terça-feira, 29 de setembro de 2020

MIGALHAS DE PESO

A solidariedade feminina

As mulheres podem ter mil e uma atividades na agenda, mas sempre encontrarão tempo e disposição para ajudar.

Fui convidada para falar no Dia Internacional da Mulher a respeito de um grupo só de mulheres advogadas, o Jurídico de Saias, imaginado e realizado criativamente pela Josie Jardim, que por sinal foi quem me convidou para falar com ela.

Eu já estava aqui imaginando uma apresentação de Power Point e tudo o mais e cheguei até a propor uma reunião de alinhamento, ao que a Josie respondeu, com a rapidez e sinceridade de sempre: relaxa. Adorei. Quando crescer quero ser como ela.

Bom, infelizmente relaxar não é comigo. Pulei esta lição. Matei esta aula. Eu e pelo jeito toda uma geração de mulheres. Num evento também para mulheres, tive o prazer de ouvir a Lya Luft falar que com a idade ela aprendeu a se permitir mais. Aproveitei e perguntei à Lya o que a mulher ainda não se permitia. Ela refletiu por um tempo e disse: relaxar. Segundo ela, as mulheres ainda sentem que precisam se provar o tempo todo. Tem de ser boa no trabalho, na casa, como mãe, como mulher, como amante, como cidadã, e ainda por cima cozinhar bem, ser magra, culta e viajada. A mulher parece ainda não ter entendido qual é o seu papel afinal e fica o tempo todo se exigindo e se frustrando. E aí aumentam as doenças, os remédios, psicanálise (quando dá tempo, que se registre aqui!).

E penso aqui com os meus botões que as mulheres não explodem (ou implodem), assim, de repente, na rua, presas num engarrafamento, rezando para o carro não sair boiando pela enxurrada para ela poder buscar o filho na fono, cabum, explodiu, já era, porque há ainda uma linda e santa solidariedade que nos une.

Falam muito da solidariedade masculina. Talvez eles sejam solidários, mas acho que a mulher deu outra dimensão para isto. Vejo como nos organizamos rapidamente para ajudar uma amiga que estava chateada por não ter conseguido preparar seu chá de bebê. E aí as mulheres que já têm normalmente uns 359 itens todos os dias na agenda, incluem mais alguns: comprar o gelo, ligar para as amigas do balé, da escola, fazer (e curtir) a decoração da festa, preparar o playlist, comprar o presente... E tudo feito de um dia para o outro, só pelo prazer de ter percebido que a amiga ficou imediatamente mais animadinha com a ideia: um chá, será? Dá tempo? Dá, querida, sempre arrumamos tempo para ajudar umas às outras.

E é assim quando uma fica doente, quando briga com o marido, com o filho, com o chefe, ou quando precisa de uma carona, de uma empregada, de uma coaching, de um modelo de contrato ou dica de decoração. As redes sociais estão aí para aumentar e ajudar estes grupos de mulheres que agora vão se transformando numas solidárias virtuais e tecnológicas. Com um alcance rápido e numeroso. Onde encontrar um encanador: eu sei. A babá fugiu e não deu notícia: alguém corre ao seu socorro. Você tem de fazer uma planilha complicada naquele dia e não sabe nem por onde começar: 10 e-mails na sua caixa de entrada com modelos, experiências, depoimentos e, se já não fosse bom o bastante, outra mulher super ocupada passa uma manhã na sua sala explicando como se usa o Excel. Do nada. Aliás, do nada não: da mais pura solidariedade feminina.

Tem dias em que estou esgotada e digo: na próxima encarnação quero voltar como homem. Pensando bem - de jeito nenhum!

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*Christina Montenegro Bezerra é diretora de assuntos jurídicos da América Latina da empresa Edwards Lifesciences e integrante do Jurídico de Saias.







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Atualizado em: 21/2/2013 01:54

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