Migalhas

Terça-feira, 31 de março de 2020

ISSN 1983-392X

Ilha de Giglio

Domingos Fernando Refinetti

O advogado opina sobre o episódio do navio Costa Concórdia e, em uma visão humanista, compara o naufrágio com os ímpetos da vida.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Domingos Fernando Refinetti

Ilha de Giglio

Atrevo-me, de longe, a emitir algumas considerações, estritamente pessoais, sobre o recente episódio Costa Concordia.

Tenho para mim que parece ser altamente improvável que a decisão de aproximar o navio à ilha de Giglio, quaisquer que fossem os motivos para tanto (e sem entrar no seu mérito) - assim como a implementação de tal decisão - tenha sido tomada e assumida, repentina, única, isolada e exclusivamente, pelo capitão do navio.

Uma embarcação daquele porte (i) não se afasta da sua rota sem que a tripulação tome, no mínimo, conhecimento disso (e participe disso, ativa ou passivamente); (ii) não se aproxima, talvez temerariamente, da terra sem que a guarda costeira (ou alguma autoridade naval equivalente) também perceba (e concorde com isso, ainda que por omissão); ambas ou qualquer das hipóteses dificilmente ocorreriam sem que, muito provavelmente, (iii) os próprios armadores, em algum momento, em algum lugar e por meio de algum sistema de monitoramento (talvez por satélite), também estivessem a par e (novamente, ainda que por omissão) aquiescessem com isso.

Algo como uma "culpa coletiva" (por negligência, imprudência ou imperícia), de toda a sorte lamentável e indesculpável.

Entretanto, somente o capitão dessa nave é que tem sido apontado – pelo menos publicamente – como o responsável pelo choque com os rochedos (de novo, sem adentrar o mérito "naval" da questão).

Pois bem, isso se deve, em minha opinião, muito mais pela sua reação – posterior ao resultado dessa decisão – do que, propriamente, pela decisão, reação que, aos olhos de todos, fez como que viesse a absorver a culpa dos demais eventuais e supostos corresponsáveis (por ação ou omissão) pelo desenlace desastrado e desastroso (sem que essa afirmação, evidentemente, sirva para diminuir a responsabilidade que lhe cabe, como autoridade máxima a bordo).

Pois bem: não há quem, ao longo de sua vida, não tenha decidido, em algum momento, aproximar-se da ilha de Giglio.

Muitas das decisões que tomamos, muitos dos destinos que, em certos momentos, elegemos, em termos pessoais ou profissionais, privada ou publicamente, desviam-nos de determinadas (e imaginadas) rotas e fazem-nos passar muito perto de rochedos, de arrecifes, de bancos de areia, se é que não nos acercam de verdadeiros icebergs.

Deve ser de nossa natureza, talvez faça parte de nossa missão, seguramente faz parte de nossa jornada neste mundo, se, como capitão de um barco (nosso barco), em algum lugar queremos, um dia chegar, em alguma baia remansosa almejamos, um dia, aportar, ancorar, carregados com algum sentimento de realização, de dever cumprido, de completude, de plenitude (e o que mais poderemos levar conosco dessa viagem?).

A ilha de Giglio e suas armadilhas sempre estarão à espreita e à nossa espera.

E se, por ventura, nessas aproximações, nosso barco vier a dar com os arrecifes do percurso, vier a adernar ou, por vezes, a soçobrar, o importante, o vital, o fundamental, é não abandonar o barco, é não deixá-lo, e a quem nele, por acaso, tiver embarcado conosco, à deriva, perdido, descartado.

O barco, a viagem, o sonho e a esperança de chegarmos ao destino, reconstroem-se, reinicia-se, concretiza-se, alcança-se, com perseverança e têmpera, é claro, mas com caráter, com respeito, com ética, com altivez e coragem, não importam os percalços.

A fuga, no entanto, frente às adversidades, aos insucessos, aos fracassos eventuais de uma aproximação à ilha de Giglio, provavelmente fará com que a dignidade, a honra, a hombridade, a credibilidade, até mesmo a autoridade de que necessitamos para levar nosso barco a porto seguro, ficarão, no entanto, perdidos no meio do caminho, junto com os escombros da nossa embarcação abandonada.

Moral da história: não importa o tamanho do desastre, permaneça a bordo (cazzo!) e nunca abandone o timão do seu barco.

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* Domingos Fernando Refinetti é sócio do escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados

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