sábado, 4 de julho de 2020

ISSN 1983-392X

O novo vírus e a velha imprensa

André Marsiglia Santos

As novidades boas nos chegam a todo momento pela imprensa, mas as sentimos como irrelevantes, banais, porque não nos soam como novidades.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

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Há alguns dias, tomou o debate público uma fala do ministro da Saúde, dizendo ser sórdida a cobertura da pandemia pela imprensa, pois somente noticiava fatos ruins. A afirmativa lhe custou ter de se desculpar publicamente alguns dias depois. Mas não devia. O ministro está certo, pois, de fato, há muita sordidez na cobertura da pandemia. Escapou-lhe apenas que a sordidez não é da imprensa.

Somos nós que vivemos de notícias ruins. A imprensa vive de novidades. Desde as antigas obras de Sauvy, Lane e Lippman, sabemos que o conceito do novo é de extrema relevância para a imprensa nas sociedades modernas de consumo. Compramos a novidade para aplacar a mesmice das nossas vidas cotidianas, a mediocridade da existência, da avareza, que é a maior parte dos dias da maior parte de nós, tudo para que acreditemos que a vida está acontecendo, mesmo sem estar, mesmo sem que façamos algo para que esteja. 

As novidades boas nos chegam a todo momento pela imprensa, mas as sentimos como irrelevantes, banais, porque não nos soam como novidades. Ninguém precisa ler um jornal para saber daquilo que está no lugar que deve estar.  Já  as novidades ruins nos mobilizam facilmente, nos alertam e nos tiram do conforto de saber como agir.

Também dias atrás, um renomado jornalista, anunciando que a imprensa não trazia notícias boas sobre a pandemia, afirmou que passaria a fazê-lo no espaço destinado a seus comentários. Curiosamente, sua fala foi repercutida junto ao público em razão da crítica à imprensa, e não em razão das boas novas que prometia trazer. O novo alimenta a imprensa, e nós consumimos a sua variante negativa.

Em tempos de monotonia temática imposta pela pandemia, o novo é muitas vezes encontrado na repetição envernizada do fato amanhecido, na exploração do fato acessório. E aí entram em cena especialistas de opiniões divergentes, disputando uns com os outros quem está mais certo a respeito do que todos desconhecem, novos cenários para a mesma notícia, gráficos coloridos para a velha estatística, placar de infectados e mortos, comparações com outros países, histórias individuais dramatizadas, novos estudos. Isso sem falar nas entrevistas diárias com autoridades, dentre as quais o ministro da Saúde, anunciando as tragédias do dia anterior e as ameaças do dia seguinte, como em um capítulo de novela.

No momento em que estamos todos confinados (ou deveríamos todos estar), o ciclo acima descrito nos arrebata a percepção com muito mais intensidade. A quarentena social voraz impõe uma grande lupa no que levamos mais ou menos bem no dia a dia, ocasionando-nos um grau de estresse alto, e uma vontade de encontrar no outro, na imprensa, a razão de nossa própria sordidez.

É claro que poderíamos optar por nos mobilizarmos de forma refinada com a literatura,  com a filosofia, concertos acessíveis pela internet, bibliotecas ao alcance de um clique, a escrita que, neste momento, me anima e concentra. É claro também que, dizendo com García Márquez, quando nos privam da primavera, poderíamos trazê-la para dentro de nós. Mas nossa modernidade relegou a tais gostos o riso social, a comicidade dos nefelibatas, sendo natural que, não havendo lugares externos para fugir, e sendo um pouco demais acreditar que, a essa altura, a maior parte de nós se dedique a gostar de estar consigo, reste pouco mais que nos enfiar em nosso gosto por notícias ruins como forma de nos entendermos vivos.

E esse ciclo, em que o novo e o ruim são apenas o que nos restam, e que nos movimentam, e alimentam nossa sordidez, em um momento de crise mundial em que nos encontramos isolados de qualquer possível escape, é também o momento em que nos deparamos com a crise individual que há em nós. Vamos à janela e não há saída, vamos à imprensa e encontramos nossa sombra. De fato, ministro, você tem toda razão: é algo sórdido. Mas a sordidez não é da imprensa, é nossa.

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t*André Marsiglia Santos é advogado especializado em liberdades de expressão e de imprensa. Membro da comissão de liberdade de imprensa da OAB, e da comissão de mídia e entretenimento do Iasp (Instituto dos Advogados de São Paulo). Sócio da Lourival J. Santos – Advogados.

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