COLUNAS

  1. Home >
  2. Colunas >
  3. Ordem na Banca >
  4. Os sete inimigos da sua advocacia

Os sete inimigos da sua advocacia

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Atualizado em 12 de maio de 2026 13:47

Há uma pergunta que volta e meia aparece nas rodas de sócios, nos conselhos e nas conversas de bastidor dos escritórios: afinal, quem são os grandes inimigos da gestão na advocacia? 

Muita gente imagina que a resposta está do lado de fora da banca. A economia. A concorrência. A pressão dos clientes. A inteligência artificial. A dificuldade de contratar. A nova geração. Tudo isso, claro, influencia. Mas não passa nem perto do núcleo do problema. 

Os sete maiores inimigos, quando o assunto é gestão, costumam ser provocados por quem está confortavelmente sentado na cadeira de sócio. 

E isso precisa ser dito com a clareza: há escritórios que não sofrem por falta de talento, nem por ausência de demanda, nem por deficiência técnica. Sofrem porque o modelo mental da sociedade não amadureceu na velocidade que deveria. 

O escritório cresce. A complexidade cresce. A equipe cresce. O número de clientes cresce. Mas o centro decisório continua pequeno, informal, personalista e excessivamente enclausurado. O resultado é previsível: o sócio vira gargalo, a equipe perde autonomia, a operação fica dependente de intervenção constante e a gestão passa a viver em modo de urgência. 

Vamos começar pelo sétimo grande inimigo: A CONFUSÃO DE NÃO SABER SER, AO MESMO TEMPO, ADVOGADO, DONO E GESTOR. 

Nem todo excelente advogado é, automaticamente, um bom gestor. Nem todo fundador é, por natureza, um líder inspirador. Nem todo sócio operacional está preparado para governar pessoas, processos, cultura, margem e futuro. Quando essas funções se misturam, o escritório perde nitidez. 

O advogado olha o caso.

O sócio deveria olhar o negócio.

O gestor precisa olhar o sistema. 

Quando uma única pessoa tenta exercer tudo ao mesmo tempo, geralmente ela não lidera nenhuma dessas frentes com profundidade. Apenas vive a síndrome do pato: anda mal, nada mal e voa mal. 

O sexto inimigo é a CENTRALIZAÇÃO CRÔNICA, um vício silencioso que muitos ainda confundem com zelo, excelência ou liderança. 

Não é. 

Sócio que aprova tudo não lidera. Sócio que decide tudo não governa. Sócio que precisa ser consultado para tudo constrói dependência, não maturidade institucional. 

A centralização é sedutora porque dá aquela gostosa sensação de controle. Mas cobra um preço altíssimo. Reduz velocidade, infantiliza a equipe, sufoca lideranças intermediárias, impede a formação de sucessores e torna o escritório frágil demais para crescer. 

Escritório com gestão centralizada pode até faturar bem por algum tempo. O que ele não consegue é criar liberdade, perpetuidade e consistência. 

E aqui está um ponto incômodo, mas necessário: há sócios que reclamam de sobrecarga, quando na verdade são os verdadeiros arquitetos dela. São apegados. Não conseguem soltar. Não treinam para autonomia. Não criam processos. Não definem alçadas. Não aceitam erro como parte do amadurecimento. E depois concluem que a equipe “não performa”.

Muitas vezes, não é a equipe que não entrega. É o sistema que não permite. 

O quinto inimigo é a INFORMALIDADE SOCIETÁRIA. 

Durante muito tempo, muitos escritórios sobreviveram com acordos de fio do bigode, combinações históricas, arranjos emocionais e regras que “todo mundo conhece”. O problema é que aquilo que funciona em estruturas pequenas entra em colapso quando o escritório cresce, diversifica áreas, multiplica unidades, incorpora novas gerações ou enfrenta tensões de remuneração, poder e sucessão. 

Sem governança, tudo vira ruído.

Sem critério, tudo vira achismo.

Sem regra, tudo vira política. 

O que deveria ser institucional passa a ser pessoal. O que deveria ser resolvido por instância passa a ser resolvido por afinidade. O que deveria estar no acordo de sócios acaba sendo discutido no corredor, no almoço, na reunião atravessada ou no ressentimento acumulado. Quem nunca? 

Governança, em escritório de advocacia, não é firula corporativa. É infraestrutura de longevidade. 

O quarto inimigo é o ILUSIONISMO FINANCEIRO.

Há bancas que faturam muito e lucram mal. Há sócios ricos na pessoa física e pobres na jurídica. Há sociedades que se orgulham do somatório da receita, mas não conhecem sua margem, seu custo por área, sua rentabilidade por cliente, seu índice real de recebimento ou o peso da improdutividade disfarçada de tradição. 

Sem inteligência econômico-financeira, os sócios tomam decisões com base em impressão, não em evidências. Mantém cliente deficitário porque o volume impressiona. Tolera contratos ruins porque teme perder faturamento. Distribui resultado sem meritocracia. Cresce sem caixa, no escuro. Investe sem orçamento. Precifica mal. Confunde movimento com saúde. 

O financeiro não é tema acessório. Escritório que não entende seus números não está sendo conservador. Está sendo imprudente. 

O terceiro inimigo é o EXCESSO DE TOLERÂNCIA AO DESALINHAMENTO HUMANO. 

Talvez este seja o mais caro de todos, porque apodrece a maçã de dentro para fora. 

Aquele sócio improdutivo que ninguém enfrenta.

O rainmaker tóxico que capta clientes, mas destrói a cultura.

O advogado brilhante que segue as suas próprias regras.

O gestor sem autoridade moral.

O colaborador que sabota o clima, a disciplina e o padrão. 

Toda vez que a liderança tolera por tempo demais a pessoa errada, ela ensina aos demais que determinados comportamentos compensam tudo, inclusive desvio de conduta, incoerência e corrosão cultural. 

Não compensam. 

Na advocacia, cultura não é um quadro pendurado na parede. Cultura é o que a liderança permite diariamente. E tudo aquilo que o sócio não corrige com clareza acaba virando norma informal. Oriunda da força mais poderosa que existe: o exemplo. 

O segundo inimigo é a AUSÊNCIA DE MÉTRICAS que sustentem conversas difíceis. 

Sem indicadores, a sociedade vira um tribunal de narrativas. 

“Eu trabalho mais.”

“Minha área sustenta a banca.”

“Fulano ganha demais.”

“O time não veste a camisa.”

“O problema é comercial.”

“A deficiência é operacional.” 

Talvez seja. Talvez não seja. Mas sem critério objetivo, tudo se converte em disputa de percepção. Cada um puxando brasa para a sua sardinha, claro. 

Escritório maduro precisa medir o que importa. Produtividade. Rentabilidade. Efetividade de recebimento. Conversão comercial. Nível de autonomia da equipe. Retenção de talentos. Satisfação do cliente. Eficiência operacional. Cumprimento de orçamento. Qualidade da gestão. 

Aquilo que não é medido não pode ser gerido. No máximo, será opinado. Mas, de novo, com o ego dominando o discurso e protegendo seu dono. 

A advocacia já perdeu tempo demais discursando sobre os problemas, quando deveria estar resolvendo todos eles com técnica. 

E o inimigo número um, e possivelmente o mais profundo, é a FALTA DE CORAGEM GERENCIAL. 

Porque verdade seja dita: muitos sócios sabem exatamente o que precisa ser feito. Sabem que precisam profissionalizar. Sabem que precisam rever papéis. Sabem que precisam cortar cliente ruim. Sabem que precisam endurecer critérios. Sabem que precisam delegar melhor. Sabem que precisam sair da operação. Sabem que precisam enfrentar as conversas difíceis entre sócios. 

Mas não o fazem. 

E não o fazem porque uma gestão verdadeiramente madura exige renúncia. Renúncia ao improviso, ao personalismo, ao privilégio informal, ao controle excessivo, ao afeto mal administrado, à vaidade de ser indispensável. 

Há sócios que dizem querer autonomia da equipe, mas emocionalmente não suportam deixar de ser o centro das atenções. Querem liberdade, desde que tudo continue passando por eles. Querem governança, desde que isso não limite as suas vontades. Querem profissionalização, desde que ela não mexa nas “nossas históricas zonas de conforto”. 

Encaremos: não existe transformação relevante sem algum grau de desconforto. Faz parte. 

E talvez aqui esteja o ponto mais importante deste artigo: o verdadeiro oposto da centralização não é abandono. É governança. 

Autonomia não significa soltar sem critério.

Delegar não é desaparecer.

Profissionalizar não é perder identidade.

Criar processos não é engessar a banca.

Institucionalizar não é esfriar relações. 

Ao contrário. 

Quando bem desenhada, a gestão devolve ao sócio o que o crescimento desorganizado lhe roubou: tempo para pensar, capacidade de decidir melhor, espaço para atuar estrategicamente, energia para cuidar da sociedade, visão para construir sucessão e liberdade para não ser um prisioneiro da cadeia que ele próprio construiu para si mesmo. 

Escritório bom não é aquele em que o sócio resolve tudo. Escritório bom é aquele em que nem tudo precisa passar pelo sócio. 

Essa talvez seja a métrica mais sofisticada da maturidade de uma banca. 

Quantas decisões deixaram de subir pro sócio?

Quantos problemas passaram a ser resolvidos no nível certo?

Quanta operação parou de depender de uma pessoa específica?

Quanta energia societária foi deslocada da urgência para a estratégia? 

No fim, a pergunta não é apenas sobre quem são os inimigos do sócio na gestão. 

A pergunta para tirar o sono é outra: qual desses sete inimigos deixou de ser exceção e passou a ser a cultura aceita dentro da banca? 

Quando, você sócio, conseguir responder isso com honestidade, é aí que a gestão começa pra valer. 

Se não conseguir, a desorganização poderá até mudar de roupa, mas continuará entranhada na rotina, atrapalhando a sua vida e os seus resultados. 

Pra encerrar. 

O mercado jurídico não é mais definido apenas por quem conhece mais leis, doutrinas e jurisprudências. Ele é e será definido, cada vez mais, por quem conseguir construir escritórios menos dependentes de heróis e mais sustentados por governança, critérios, autonomia e coragem. 

Porque, na advocacia, o maior risco raramente está do lado de fora. 

Quase sempre, você vai encontrá-lo vestindo um terno bem cortado, tomando um café moído na hora, posando ao lado do seu nome na placa e acreditando que controlar tudo é a melhor forma de atingir o sucesso. 

Não. Não é. Não é mais.