Há momentos em que a história parece perder a compostura e deixar à mostra, sem intermediações retóricas, a arquitetura real do poder. O presente é um desses momentos. A atual crise de energia não se parece, em tudo, com os choques do petróleo dos anos 1970, embora com eles dialogue em sua capacidade de corroer renda, alterar expectativas e deslocar o centro de gravidade da política. O que a torna singular é a coexistência de um choque energético abrupto com um quadro fiscal já exaurido, em que as principais economias do mundo ingressam na turbulência carregando dívidas imensas, déficits persistentes e sociedades fatigadas pela inflação, pela insegurança e pela sensação de perda de controle. Não se trata mais de um ciclo adverso típico, a ser amortecido por colchões fiscais acumulados em tempos de bonança. Trata-se, ao contrário, de uma crise que irrompe quando o Estado já entrou em campo sobrecarregado.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o problema já não pode ser descrito como mera folga circunstancial da política fiscal. Os déficits se converteram em estrutura (de governar), e não em desvio (de governantes). O dado mais expressivo não é apenas o tamanho do rombo anual, que volta a flertar com patamares extraordinários para uma economia desenvolvida fora de uma recessão clássica (cíclica), mas a naturalização da ideia de que o desequilíbrio permanente seria administrável enquanto o dólar conservar seu privilégio imperial – nesse sentido, risco é a política externa de Trump. Esse cálculo, contudo, torna-se mais arriscado quando o mercado começa a exigir prêmio maior para financiar o Tesouro. O ponto central é este: não estamos diante apenas de governos deficitários, mas de um sistema internacional cujo estoque global de dívida já alcança cifras próximas de US$ 350 trilhões e continua a subir. Em tal ambiente, qualquer choque relevante de energia deixa de ser um problema setorial para se converter, rapidamente, em problema monetário, fiscal e social – em tempos de financeirização isso é crítico ser entendido e enfrentado.
Os governos, diante da alta veloz do petróleo, do gás e dos custos logísticos, voltam a recorrer ao Erário como anteparo. Seu objetivo imediato é racional e politicamente compreensível: impedir que o aumento da energia se traduza, de um dia para o outro, em compressão brutal da renda disponível das famílias e em aceleração adicional da inflação. Subsídios explícitos, alívios tributários, recomposição de estoques, apoio a cadeias críticas e mecanismos compensatórios diversos reaparecem, sob novas formas, como instrumentos de contenção. O problema é que tais respostas, embora socialmente defensáveis no curtíssimo prazo, transferem a conta para balanços públicos já saturados. O Estado amortece a perda privada imediata, mas o faz à custa de dívida futura, emissão adicional e menor margem de manobra adiante. O que parecia remédio conjuntural passa, então, a alimentar a doença estrutural.
A reação dos títulos soberanos é talvez o sintoma mais eloquente dessa mutação. Em circunstâncias normais, a perspectiva de desaceleração global deveria empurrar para baixo os juros de médio e longo prazo, em movimento típico de busca por proteção. Não é o que se vê com nitidez suficiente. A alta recente dos rendimentos dos treasuries norte-americanos (títulos do governo), inclusive em vértices como cinco e dez anos, sugere que o mercado já enxerga um risco mais complexo: não apenas o de menor atividade, mas o de inflação resistente, finanças públicas mais frágeis e oferta de títulos ainda maior para custear guerra, proteção social e rolagem de dívida. Em outras palavras, a curva passa a carregar uma espécie de memória do choque energético e da imprudência fiscal: aí vem a estagflação. Quando até o ativo mais líquido e profundo do mundo deixa de se beneficiar plenamente do medo, o sinal emitido ao restante do sistema é inequívoco: o preço do dinheiro está sendo reescrito em ambiente de incerteza política, não apenas econômica.
Esse pano de fundo se agrava pela militarização acelerada do gasto público. A nova política externa dos Estados Unidos, menos inclinada à linguagem da comunidade estratégica e mais afeita a uma lógica de adesão instrumental, estimula uma corrida por rearmamento entre aliados que já não se sentem propriamente protegidos, mas apenas funcionalmente associados. O resultado é previsível: mais dispêndio militar, mais pressões sobre orçamentos nacionais e mais competição entre prioridades incompatíveis. Cada dólar, euro ou libra direcionado à defesa é um dólar, euro ou libra a menos para infraestrutura, saúde, transição energética ou amortização de dívida. O que se forma, desse modo, é uma economia política da insegurança, na qual o gasto extraordinário deixa de ser exceção e tende a se converter em paisagem permanente. A guerra, além de seus custos morais e humanos, reintroduz a lógica da escassez administrada como forma de governo. Isso vale para todos os países centrais do capitalismo.
No centro desse quadro, a autoridade monetária norte-americana tampouco oferece o conforto de outrora. O Federal Reserve, o banco central dos EUA, que há meia década convive com inflação acima da meta de 2% ou com progresso demasiadamente lento para reconduzi-la de modo convincente ao alvo, já não desfruta da mesma aura de infalibilidade técnica que marcou outras fases. A persistência de inflação elevada não é um detalhe estatístico: ela corrói a credibilidade da âncora nominal em torno da qual se organiza o restante do sistema financeiro internacional. Se a moeda de reserva do planeta não consegue restabelecer com firmeza o seu padrão de estabilidade, todo o edifício global passa a operar sob maior prêmio de risco. A isso se soma o encarecimento do crédito privado, a elevação das taxas de inadimplência em vários segmentos e o desconforto crescente com a qualidade das carteiras de financiamento, inclusive no universo do crédito privado não bancário. Jamie Dimon, CEO do JP Morgan, tem razão ao alertar que projeções otimistas demais, no instante da concessão, costumam ser o primeiro nome elegante do erro antes que ele reapareça, mais tarde, sob o nome prosaico de perda.
O Brasil, por sua vez, participa dessa crise em chave própria e reveladora. Aqui, a combinação entre fragmentação política, hipertrofia das emendas parlamentares, baixa coordenação decisória e taxa real de juros persistentemente elevadíssima produz um tipo particular de exaustão fiscal. Mesmo quando o governo logra superávits pontuais ou melhora transitória de arrecadação, o custo da dívida corrói os ganhos e recoloca a trajetória sob tensão – esse é um problema estrutural há mais de uma década. Durante anos, o país conviveu com juros reais acima de 6% ao ano, em muitos momentos bastante superiores a isso, o que significa, na prática, uma máquina silenciosa de transferência de renda para o serviço da dívida e de compressão do investimento produtivo. Ao mesmo tempo, o crédito privado torna-se mais caro, as famílias se comprimem, as empresas perdem fôlego e os balanços e resultados das instituições financeiras começam a refletir, com atraso, a soma de decisões tomadas num ambiente em que o dinheiro parecia apenas caro, e não escasso. O que emerge é um país no qual a política fiscal disputa oxigênio com a política monetária sem que nenhuma das duas consiga, isoladamente, restaurar a confiança. Problema cuja gravidade precisa ser enfrentada no âmbito das próximas eleições (quase) gerais do Brasil.
Como se não bastassem dívida, guerra, inflação e crédito tenso, a revolução tecnológica adiciona uma camada nova de instabilidade. A IA e a virtualização crescente dos processos produtivos não apenas elevam produtividade potencial: estas também comprimem intermediações, redesenham profissões, alteram o poder de barganha entre capital e trabalho e deslocam conflitos distributivos para terrenos ainda muito mal ou pouco regulados. O problema do nosso tempo não é apenas o de produzir mais, mas o de distribuir sentido, renda, riqueza e pertencimento em sociedades que percebem, difusamente, que a técnica avança mais depressa do que as instituições. Em épocas assim, a desorganização material encontra facilmente sua tradução política: ressentimento, polarização, desconfiança das elites, personalização extrema do poder e desejo social por soluções simples para problemas estruturalmente complexos.
É nesse exato instante que o calendário eleitoral se torna decisivo. O ano de 2026 concentra eleições ou disputas parlamentares muito relevantes em países como Brasil, Rússia, Peru, Colômbia, Suécia, Israel, Estados Unidos e Nova Zelândia. Em 2027, o foco desloca-se para Itália, França, Argentina, Nigéria, Espanha e México. Se tomarmos o mapa hoje sugerido pelas inclinações predominantes, teríamos cinco disputas tendendo à esquerda - Brasil, Suécia, Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nova Zelândia e México -, oito inclinadas à direita - Peru, Rússia, Israel, Senado norte-americano, França, Espanha, Itália e Argentina - e uma de franca incerteza, a Colômbia. Isso significa que os dois ciclos mais sensíveis para os mercados e para a política internacional, neste recorte, tendem a ser Brasil e Estados Unidos em 2026, seguidos por França, Itália, Argentina, México e Espanha em 2027. Não porque os demais sejam irrelevantes, mas porque nesses casos se combinam massa econômica, poder de contágio político e capacidade relativa de influenciar a direção geral do Ocidente.
A pergunta decisiva, contudo, não é apenas quem vencerá, mas que espécie de governante emergirá desse ambiente deteriorado. Serão os eleitos capazes de formular políticas públicas fortes, coerentes e tecnicamente sustentáveis para atravessar um mundo de energia cara, dívida alta e desordem estratégica? Permanecerão fiéis aos compromissos que os levaram ao poder ou trairão, sob a pressão das circunstâncias, o eleitorado que neles projetou sua esperança? Como reagirão à nova política externa dos Estados Unidos, que cobra alinhamento sem oferecer, na mesma medida, previsibilidade? E, sobretudo, como administrarão as disrupções sociais e políticas que já se insinuam nas ruas, nas redes, no mercado de trabalho e nos sistemas de crédito? A democracia entra, assim, num teste severo: não o de produzir apenas alternância, mas o de produzir direção. Em épocas ordinárias, eleger é escolher um programa. Em épocas como a nossa, eleger talvez seja decidir se ainda haverá, no Estado, inteligência e autoridade suficientes para impedir que a crise econômica se transforme, de uma vez por todas, em uma crise de civilização, na falta de melhor termo.
No fundo, o que estará em julgamento nas urnas não será apenas a preferência entre esquerda, centro ou direita, mas a aptidão do poder político para reconstruir capacidade estatal num tempo em que o mercado perdeu a inocência, a sociedade perdeu paciência e a geopolítica voltou a impor custos concretos à vida cotidiana de forma exótica e inusitada. O veredito eleitoral poderá alterar maiorias, mas só produzirá estabilidade se vier acompanhado de lucidez fiscal, coragem reformista e alguma ideia renovada de solidariedade nacional para construir um "novo desenvolvimento".