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Fusão de bancas: Movimento estratégico ou admissão de fraqueza?

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Atualizado em 26 de maio de 2026 09:29

Em abril de 2026, o mercado jurídico global registrou um marco sem precedentes: a fusão [Hogan Lovells + Cadwalader, Wickersham & Taft] foi aprovada, reunindo mais de 3.100 advogados e gerando uma receita combinada superior a US$ 3,6 bilhões. A transação foi imediatamente denominada a maior da história da advocacia. Semanas antes, o Citi Hildebrandt já projetava que 1 em cada 5 grandes bancas globais considerava alguma forma de aquisição ao longo de 2026, número que, por si só, seria suficiente para interromper qualquer gestor no meio de uma reunião.

O que essa onda revela, porém, não é consenso. Fusões de escritórios de advocacia, como toda combinação de negócios, podem ser movimentos ofensivos de expansão estratégica, ou podem ser máscaras sofisticadas para problemas estruturais não resolvidos: modelo de remuneração disfuncional, carteira de clientes concentrada em poucos sócios sênior próximos da aposentadoria, ausência de plano de sucessão, incapacidade de competir individualmente em um mercado que exige cada vez mais escala tecnológica e multi-jurisdicional. Gestores de bancas brasileiras precisam saber distinguir as duas situações, seja para avaliar uma oportunidade real de fusão, seja para não ser a parte estruturalmente fraca de uma negociação que parece boa no papel.

O contexto global: Consolidação em escala histórica

Os números de 2025 e 2026 não deixam espaço para ideias subestimadas. Segundo a Fairfax Associates, foram registradas 59 fusões (crescimento de 18% sobre o ano anterior). O movimento transfronteiriço é particularmente revelador: transações como [Winston & Strawn + Taylor Wessing] e [Perkins Coie + Ashurst] sinalizam que a competição por grandes clientes corporativos globais exige presença e capacidade de entrega em múltiplas jurisdições simultaneamente.

O estudo anual da The American Lawyer, publicado ao final de 2025, já descrevia o cenário emergente com clareza: o volume de fusões realizadas naquele ano criava a base estrutural para o que analistas passaram a chamar de "merger mania" em 2026. A fusão [Hogan Lovells + Cadwalader] não foi um acidente isolado. Foi o ápice previsível de uma tendência construída ao longo de vários ciclos de consolidação.

Para bancas brasileiras, a equação é direta: o mercado não pergunta se você quer participar dessa dinâmica global. Ele simplesmente passa a exigir (via seus melhores clientes corporativos) que você seja capaz de entregar o que bancas com escala entregam.

As razões legítimas para fundir: Quando a fusão é estratégia

Há três drivers estratégicos que justificam, com solidez, uma decisão de fusão:

Escala de serviço. Clientes corporativos de médio e grande porte exigem, com crescente frequência, presença multijurisdicional e cobertura de práticas jurídicas que uma banca menor raramente consegue entregar de forma integrada. Uma fusão bem estruturada amplia essa capacidade sem a necessidade de construí-la organicamente, processo que demanda tempo, capital e, acima de tudo, tolerância ao risco de crescimento lento em um mercado que não espera.

Aquisição de talentos. Atrair e reter sócios de alta performance é uma disputa de mercado que não se resolve apenas com remuneração. A marca da banca, sua plataforma de suporte, seu posicionamento em rankings e sua capacidade de oferecer visibilidade ao advogado são variáveis decisivas. Uma fusão pode ampliar essa plataforma de forma imediata, tornando a banca resultante mais competitiva na guerra por talentos.

Competitividade tecnológica. O gasto com tecnologia e inteligência artificial nas bancas americanas cresceu 9,7% em 2025. Ferramentas de IA jurídica, plataformas de gestão de processos e sistemas de análise de contratos deixaram de ser diferenciais e passaram a ser requisitos de eficiência competitiva. Diluir esse custo em uma estrutura maior, e ter massa crítica para extrair retorno real dessas ferramentas, é um imperativo de rentabilidade que a fusão pode viabilizar.

Razões legítimas para uma fusão incluem estratégias ofensivas e defensivas de crescimento financeiro. As ofensivas são calculadas para explorar oportunidades; as defensivas, para curar uma fraqueza ou evitar uma ameaça externa. Qualquer tipo de estratégia dessa natureza pode ser uma justificável razão para a fusão. — Lara Selem, Gestão de Escritório de Advocacia (2007).

Os sinais de alerta: Quando a fusão é fuga, não estratégia

O problema é que as mesmas palavras que descrevem uma fusão estratégica ["sinergia", "complementaridade", "expansão"] podem ser usadas para disfarçar fraquezas que deveriam ser enfrentadas internamente antes de qualquer mesa de negociação. Há três sinalizadores estruturais que indicam que uma fusão pode ser uma tentativa de transferir problemas, não de criar valor:

Carteira concentrada em sócios sênior em saída. Quando a receita da banca está excessivamente dependente de dois ou três sócios que se aproximam da aposentadoria, e não há uma geração de sócios mais jovens com relacionamentos próprios capazes de absorver essa carteira, a fusão torna-se uma tentativa de transferir esse problema para uma nova estrutura. O resultado previsível: o sócio sênior se aposenta, leva os clientes (ou simplesmente os perde no processo de transição), e a nova estrutura herda o problema sem os ativos que justificaram a negociação.

Modelo de remuneração em crise interna. Sócios insatisfeitos com o sistema de distribuição de lucros ameaçando saída é um dos contextos mais frequentes que precipitam conversas de fusão. A fusão, nesses casos, funciona como manobra para reequilibrar poder sem enfrentar a negociação interna que deveria acontecer. A estrutura muda, os números parecem diferentes na planilha, mas a disfunção segue, agora com mais sócios ao redor da mesa e mais complexidade para resolvê-la.

Ausência de plano de sucessão. Uma banca que não investiu sistematicamente na formação da próxima geração de lideranças pode ver na fusão um atalho: adquirir talentos prontos em vez de desenvolvê-los internamente. O risco é evidente: sócios que chegam via fusão têm lealdade condicionada à qualidade da experiência que encontram na nova estrutura. Se o ambiente não atender suas expectativas em dois ou três anos, saem. E a banca voltará ao ponto de partida, com o agravante de ter passado por uma integração custosa.

Observei (e escrevi num dos meus livros) que muitos escritórios são tão ineficazes na venda-cruzada com seus próprios clientes e advogados que serão igualmente incapazes de fazê-lo com advogados estranhos. Se a venda-cruzada pós-fusão não ocorrer, os rendimentos e lucros podem ficar estáticos, ou até decair.

O que o mercado brasileiro deve aprender

Fusões de bancas brasileiras ainda representam uma minoria das movimentações do setor, mas o movimento é crescente e, à medida que a pressão competitiva se intensifica, a tentação de fundir como resposta a problemas não resolvidos também cresce. O ponto central que os gestores brasileiros precisam internalizar é: escala sem estratégia é crescimento sem direção.

Antes de qualquer conversa exploratória de fusão, uma banca deve ter respondido com honestidade a três perguntas fundamentais:

Qual é o nosso diferencial competitivo sustentável? Aquele que sobreviveria à fusão e se tornaria mais forte dentro da nova estrutura, não aquele que dependia do carisma de um sócio específico ou de uma conjuntura de mercado temporária.

Nossa carteira de clientes é transferível? Os relacionamentos existem com a banca ou existem com indivíduos? Essa distinção determina se o ativo mais importante de qualquer escritório, sua base de clientes, chegará intacto ao outro lado de uma combinação.

Nossos sócios estão alinhados em valores, cultura e modelo de remuneração? Uma fusão entre bancas com culturas incompatíveis não cria uma nova cultura, cria um campo de batalha interno que consome energia gerencial e dispersa o foco estratégico por anos.

Sem essas respostas, a fusão vai importar os problemas, não resolvê-los. E no mercado jurídico brasileiro, onde relações pessoais ainda são a espinha dorsal da captação de clientes, a fragilidade cultural de uma fusão mal preparada é ainda mais devastadora do que nos mercados do hemisfério norte, onde sistemas e processos substituem com mais eficiência a dependência de indivíduos.

O framework de avaliação: Fusão como escolha, não como remédio

Bancas bem geridas que avaliam fusão fazem isso de posição de força. Essa distinção não é retórica, é operacional. Uma banca com carteira diversificada entre sócios, modelo de remuneração estável e aceito internamente, pipeline de talentos em formação e proposição de valor clara para o mercado tem capacidade de negociar em pé de igualdade. Ela define os termos, escolhe o momento, e usa a fusão como multiplicador de algo que já funciona.

Uma banca que busca a fusão como saída para problemas estruturais negocia em posição de vulnerabilidade muitas vezes sem perceber. O interlocutor do outro lado da mesa, se for experiente, vai detectar a assimetria e precificar isso na estrutura do negócio: cotas menores, menos poder de governança na nova estrutura, cláusulas de permanência que aprisionam sócios-chave. O que parecia uma fusão entre iguais revela-se, na prática, uma aquisição.

O framework de decisão, portanto, é simples na enunciação e exigente na execução:

Primeiro, diagnostique com rigor: a fusão que estou considerando resolve um problema que não consigo resolver internamente, ou é uma alternativa a um trabalho de gestão que simplesmente não quero fazer? 

Segundo, avalie a posição relativa de negociação: tenho ativos reais que a outra banca quer tanto quanto eu quero o que ela oferece? 

Terceiro, projete a integração cultural antes de fechar qualquer negócio: o que acontece com os melhores talentos de ambos os lados nos primeiros 24 meses? 

Se as respostas a essas três perguntas forem sólidas, a fusão pode ser o melhor movimento estratégico disponível. Se não forem, o trabalho começa antes da negociação.

Liderança versus reatividade: A decisão que define o gestor

A onda de M&A no mercado jurídico global não vai arrefecer. Os dados de 2025 e a aprovação da maior fusão da história da advocacia em 2026 confirmam que a consolidação é uma tendência estrutural, não um ciclo passageiro. A questão para gestores brasileiros não é se o tema chegará ao nosso mercado, é se eles estarão preparados ou reativos.

Líderes reativos fundem por pressão: Perda de sócios, queda de receita, clientes migrando para bancas maiores. 

Líderes estratégicos fundem por escolha: Quando a fusão multiplica algo que já está sólido, quando a posição de negociação é de força, e quando a integração cultural foi planejada antes de qualquer assinatura.

A diferença entre essas duas posições não é sorte nem timing de mercado. É a qualidade da gestão construída nos anos que antecederam a negociação. Bancas que investiram em governança, em diversificação de carteira, em formação de lideranças e em um modelo de remuneração coerente têm algo que nenhuma onda de consolidação pode criar do zero: a capacidade de dizer sim ou não a uma fusão, e estar certa nas duas respostas.

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BeBeez International, "Largest Law Firm Merger in History Approved" (15/04/2026). Disponível aqui

Best Law Firms, "Law Firm Merger Boom in 2026". Disponível aqui

Fairfax Associates, "Law Firm Mergers Up in 2025". Disponível aqui

The American Lawyer, "Law Firm Combinations This Year Set Stage for Merger Mania in 2026" (26/12/2025). Disponível aqui.