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Caos ou transparência? O futuro das eleições nas associações

Processos eleitorais claros fortalecem associações. Estatutos bem redigidos evitam disputas internas, asseguram legitimidade e reduzem riscos de judicialização da sucessão eleitoral.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Atualizado às 13:49

Associações civis são peças fundamentais do terceiro setor: representam categorias, promovem causas sociais, organizam eventos e defendem interesses coletivos. A força dessas entidades está diretamente ligada à sua legitimidade, e nada traduz melhor essa legitimidade do que processos eleitorais claros e bem conduzidos.

A eleição da diretoria de uma associação não é apenas uma formalidade: é o momento em que se decide quem estará à frente da entidade pelos próximos anos, definindo estratégias, prioridades e a forma de representar seus associados. Por isso, é essencial que os estatutos prevejam regras transparentes e que a assembleia seja conduzida de forma ordenada e legítima.

Muitas associações ainda enfrentam fragilidades no processo eleitoral. Estatutos genéricos ou desatualizados abrem brechas para interpretações distintas, disputas internas e até judicialização da sucessão de cargos.

Entre os problemas mais comuns estão:

  • Ausência de prazos claros para convocação da assembleia;
  • Critérios pouco definidos para elegibilidade de candidatos;
  • Falta de detalhamento sobre a forma de votação e apuração;
  • Omissão quanto a mandatos, reeleições e substituições em caso de vacância.

Essas lacunas podem gerar conflitos entre associados e comprometer a credibilidade da associação.

Imagine uma associação que reúne centenas de associados e chega ao momento de renovar sua diretoria. Sem regras claras, a convocação da assembleia é questionada, dois grupos lançam candidatos sem saber quem realmente pode concorrer, e a apuração é contestada por falta de transparência.

Outro problema que pode ocorrer é a não observância às regras de conflitos de interesses, que devem estar expressas no Estatuto.

O resultado? Um processo que deveria fortalecer a instituição acaba gerando divisões internas, perda de confiança e até ações judiciais que consomem tempo e recursos.

Esses conflitos prejudicam a governança, afastam potenciais parceiros e podem até paralisar projetos importantes. Afinal, quem confiará em uma associação cujo processo eleitoral é instável ou contestado?

A boa notícia é que esses riscos podem ser evitados com estatutos bem redigidos e processos eleitorais estruturados. Alguns passos fundamentais incluem:

Revisão estatutária

Atualizar periodicamente o estatuto para refletir a realidade da associação.

Incluir regras claras sobre prazos de convocação, formas de comunicação e quorum necessário.

Critérios de elegibilidade

Definir requisitos objetivos para candidatos (tempo mínimo de associação, adimplência, ausência de penalidades internas e de conflitos de interesses).

Processo de votação transparente

Determinar expressamente se a votação será presencial, eletrônica ou híbrida.

Estabelecer regras de apuração e divulgação dos resultados.

Comissão eleitoral

Caso as eleições envolvam muitas chapas, criar uma comissão independente para conduzir o processo, evitando conflitos de interesse.

Clareza sobre mandatos e vacância

Estipular duração de mandatos, possibilidade ou não de reeleição e regras para substituições em caso de renúncia ou afastamento.

Atas e registros

Redigir atas detalhadas e registrá-las em cartório, assegurando validade formal e evitando questionamentos futuros.

Eleições são o coração da governança de uma associação. Quando bem estruturadas, trazem legitimidade, fortalecem a confiança dos associados e demonstram transparência ao público externo. Quando mal conduzidas, geram conflitos, insegurança jurídica e perda de credibilidade.

Mais do que uma exigência formal, processos eleitorais claros e estatutos bem elaborados são pilares da boa governança associativa. Eles evitam disputas internas, reduzem riscos de judicialização e permitem que a associação cumpra, com estabilidade e confiança, sua missão social.

Caroline Vaz de Melo Mattos Abreu

VIP Caroline Vaz de Melo Mattos Abreu

Especializada em direito empresarial. Fundadora do escritório Vaz de Melo Advocacia Empresarial. Assessora empresas digitais e associações sem fins lucrativos.

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