quarta-feira, 12 de maio de 2021

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Jurídico corporativo - O desafio do advogado interno

Wander Iancso Brancalhoni

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Nos últimos anos, fiz parte do corpo Jurídico da principal empresa pertencente a uma das maiores organizações empresariais privados do Brasil, sendo responsável pela gestão das áreastrabalhista, previdenciária e cível, cujo contencioso contava com aproximadamente 1.800processos e contingência (ativa e passiva) que ultrapassava R$550 milhões.

O primeiro desafio foi no meu ingresso como advogado corporativo, pois sempre atuei em escritórios, diretamente no contencioso, mergulhado em prazos, audiências, reuniões com clientes, entre tantas outras tarefas objetivando a condução impecável dos processos sob minha responsabilidade. No entanto, ao fazer parte do departamento jurídico interno, me deparei com outras prioridades, focos diferentes e uma imensa necessidade de conhecer o negócio em si.

Assim, foi de suma importância conhecer a fundo cada área da empresa, entender seu papel dentro da Companhia e a sua interface com o Jurídico, além de sentir as prioridades e necessidades de cada cliente interno. Só assim seria possível conduzir o trabalho com objetividade.

Não obstante, a Companhia passava por processo de aquisição, o qual foi efetivado por meio da incorporação de duas empresas do mesmo porte e segmento econômico, mas com políticas de gestão, culturas, sistemas e processos, completamente distintos. Uma experiência profissional ímpar, das quais poucos terão a possibilidade de fazer parte.

Passado o receio natural da instabilidade que um processo de incorporação gera dentro das duas empresas, é necessário canalizar todos os esforços na busca das sinergias para construção de uma nova Companhia, com as melhores políticas de gestão, cultura, sistema e processo.

Entretanto, o primeiro momento da incorporação passa uma falsa ideia de que as áreas dobraram de tamanho, mas com o decorrer tempo, pessoas são promovidas em razão da abertura de novas possibilidades, outras pedem demissão por ver sua expectativa de crescimento frustrada e tantas outras são desligadas por não se encaixarem à filosofia da nova gestão.

Nesse momento você percebe que sua área continua trabalhando de forma enxuta, com o mesmo número de profissionais que existia antes da incorporação, mas como o triplo, ou até mesmo, o quadruplo de demanda. Sim, pois uma incorporação não pode ser vista como operação matemática, onde somam-se os problemas de uma empresa com os da outra, resultando no dobro de problemas. A demandas são três, quatro vezes maiores, pois existem reflexos e consequências, ou seja, são criados novos problemas, entre outros fatores.

Foi justamente nesse ponto que percebi o maior desafio de um Jurídico corporativo: deixar de ser uma área de apoio, onde só te enxergam como custo e passar a se mostrar como área de negócio, na qual é possível fazer investimento e obter grandes resultados, tais quais as áreas diretamente ligadas ao negócio da Companhia.
Ademais, por ser o Jurídico considerado como área de apoio, são comuns as diretrizes para cortes nos orçamentos, principalmente com relação a estruturação da equipe interna e honorários advocatícios de profissionais externos, sendo que no primeiro momento, a economia esperada pode até ser atingida, mas é quase certo que comprometerá toda condução de uma área e os prejuízos virão em médio e longo prazo. Explico:

Há equívoco muito grande em trabalhar com um Jurídico enxuto, no qual o profissional acaba por ficar responsável por duas, três áreas, das quais sequer é especializado, isso sem contarmos as demandas administrativas que sobrecarregam o dia a dia. As áreas precisam de especialistas, para serem conduzidas de forma adequada, tendo a devida atuação preventiva e consultiva, além de tratar do repressivo (contencioso) com aspectos analíticos e de indicadores, tudo a fim de garantir gestão estratégica e de resultados positivos.

Também é muito comum observar Jurídicos corporativos contratando escritórios especializados em contencioso de massa para obterem economia com relação aos honorários e entregar o resultado que a Companhia espera da área, ledo engano! Na prática, para que o contrato seja vantajoso aos escritórios de massa, estes trabalham com equipes recém-formadas, sem experiência e com baixa remuneração, gerando problemas em cadeia, tais quais: desmotivação dos profissionais que estão atuando em nome da empresa; contratação de correspondentes despreparados; turnover alto, falta de pessoalidade com os profissionais; não conhecimento das atividades da empresa-cliente; falta de comprometimento; entre tantos outros.

Os problemas narrados acima refletem diretamente em maus resultados no contencioso de uma empresa, sejam por falhas técnicas, perdas de prazos ou falta de preparo dos profissionais contratados, podendo inclusive, comprometer todo o negócio.

É fundamental para o advogado corporativo ser especialista na área que atua, para que assim seja reconhecido e valorizado, inclusive, financeiramente, pela Companhia na qual trabalha, tal qual, sua responsabilidade de entregar a condução do contencioso para escritórios que estejam aptos a conduzi-lo com excelência e comprometimento, remunerando-os adequadamente, liberando-o para o desenvolvimento de ações preventivas e consultivas, criação de indicadores balizadores de planos de ação, metas e métricas de trabalho. Além desse trabalho, é fundamental a fomentação de interface entre o Jurídico interno com as outras áreas da Companhia, tudo para que seja possível transformar as vitórias em resultados.

Portanto, aqui está o grande desafio de quem é parte integrante de um Jurídico corporativo: se mostrar como área de negócio para a Companhia e atrair investimento objetivando a entrega de grandes resultados, ou seja, é o equilíbrio entre Excelência versus Custo. Essa também é a visão que os escritórios de advocacia, seus sócios e profissionais precisam ter como pilar, para que, em conjunto com o Jurídico corporativo, possam colher bons frutos de um trabalho bem plantado e cultivado.

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*Wander Iancso Brancalhoni é advogado, sócio da banca Brancalhoni Sanches Advogados.


Atualizado em: 3/9/2015 11:24

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