Quinta-feira, 17 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Dress code e a identidade corporativa

Erika Gisele Lotz

O dress code funciona muito bem quando devidamente concebido e legitimado pelos profissionais do escritório.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Olá! Sou Erika Lotz, mentora de Capital Humano da Éos Inovação da Advocacia e estou aqui para trazer à tona um tema muito delicado e bastante polêmico: o dress code e a identidade corporativa!

Delicado e polêmico, pois os profissionais podem se sentir cerceados nas escolhas das roupas para o trabalho, por outro, é imprescindível que o escritório crie e mantenha a identidade corporativa.

Assim, quero lhe dirigir uma pergunta: qual a mensagem que as vestimentas da equipe jurídica e administrativa enviam ao cliente e às pessoas envolvidas na operação do escritório?

E mais, será que a forma de vestir e comportar das equipes comunica o grau de excelência, profissionalismo e critério que o escritório deseja transmitir?

A comunicação não verbal

Muito bem, é aí que entra em cena a reflexão sobre a comunicação não verbal.

Guglielmi (2011 p. 11-12) explica que existem duas linguagens fundamentais que permitem a relação entre as pessoas: a linguagem verbal – a saber, aquela constituída por palavras e que serve, sobretudo, para transmitir informações e dados e, simultaneamente, uma linguagem não verbal, com a qual se dá a vida às palavras pronunciadas, […] exprimem as emoções mais profundas e verdadeiras, e que é feita de gestos, posturas, de imagens e de silêncio.

O traje adequado contribui fortemente para a construção e manutenção da imagem da credibilidade e profissionalismo do escritório. Escolhas não tão bem cuidadas a respeito da vestimenta podem gerar dúvidas a respeito da qualidade dos serviços do escritório. "Se não cuida da própria aparência como poderá cuidar da minha causa?", pensa o cliente.

Ficou chocado com a afirmação? Sua mente está brigando com as palavras e retrucando: "imagine, que futilidade julgar alguém pela aparência! Eu, se fosse você, pararia de ler esse texto agora!"

Pois então, meu caro advogado, permita-me apresentar os fundamentos psicológicos da afirmação generalizadora que tem a gênese na percepção.

Percepção "é o processo pelo qual o indivíduo organiza e interpreta suas impressões sensoriais com a finalidade de dar sentido ao seu ambiente. O comportamento da pessoa é determinado pela percepção que tem da realidade e não da realidade em si". ( ROBBINS, 2010, p.161)

O efeito halo e a generalização. Você pode utilizá-los a favor da imagem do seu escritório

Vamos adiante, o cérebro costuma utilizar "simplificações" ao avaliar as pessoas, de modo a chegar rapidamente a percepções precisas e oferecer dados válidos para determinadas previsões. Mas também podem levar a distorções significativas, a exemplo do efeito de halo e da generalização.

Efeito de halo é a tendência do cérebro a formar uma impressão geral de alguém com base em uma única característica. Por exemplo, a vendedora julgar o poder de compra do cliente baseado nos trajes que este está usando; considerar alguém confiável apenas por que esse alguém usa aliança; considerar um advogado despreparado por que a gravata que está usando parece mais um babador… Por outro lado a apresentação impecável e elegante também é facilmente remetida a profissionalismo e sucesso.

A generalização é o processo mental em que se categorizam situações particulares para aplicações universais. Se por um lado é altamente útil em situações de aprendizagem por outro lado, pode conferir ao todo a impressão de parte da experiência. Por exemplo, ao ser indevidamente atendido em um restaurante o que você pensa: que o garçom não estava em um bom dia ou que o restaurante é ruim?

A imagem é também generalizada para a área de atuação do profissional. O cliente pode pensar "se não cuida da própria aparência, como poderá cuidar com atenção aos detalhes do meu processo?" A escolha "não cuidada" e desatenta do traje pode construir rapidamente uma imagem de desleixo e desatenção, tanto do profissional em específico quanto da empresa como um todo. Da mesma forma a imagem positiva do profissional pode ser generalizada para a identidade corporativa.

O profissional, tanto da equipe jurídica quanto da equipe administrativa, exerce papel de símbolo, representa o escritório e é a expressão da missão, visão e valores, certamente colocados a prova na "hora da verdade" que é o dia a dia, expresso no trato com pares, gestores imediatos, clientes e fornecedores.

Isso significa que quando o profissional se apresenta de modo competente e elegante, aos olhos do "outro" o escritório é competente e elegante. Caso o profissional, por alguma razão, expresse deselegância, certamente aos olhos do "outro" não é o profissional que está em um dia difícil, mas sim, que o escritório é ríspido e grosseiro. Eis aí o efeito generalização!

Imagem profissional, Dress Code e identidade corporativa.

Dress code é uma expressão de língua inglesa que cuja tradução é código de vestimenta. Trata-se de uma série de regras que atuam na construção e manutenção da imagem corporativa. Indica tipos de vestimentas, acessórios e produção pessoal que melhor representam e valorizam a imagem do profissional e a imagem corporativa diante de pares, clientes e fornecedores.

O dress code tem por objetivo reunir pessoas em torno de uma consciência estética coletiva de modo a criar uma identidade corporativa, a fim de transmitir os atributos profissionais e fortalecer a imagem de excelência. O resultado é a congruência da imagem do profissional à realidade operacional e à imagem corporativa.

Quero enfatizar que imagem pessoal/profissional é um conjunto harmônico que combina corte de cabelo, roupas, acessórios, sapatos à educação, cultura e amabilidade no trato.

A criação da imagem pessoal/profissional é fundamental para a construção e fortalecimento da imagem corporativa. Atentar-se à forma de vestir, caminhar, conversar e até mesmo como comportar-se a mesa conta muitos pontos no mundo corporativo.

Uma pesquisa da revista Newsweek, realizada com 202 profissionais de Recursos Humanos evidenciou que, apesar do discurso "politicamente correto", na vida real, a aparência é critério de contratação fortemente considerado, acompanhando a experiência e a escolaridade.

Para 57 % dos recrutadores que participaram da pesquisa, um candidato, mesmo que qualificado, mas cuja aparência era considerada incompatível a área de atuação, teria dificuldades em se colocar e se manter no mercado.

Investir na aparência é uma forma positiva de alavancar nos negócios e construir uma imagem de credibilidade e profissionalismo. (KAWASAKI, 2014).

Outro ponto a considerar é que clientes se sentem menosprezados quando o profissional não se produz para atendê-lo. "É como se a nossa empresa não se importasse com eles".

O cuidado com a maquiagem, a barba aparada, o corte do terno representa na linguagem da imagem pessoal que o profissional é competente e sério.

Falar baixo, adotar postura e uso da língua portuguesa de forma correta, cabelo bem cortado e gentileza são pontos fundamentais que costuram a boa imagem pessoal e profissional. (KAWASAKI, 2014).

Imagem profissional e "beleza"

Contudo é importante enfatizar que a imagem profissional de elegância não é sinônima de estar adequado aos padrões estabelecidos pelas passarelas ou estabelecidos como belo pela mídia.

Beleza e imagem profissional e elegância são figuras bastantes distintas. Uma pessoa pode gozar de atributos físicos considerados belos e nem por isso são consideradas elegantes e atraentes. Não importa a beleza, a juventude ou o tipo físico! É possível construir o capital de imagem pessoal e projetar credibilidade e profissionalismo.

A imagem positiva promove generalizações positivas que criam percepções de confiabilidade e profissionalismo, consolidando a identidade corporativa junto ao mercado. Já a imagem descuidada promove desconfianças e generalizações nada positivas ao escritório.

Se minhas palavras fizeram sentido para você e provocaram em sua mente um desejo de construir o dress code de seu escritório, fica aqui a minha expressa recomendação: eleja um comitê, reúna pessoas em tono do tema, traga um profissional com expertise para realizar a construção do dress code.

O dress code funciona muito bem quando devidamente concebido e legitimado pelos profissionais do escritório. Imposições do tipo Top-Down tendem a gerar resistências e até mesmo fissuras de relacionamento. A dica é a seguinte: envolveu pessoas? A receita é delicadeza e elegância!

Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir.

Paul Valéry
__________

1 CHUNG, T. A qualidade começa em mim. Osasco: Novo Século editora, 2002.

2 GUGLIELMI, A. A linguagem secreta do corpo: a comunicação não-verbal. Petrópolis: Vozes, 2011.

3 KAWASAKI, B. Dress code: impacto da imagem pessoal nos negócios. São Paulo: Bia Kawasaki Publicações, 2014

4 ROBBINS, S. Comportamento organizacional. São Paulo: Prentice Hall, 2010.
__________

*Erika Gisele Lotz é mentora de capital humano da ÉOS Inovação na Advocacia.
EOS SERVICOS DE ASSESSORIA ADMINISTRATIVA LTDA.