IA e bem-estar psicológico
A IA promete liberar o tempo e a mente dos profissionais jurídicos, mas também impõe um novo desafio: Preservar o sentido humano do trabalho em um ambiente cada vez mais automatizado.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
Atualizado às 10:15
Nos últimos cinco anos, a IA - Inteligência Artificial deixou de ser promessa futurista e tornou-se ferramenta cotidiana em escritórios de advocacia, departamentos jurídicos e tribunais.
Mas essa transformação não é apenas técnica, é também profundamente humana. Ao alterar a forma como pensamos, decidimos e nos relacionamos com o trabalho, a IA nos obriga a encarar uma questão essencial: qual é o papel do profissional do Direito em um ambiente em que parte de suas funções pode ser executada por algoritmos?
Essa pergunta, que mistura filosofia, psicologia e gestão, conduz ao questionamento atual: a IA pode ser, ao mesmo tempo, fonte de bem-estar psicológico e geradora de ansiedade.
A promessa da libertação cognitiva
Em seu livro Drive, Daniel Pink argumenta que a motivação humana se baseia em três pilares: autonomia, maestria e propósito. Curiosamente, são exatamente esses os elementos que a automação inteligente pode fortalecer quando bem aplicada.
Em escritórios jurídicos modernos, tarefas repetitivas como controle de prazos, emissão de relatórios e acompanhamento de processos já podem ser automatizadas. Sistemas de IA assumem essas funções, liberando o tempo dos profissionais para atividades analíticas, estratégicas e criativas.
De acordo com um estudo da Deloitte de 2024, equipes jurídicas que adotaram automação inteligente relataram redução de 25% na sobrecarga cognitiva e 30% menos horas extras.
Esses números não são triviais, eles indicam um movimento real em direção ao que podemos chamar de libertação cognitiva: a capacidade de concentrar o esforço mental em tarefas que exigem julgamento humano, empatia e pensamento crítico, atributos que nenhum algoritmo, até o momento, é capaz de replicar com autenticidade.
Nesse sentido, a IA torna-se aliada do bem-estar psicológico ao eliminar o excesso de microdecisões que, acumuladas, produzem fadiga mental. O chamado “burnout jurídico”, caracterizado por exaustão emocional e perda de sentido, tende a diminuir quando a rotina deixa de ser sinônimo de repetição mecânica.
O lado sombrio da eficiência
No entanto, todo avanço tecnológico traz consigo uma sombra. A mesma IA que liberta pode aprisionar, se implementada sem visão humanista. A McKinsey, em relatório de 2025, identificou um fenômeno crescente nos escritórios corporativos: a ansiedade tecnológica.
Trata-se do medo de ser substituído por máquinas ou de não conseguir acompanhar a velocidade das novas ferramentas. Em contextos competitivos como o jurídico, esse sentimento pode gerar isolamento, insegurança e uma forma sutil de desmotivação crônica.
Além disso, há o risco da alienação digital, conceito que remete, curiosamente, a Karl Marx, quando descreveu o trabalhador separado do sentido de sua obra. Ao transferir para a IA parte significativa da produção intelectual, corre-se o risco de esvaziar o vínculo simbólico entre o profissional e o resultado do seu trabalho.
Em termos práticos, isso se traduz em perguntas silenciosas que muitos advogados já fazem: se a máquina faz melhor, qual é o meu valor?
Esse tipo de questionamento, quando não é enfrentado por lideranças conscientes, corrói o engajamento e mina a cultura organizacional.
A ética do cuidado tecnológico
O filósofo alemão Jürgen Habermas defendeu que a racionalidade instrumental, aquela que busca apenas a eficiência, precisa ser equilibrada por uma racionalidade comunicativa, baseada no diálogo e na compreensão mútua. Aplicando essa lente ao contexto jurídico, é possível afirmar que a IA só se torna ética quando é acompanhada de cuidado humano.
Isso significa que gestores jurídicos não podem enxergar a automação como simples substituição de tarefas, é necessário criar espaços de escuta, capacitação e participação coletiva. Antes de implantar uma nova ferramenta, deve-se perguntar: como essa mudança afetará o sentimento de autonomia e propósito das pessoas envolvidas?
A experiência com IA jurídica mostra que o caminho mais sustentável é o da IA centrada no humano. As automações são desenvolvidas não apenas para aumentar produtividade, mas para reduzir o ruído mental e ampliar o senso de realização. Cada melhoria tecnológica precisa ser acompanhada por uma melhoria na experiência de trabalho.
É o que poderíamos chamar de governança emocional da tecnologia: um conjunto de práticas de gestão que reconhece que toda inovação altera o ecossistema psicológico de uma equipe.
Quando a gestão encontra a psicologia
No passado, a administração jurídica era guiada por modelos rígidos e hierárquicos, herdeiros diretos de Fayol e Taylor, o foco estava em controle e previsibilidade. Hoje, a dinâmica é outra. A complexidade dos ambientes digitais exige gestores com competências emocionais e filosóficas.
Frederic Laloux, em Reinventando as Organizações, propõe que as empresas que prosperam no século XXI são aquelas que cultivam propósito evolutivo e autonomia distribuída. Essa lógica se encaixa perfeitamente no escritório inteligente. Um escritório que utiliza IA deve repensar suas estruturas de poder, permitindo que advogados e colaboradores sejam coautores da inovação.
Na prática, isso significa integrar psicologia organizacional, tecnologia e gestão de pessoas em uma mesma estratégia. O RH jurídico precisa atuar como mediador entre a máquina e o humano, promovendo treinamentos, rodas de conversa e métricas de bem-estar, não apenas de performance.
De acordo com a OMS, ambientes de trabalho mentalmente saudáveis aumentam a produtividade em até 12%. Mas há um ganho menos mensurável, e talvez mais importante: a reconstrução do sentido de comunidade dentro dos escritórios.
Do controle à confiança: O novo papel da liderança jurídica
A liderança jurídica está diante de um teste histórico. O modelo tradicional, baseado em cobrança e vigilância, entra em colapso diante da automação. Afinal, quando algoritmos controlam prazos e métricas com precisão cirúrgica, o gestor deixa de ser fiscal e precisa tornar-se mentor.
Isso exige uma transição de mentalidade: Do controle para a confiança.
O líder do futuro jurídico não é o que exige resultados, mas o que inspira aprendizado contínuo e segurança psicológica. Ele entende que a IA é ferramenta, não ameaça. E mais, reconhece que o verdadeiro diferencial competitivo está no capital emocional da equipe.
A IA como aliada da realização humana
Há uma bela ironia no movimento atual, quanto mais a tecnologia avança, mais valorizamos aquilo que é inimitavelmente humano: empatia, ética, criatividade e capacidade de lidar com ambiguidade. A advocacia, que sempre foi uma profissão de interpretação e julgamento moral, tem muito a ganhar com essa redescoberta.
A IA pode cuidar do burocrático, mas o significado do trabalho continua sendo produzido pelas pessoas. Cabe aos gestores jurídicos cultivar essa dimensão simbólica, transformando a automação em oportunidade de crescimento pessoal.
Em certo sentido, estamos retornando à essência do Direito: buscar justiça, mas agora com instrumentos mais sofisticados e menos desgaste emocional.
O horizonte que se desenha é o de uma advocacia emocionalmente sustentável, onde produtividade e bem-estar não são forças opostas, mas complementares.
Isso requer políticas claras de gestão de pessoas, treinamento em competências digitais, escuta empática e acompanhamento psicológico contínuo. A cultura organizacional deve incorporar o princípio de que tecnologia sem humanismo é apenas eficiência sem alma.
Em vez de resistir à IA, o setor jurídico precisa aprender a cooperar com ela. A automação pode, sim, ser libertadora, desde que guiada por valores éticos e práticas de cuidado.
A inteligência artificial é o espelho do nosso tempo. Ela reflete tanto nosso desejo de dominar a complexidade quanto o medo de perder o controle sobre ela. No Direito, esse espelho revela algo ainda mais profundo: o quanto nossas instituições e carreiras dependem da capacidade de encontrar sentido em meio à transformação.
A verdadeira revolução não está nas máquinas que aprendem, mas nas pessoas que descobrem como conviver com elas.


