresário visionário, que deixou um grande legado, e eu perdi um amigo que admirava. Mas ficam algumas lições: coragem não é impulso ou improviso, é estratégia, constância e preparo. E, às vezes, é simplesmente continuar voando quando o céu escurece - porque a vida não pode parar e alguém precisa manter o avião no ar.