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Licença para operar não é licença para vencer

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Atualizado em 23 de junho de 2026 10:53

Existe um escritório que você conhece - talvez seja o seu - que tem regulamento interno, política de LGPD, código de ética, manual de processos e até um CRM que ninguém abre. Tudo no lugar. Tudo bonito. E mesmo assim, a reunião de sócios termina toda semana com a mesma sensação: algo está errado, mas ninguém consegue nomear o quê.

Eu chamo isso de profissionalização cosmética. O dinheiro compra a ferramenta, compra o treinamento, compra o papel bem redigido. O que o dinheiro não compra é a coerência entre o que o escritório declara ser e o que ele, de fato, é. E é exatamente essa assimetria que está na raiz da maioria das crises societárias, das fusões que se desfazem em seis meses e das bancas tecnicamente brilhantes que perdem mercado para concorrentes que, vamos ser honestos, não jogam no mesmo nível técnico.

A cena que se repete nos bastidores

Atendi com um escritório que havia construído, com orgulho, uma prática de Direito Empresarial de altíssima sofisticação. O sócio fundador era um especialista de verdade. Mas, naquele momento, o que sustentava financeiramente o escritório era uma carteira de processos em massa, que havia chegado sem planejamento, via uma oportunidade trazida por um cliente.

Me lembro que nas reuniões de planejamento, o fundador olhava para a área de volume com um desdém velado. "Isso não é advocacia", ele dizia, enquanto aquela operação respondia por 80% do faturamento total. A equipe que trabalhava naquele núcleo sabia exatamente o que o sócio pensava deles. A força que deveria impulsionar o negócio era drenada, semana a semana, por uma mensagem não dita mas perfeitamente compreendida: isso vai acabar, aproveitem enquanto dá.

Esse escritório não tinha um problema de gestão. Tinha um problema de identidade. E sem clareza de identidade, nenhum protocolo funciona.

A tríade que determina tudo

Há três perguntas que toda banca precisa responder antes de escolher qualquer protocolo de gestão. A maioria responde uma. Poucas respondem duas. Quase nenhuma responde as três com sinceridade e simultaneamente.

1. Qual é o seu modelo de negócio [de verdade]?

Há quatro arquétipos de advocacia no Brasil. A padronizada, que opera em volume, cuja palavra-chave é gestão de custo e onde a margem saudável fica entre 20% e 25%, com excelência operacional como vantagem competitiva. A customizada, onde o cliente contrata a voz do advogado em que confia para questões recorrentes e a margem pode chegar a 45%, desde que o relacionamento seja bem trabalhado. A especializada, onde reputação é ativo e o cliente paga pela cura de um problema que nunca viveu, com margens entre 55% e 65%. E a científica, onde o advogado-jurista precisa dominar outras ciências para convencer tribunais de teses que ainda não existem na jurisprudência, e onde os honorários por parecer podem superar a casa dos R$ 500 mil.

O problema não está em qual modelo você escolhe. Num mercado imenso como o brasileiro, todos têm espaço e todos podem ser altamente rentáveis. O problema está em querer o resultado de um modelo enquanto opera a gestão de outro. É uma equação que nunca fecha.

2. Em que estágio de maturidade você está, honestamente?

Maturidade empresarial na advocacia não tem nada a ver com o tempo de existência do escritório. Conheço bancas com mais de 20 anos de estrada que operam com a maturidade de gestão de um escritório em seu primeiro ano. E conheço práticas jovens com processos, indicadores e governança que deixariam muitos veteranos constrangidos.

A maturidade é o teto da diferenciação possível. Se você não a desenvolve, existe um teto invisível que você não consegue ultrapassar, não importa quantas ferramentas adquira. A boa notícia, e aqui está o oceano azul que poucos enxergam, é que a maioria esmagadora dos escritórios ainda opera com maturidade baixa. Quem investe nisso entra num patamar diferente de competição.

A transição de estágio exige que o sócio fundador compreenda algo desconfortável: ele não é o rei absolutista desse escritório. Uso uma analogia que costuma provocar nas reuniões de sócios: o Charlie das Panteras (reassista o filme). Charlie nunca aparecia em cena, estava sempre a bordo de um helicóptero ou pilotando um conversível, nunca na reunião de trabalho. Mas ninguém tinha dúvida de quem era o mais poderoso. E de quem queria todos os resultados. O ente institucional do escritório [a cultura, a reputação, os processos, o nome na porta] é o seu Charlie. Tome decisões como se precisasse prestar contas a ele. Esse exercício mental muda a qualidade das decisões.

3. Qual é o seu objetivo de negócio agora, não o de 2030?

Há quatro famílias de objetivos num negócio jurídico: atração de clientes, conversão e precificação, manutenção e entrega, e gestão interna. Em cada momento da vida do escritório, um desses grupos exige mais ênfase. A sociedade que está com problemas de atração e tenta resolver com protocolo de governança vai gastar energia no lugar errado. Aquele que está com gargalo de conversão, e fecha contratos cedendo nos honorários a cada negociação, precisa de metodologia comercial, não de manual de compliance.

Protocolo não é cardápio. Você não entra num restaurante e pede tudo que está disponível. Você pede o que faz sentido para a fome do seu momento.

A analogia do xadrez que poucos querem ouvir

No xadrez, nenhum enxadrista de alto nível move as peças aleatoriamente por instinto, mesmo que seja um gênio intuitivo. Ele conhece o valor de cada peça, o estado do tabuleiro e o objetivo da partida naquele momento. A rainha sacrificada no momento certo vence mais batalhas do que dez rainhas preservadas por insegurança.

A advocacia que perde mercado para concorrentes tecnicamente inferiores é a banca que jogou xadrez com as regras do dominó, boa nos movimentos, mas sem clareza sobre o estado do tabuleiro. Enquanto isso, o rival que "só faz marketing" entendeu algo que o purista não quis admitir: a diferenciação sustentável não vive na técnica, vive na coerência entre o que se declara e o que se entrega.

Sobre IA: Ela não resolve o que você não soube construir

Inteligência artificial não é a última grande novidade do mercado jurídico. É a próxima camada de infraestrutura, do mesmo jeito que o computador na mesa do sócio-chefe era, nos anos 1990, um diferencial proibido de qualquer estagiário colocar as mãos. Daqui a poucos anos, usar IA será tão banal quanto usar o Word.

O problema é que a maioria das bancas quer adotar IA sem ter respondido as três perguntas anteriores. E aí a tecnologia amplifica a confusão, não a clareza. Uma banca padronizada que implementa IA com inteligência de gestão de custo vai criar vantagem competitiva real. Uma banca que compra a ferramenta sem saber o que quer ser, vai ter um ChatGPT muito caro gerando petições para um cliente que nem sabe se é o cliente certo.

O dever de casa que você pode começar na próxima segunda

Estabeleça uma reunião semanal com os seus sócios, uma reunião que não fale de cliente, não fale de prazo, não fale de microgestão operacional. Uma reunião para pensar o escritório como negócio. Use as pautas abaixo em sequência:

Semana 1: Que negócio jurídico decidimos ter? Para quê? Para quem? Como?

Semana 2: Em que nível de maturidade estamos operando, com sinceridade brutal?

Semana 3: Os protocolos que adotamos são coerentes com nosso modelo e nossa maturidade ou são meramente cosméticos?

A sua advocacia não precisa ser uma virada de mesa. Precisa de persistência. Uma coisa por semana, com consistência. A diferenciação sustentável não é construída num retiro de planejamento estratégico de dois dias. É construída nas pequenas decisões corajosas, tomadas semana após semana, por sócios que entenderam que o escritório é maior do que qualquer um deles.

Todo escritório tem licença para operar. Alguns constroem a licença para competir. Pouquíssimos alcançam a licença para vencer, e quando alcançam, a concorrência come poeira.