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Pragmatismo e agronegócio

O nome a encimar o título do artigo significa ser prático com inteligência. É mais que praticidade. É como deve ser o Brasil. Virou moda dizer que somos exportadores de artigos primários, extração mineral (minério de ferro, outros) e produtos do agronegócio, incluindo os semimanufaturados desses setores, como se fosse pouco.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Atualizado em 6 de abril de 2011 09:38

Pragmatismo e agronegócio

Sacha Calmon*

O nome a encimar o título do artigo significa ser prático com inteligência. É mais que praticidade. É como deve ser o Brasil. Virou moda dizer que somos exportadores de artigos primários, extração mineral (minério de ferro, outros) e produtos do agronegócio, incluindo os semimanufaturados desses setores, como se fosse pouco. Por outro lado, falta-nos mão de obra capaz, especializada, até na construção civil, enquanto as centrais sindicais fazem demagogia degustando acepipes com a presidente da República. A indústria nacional não vai para frente, ora essa, porque está afogada pela alta carga tributária, excesso de burocracia, descomunal peso sobre a folha de salários, ausência brutal de infraestrutura, energia cara, e falta de pessoas especializadas, já não digo nas áreas de alta tecnologia, mas nas indústrias básicas e no setor de serviços, exceto o comércio. Estamos até - absurdo - importando argentinos, chilenos, franceses etc. para áreas sensíveis, como pesquisa, nanotecnologia, fármacos, engenharia civil e outros ramos a exigir pessoas capacitadas. Requerer que uma indústria refinada e capaz surja do nada não é uma atitude pragmática. Primeiro resolvam os gargalos, depois peçam resultados. O câmbio é apenas uma desculpa. Somos um país meio estranho, como que feito de baratas tontas, sem rumo. Os orientais, notem, são diferentes: analisam, agem, fixam metas e seguem em frente. Aqui, somos parlapatões.

Em que pese, a ausência total de uma matriz logística e de transportes no país, a mostrar a má qualidade dos governos, salvo exceções, caso do governador Antonio Anastasia, o desempenho do Brasil no agronegócio é fabuloso. Em 30 anos, nos tornamos uma potência na exportação e temos tudo para ser o celeiro do mundo que pagará bem a nossa produção. Temos ainda 40% de terras prestantes a adicionar às atuais (somente nós no mundo) e podemos multiplicar por três a produtividade. Uma saca de alimentos ainda vai valer uma caixinha de chips, a menos que a humanidade passe a se alimentar de comprimidos sintéticos. Há 85 anos pelo Porto de Madras, na Índia, fomos buscar os primeiros zebuínos, justo no lugar em que a vaca é sagrada por ter carregado a deusa Shiva pelo céu. O fomos, no caso, deixa de fora o governo. Foram os pioneiros particulares. O governo da época botou a Ilha de Fernando de Noronha como sítio de quarentena, para proteger a população. Muitas carcaças de zebus existem naquelas águas, símbolos da imbecilidade governamental. A ilha exígua sequer tinha ancoradouro, mas muitos tubarões.

Temos hoje 210 milhões de cabeças de gado. O Friboi e Mafrig são os maiores frigoríficos do planeta. O Brasil é o maior exportador mundial de suco de laranja, café, açúcar, carne bovina, frangos, etanol e outras commodities e disputa o segundo e terceiro lugares em soja, farelo, óleo e grão, milho, carne suína, algodão e outros itens agrícolas, concorrendo inclusive com produtos lácteos industrializados e embutidos. A cadeia do agronegócio nucleia áreas inteiras de produção, tipo tomates, por exemplo, transportes diversos, e um sem-número de indústrias, tais como a de implementos agrícolas, fertilizantes, equipamentos de armazenagem, etc. Chegamos e batemos gigantes do agrobusiness como os Estados Unidos, o Canadá, a China e, em certa medida, a Austrália (sem estradas, sem apoio, sem portos).

No entanto, além dos "ecochatos" e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), boa parte dos analistas econômicos acha que a nossa condição de produtores e exportadores de produtos do agronegócio é de somenos. Não percebem que o agronegócio exige à sua volta um sem-número de setores industriais e de serviços. Chauvinistas defendem a agricultura familiar dos tempos do Jeca-Tatu. Claro que produzir couve, mandioca, feijão e arroz é importante, mas que isso seja feito em escala e pela iniciativa privada. A reforma agrária caiu de moda. Hoje moramos em cidades e nos desesperamos por uma reforma urbana e urbanística. A parte que ficou no campo tem tudo para produzir muito e se enriquecer. A questão é que a Pastoral do Campo e o MST e outros movimentos tidos sociais vivem fixados no tempo de Jango Goulart e influenciam o governo central atual de modo deletério.

O PSDB parece que renunciou ao ideário social-democrata. O movimento ruralista é visto como de direita. Santa ignorância. Fosse assim, os EUA e a França seriam superdireitistas. Podem até ser, em certos setores e momentos, como nos casos da emigração e do racismo, mas não por defenderem o agrobusiness. Os minérios, realmente, só dão uma safra, mas ela dura 300 anos. A Vale privatizada chegou ao topo. Somos o segundo maior exportador mundial. A empresa investe pesado em terras raras e outros minérios, o que, se fosse ainda estatal, não teria condições de fazê-lo. Em suma, sejamos pragmáticos.

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*Advogado tributarista, coordenador do curso de especialização em Direito Tributário das Faculdades Milton Campos e sócio do escritório Sacha Calmon - Misabel Derzi Consultores e Advogados


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