Migalhas

Terça-feira, 31 de março de 2020

ISSN 1983-392X

O Pan e nós

Alessandra Raffo Schneider

Banalizaram-se os bronzes, pratas e ouros como se não fossem prova da evolução do esporte no país.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Acabaram os jogos Pan-Americanos de Toronto. O Brasil obteve um respeitável terceiro lugar, atrás apenas de Estados Unidos, que sabemos têm time até de futebol de botão e Canadá, o anfitrião que disponibilizou atletas em todas as modalidades disputadas. Confesso que fiquei horrorizada com várias situações na edição deste ano.

Primeiro: a dificuldade que todos tiveram em acompanhar o certame. A Rede Record comprou os direitos de transmissão para... não transmitir! No dia da cerimônia de abertura preferiu continuar com sua programação normal e exibir a novela bíblica "Os Dez Mandamentos". Depois, brindou o pobre telespectador de TV aberta com um compacto de melhores momentos depois das 11 da noite... Nada contra, mas convenhamos que por mais bonito que seja o figurino egípcio do folhetim, até a história da trama já é conhecida.

Segundo: a baixa ou nenhuma valorização das conquistas de nossos atletas. Banalizaram-se os bronzes, pratas e ouros como se não fossem prova da evolução do esporte no país. Os meios de comunicação pouco destaque deram às quebras de recordes sul-americanos, pan-americanos e até mesmo mundiais. O que os atletas fizeram superando adversários poderosos e também seus próprios limites pouco interessou à mídia e à população em geral. O fato de sermos laureados não só no Futebol, Windsurfe, Vôlei de praia, mas também no Judô, Levantamento de peso, Natação, Ginástica, Pentlato moderno, entre outros parecia não ser suficiente para empolgar ninguém.

Terceiro: o ataque gratuito à Hortência, nossa eterna rainha do basquete. Mãe orgulhosa, ela postou a foto e elogiou o filho João Victor pelo bronze no hipismo. As redes sociais colecionaram comentários jocosos como : "bronze no Pan, grande coisa...". É grande coisa, sim! É resultado de muito treino, esforço, investimento pessoal. E todo mundo sabe que mãe (e pai também) tem direito a festejar a cria até em campeonato de xadrez da escola. Achei uma insensibilidade sem tamanho e sinal de uma arrogância que grassa hoje em dia no país.

Será que só tem valor ser pentacampeão de futebol, um esporte que faz milionários – dentro e fora de campo? A propósito estes últimos milionários- os de fora do campo, raramente enriqueceram pelo talento ao jogar bola.

Não temos orgulho de termos nos desenvolvido a ponto de termos novas carreiras à disposição de nossos jovens? Não nos regozijamos de termos atletas bolsistas que treinam para chegar à elite do esporte mundial e estão colecionando vitórias em competições de alto nível?

Pessoalmente, acho uma pena termos perdido este momento de amor ao país.

Mas não perco a esperança de que isso mude e que no ano que vem, durante as Olímpiadas no Rio tenhamos um sentimento melhor para com nossos representantes. Além disso, estou atenta para fazer minha parte como torcedora e brasileira. Lima 2019, me aguarde que vou estar na arquibancada pintada de verde e amarelo!

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*Alessandra Raffo Schneider é VP Jurídico, Regulatório e Comercial da Suzlon Energia Eólica do Brasil e membro do Jurídico de Saias.

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