Ordem na Banca

A miopia tecnológica: Quando o escritório só reage depois que a IA já destravou vantagem para outros

Escritórios sofrem com miopia tecnológica: quem ignora a inovação perde eficiência, credibilidade e vantagem competitiva; a tecnologia hoje é condição mínima para crescer.

14/1/2026

Advogados enxergam muito bem quando o tema é risco jurídico. Mas quando o assunto é tecnologia, a percepção costuma ser tardia. O escritório só se interessa quando “todo mundo já está usando”, quando o cliente pergunta, ou quando a concorrência começa a ganhar eficiência visível.

A essa altura, a vantagem competitiva já mudou de mãos.

Isso tem nome: miopia tecnológica.

E ela está custando caro para muitos escritórios.

A tecnologia não chega quando o sócio decide adotá-la.

Ela chega quando muda o comportamento do mercado.

Hoje, clientes esperam:

  • Respostas mais rápidas;
  • Informações organizadas;
  • Previsibilidade de prazo;
  • Relatórios claros;
  • Menos ruído e mais precisão;
  • Eficiência como padrão, não como diferencial.

Eles não estão pedindo tecnologia.

Eles já estão vivendo tecnologia.

O escritório que ignora esse movimento não perde só produtividade.

Perde credibilidade competitiva.

E por que tantos escritórios têm dificuldade de enxergar o impacto da tecnologia?

Três razões principais:

1. O sócio acha que tecnologia é ferramenta, não direção

E fica preso na pergunta errada:

“Qual software eu devo contratar?”

A pergunta certa é:

“O que mudou na forma de trabalhar e decidir?”

Tecnologia não é ferramenta.

É mudança de lógica.

2. O escritório confunde conforto com eficiência

Muita coisa “funciona”.

Mas funciona porque alguém segura no braço, revisa três vezes, refaz manualmente ou trabalha até tarde.

Isso não é eficiência.

É sacrifício.

E sacrifício não escala.

3. O jurídico valoriza tradição e subestima inovação

Há um medo quase instintivo de abandonar processos antigos.

Mas tradição só faz sentido quando mantém o que funciona - não quando impede o que melhora.

O que era boa prática em 2010 é gargalo em 2025.

A miopia tecnológica não atrasa só processos.

Atrasa decisões.

E decisões ruins saem muito mais caras que ferramentas mal escolhidas.

Exemplos reais de atraso estratégico:

  • Não automatizar triagens de publicações;
  • Não mapear dados que poderiam orientar decisões;
  • Não padronizar fluxos simples que consomem horas de advogados caros;
  • Não integrar áreas e sistemas;
  • Não repensar como a equipe se organiza;
  • Não revisar o modelo de serviço à luz da tecnologia disponível.

Isso tudo tem impacto direto em:

  • Margem;
  • Velocidade;
  • Qualidade;
  • Risco;
  • Retenção de talentos;
  • Experiência do cliente.

Tecnologia deixa de ser uma alternativa.

Vira condição mínima de competitividade.

O problema nunca é falta de ferramenta.

É falta de leitura estratégica.

Na nossa análise, tecnologia não aparece como software.

Ela aparece como sinal.

O sócio tem que aprender a perguntar:

  • O que essa tecnologia muda no comportamento do cliente?
  • O que ela muda na forma de entregar valor?
  • O que ela muda na estrutura de custos do escritório?
  • O que ela muda na expectativa de prazo?
  • O que ela muda no meu modelo de negócio?

A partir daí, tecnologia deixa de ser gasto e vira vantagem.

A tecnologia não substitui advogado.

Substitui escritório lento.

Escritórios menores estão ganhando terreno porque conseguem:

  • Operar com mais fluidez;
  • Tomar decisões mais rápidas;
  • Gerar mais dados em menos tempo;
  • Padronizar entregas;
  • Liberar advogados para atividades de maior valor;
  • Absorver demandas que escritórios maiores executam de forma pesada.

O diferencial não está na ferramenta.

Está na mentalidade.

O antídoto para a miopia tecnológica é visão integrada.

O escritório precisa desenvolver três capacidades:

1. Interpretar o avanço tecnológico como tendência, não como ameaça

Ver IA, automação e analítica como oportunidade competitiva.

2. Reorganizar o modelo de trabalho

Simplificar fluxos, automatizar o repetitivo, medir o que importa.

3. Decidir com base em hipótese estratégica

“Se a automação avançar, então nossa equipe deve ser reorganizada.”

“Se o cliente exigir mais previsibilidade, então precisamos integrar dados.”

A tecnologia vira parte da estratégia, não um acessório.

O futuro será cruel com escritórios que enxergam tarde

E generoso com escritórios que interpretam cedo.

A tecnologia virou uma camada invisível que separa quem cresce de quem apenas trabalha.

Escritórios que acordam agora ainda têm vantagem.

Os que adiam vão pagar mais caro depois.

A pergunta que um sócio sério precisa fazer é direta:

O que a tecnologia já mudou no mercado que eu ainda não deixei mudar no meu escritório?

A resposta define quem entra no futuro com vantagem.

E quem vai correr atrás tentando recuperar terreno perdido.

Colunista

Lara Selem é advogada, professora, escritora, conselheira consultiva, advisor e mentora especialista em Gestão Legal, Sociedades de Advogados e Planejamento Estratégico para a Advocacia. É membro da Comissão Nacional de Sociedades de Advogados do Conselho Federal da OAB. Foi presidente da Comissão Especial de Gestão, Empreendedorismo e Inovação do Conselho Federal da OAB (2019-2021). Participa ativamente do Comitê de Administração e Ética Profissional (CADEP) do Centro de Estudos de Sociedades de Advogados (CESA). Membro da Association of Legal Administrators (ALA) desde 2009. Coordenadora científica do MBA Internacional em Gestão de Escritório de Advocacia (Faculdade Baiana de Direito e Gestão). Autora de 20 obras sobre gestão de escritórios de advocacia.

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