terça-feira, 7 de julho de 2020

ISSN 1983-392X

Pra que todo esse multitasking?

Ianda Silva

As mulheres, em geral, nascem com a capacidade de fazerem muitas coisas ao mesmo tempo, ou como dizem os americanos, são multitasking. E quando têm uma carreira profissional, nem se fala !

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Numa quinta feira em que eu estava me sentindo especialmente cansada, voltando pra casa no trânsito caótico de São Paulo decidi não ligar o rádio do carro. E naquele dia eu segui por quase 45 minutos de trânsito sem me atualizar sobre as notícias do dia, sem cantarolar músicas, sem aproveitar pra ligar pra alguma amiga ou minha mãe e colocar o papo em dia pelo celular no viva voz, sem checar emails pra adiantar o trabalho do dia seguinte. Segui sozinha, no silêncio, só ouvindo o barulho dos carros. Foram uns dos 45 minutos mais revigorantes dos últimos tempos pra mim. Um descanso mental, uma pausa, um relaxamento.

Por que mesmo achamos que temos que fazer tantas coisas ao mesmo tempo, ou como dizem os americanos, pra que todo esse multitasking?

As mulheres, em geral, nascem com essa capacidade nata. A gente tem filho, balança o carrinho do bebê com um pé e troca o filho mais velho pra ir pra escola ao mesmo tempo. A gente dá ordens a empregada e está antenada no que se passa no outro comodo da casa onde as crianças estão brincando. Somos multitaskers naturais. E quando temos uma carreira, nem se fala! Trabalhar, criar filhos, ser esposa, ter amigas e cuidar da beleza... Ufa! Já é uma lista grande de tarefas, não?

Mas minha opiniao é que estamos levando isso a extremos. Os meios de comunicação rápida são enlouquecedores neste sentido. Você está num conference call com o telefone no viva- voz, o computador a sua frente e os emails aparecendo na tela, um balãozinho do instant messenger pulando com seu chefe pedindo uma informação urgente e ao mesmo tempo toca o celular e você vê no visor: CASA. É pânico na certa!! Um tal de coloca o viva-voz no mudo, atende a babá, faz o chefe esperar, volta pro call e quando te perguntam a sua opinião sobre o tema em discussão, você não tem a menor ideia do assunto que está sendo discutido.

Além disso, esperam que sejamos profissionais completas. Leia-se: esperam que entendamos dos mais variados assuntos nas diversas searas legais. No mesmo dia, você pode se ver discutindo desde uma incorporação societária a uma ação trabalhista, o budget do departamento jurídico e a licença de importação. E ainda tem que fazer aquela reunião de feed back com sua advogada júnior. Como pode alguém que muda tão rápido de assunto manter o foco?

Esse é o mal do mundo moderno. Muita informação, muitas tarefas, alto nível de exigência e expectativa. E com isso, perdemos a beleza de ter foco no que se faz. De escutar o que a pessoa que fala com você diz e com isso, descobrir um mundo de novas possibilidades. Perdemos chances raras de conexão em níveis mais profundos. Não vivemos o presente, temos quantidade mas muito pouca qualidade.

Não ligar mais o rádio no caminho de volta pra casa foi meu primeiro passo. Durante os conference calls evitar checar o email é a segunda meta. Manter o foco começa com pequenas práticas de coisas que sabemos fazer e simplesmente esquecemos, como começar a revisão de um contrato e dispensar ligações que não sejam urgentes enquanto não terminar. Temos que aprender a declinar tarefas na mesma proporção que as absorvemos, rever prioridades e nos livrar do modelo super heróis. Acima de tudo, é necessário assumir responsabilidade integral por nossas escolhas, nem todo mundo vai ficar satisfeito, nem todo mundo vai ficar feliz, eventualmente algumas coisas não serão feitas mas... Paciência. Ganhamos em qualidade: do trabalho e de vida. Agora, sempre que alguém entra na minha sala, eu só deixo a pessoa sentar a minha frente e começar a falar se eu, uma viciada completa no blackberry, de fato puder não checar o aparelhinho nem uma vez durante a conversa. Se, por algum motivo eu não puder, eu me desculpo e peço pra pessoa voltar outra hora. Afinal de contas, dizer não, não é melhor do que não estar lá por inteiro?

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* Ianda Silva é advogada senior da GE Lighting & Appliances para América Latina e membro do Jurídico de Saias


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