Desemprego em queda: Transformação digital e o futuro jurídico
Queda do desemprego em 2025 revela reconfiguração estrutural do mercado e exige novo olhar sobre gestão e tecnologia nos escritórios jurídicos.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Atualizado às 14:42
A taxa de desemprego no Brasil atingiu, em julho de 2025, o patamar histórico de 5,6%, conforme dados do IBGE (PNAD Contínua) e do Trading Economics. Trata-se da menor taxa registrada desde o início da série histórica iniciada em 2012. A título comparativo, o índice médio de desemprego no Brasil nos últimos treze anos foi de 9,89%, com o pico de 14,9% registrado em setembro de 2020, no auge da pandemia de Covid-19.
Os números mais recentes, portanto, sugerem não apenas uma recuperação cíclica da atividade econômica, mas o início de um novo paradigma no mercado de trabalho.
A quantidade de pessoas ocupadas alcançou a marca de 101,2 milhões em julho de 2025, representando crescimento de 1,3% em relação ao trimestre anterior. Os setores de serviços, tecnologia da informação, jurídico-administrativo e consultoria empresarial responderam por 4,2% desse crescimento, uma estatística que, por si só, merece atenção por parte do setor jurídico.
É nesse contexto que se deve refletir: estaríamos diante apenas de uma fase positiva do ciclo econômico ou de uma mudança estrutural nas relações de trabalho mediadas por tecnologia?
Reconfiguração do emprego: A economia do conhecimento e a digitalização
O ambiente de negócios brasileiro, assim como o de outras economias emergentes, está sendo profundamente impactado pela aceleração da transformação digital. O conceito de “emprego” está sendo reconstruído com base em novas lógicas de produção, em que a produtividade não se mede mais pela repetição de tarefas, mas pela capacidade de entregar valor intelectual e soluções a problemas complexos.
Na prática, isso significa que setores antes fortemente operacionais, como o jurídico, estão passando por um processo de virtualização e automação de tarefas. Com o uso crescente de sistemas de automação de processos, softwares de gestão jurídica e inteligência artificial generativa, as rotinas manuais estão sendo progressivamente substituídas por fluxos digitais integrados.
Contudo, essa substituição não equivale à eliminação de postos de trabalho.
O que ocorre é uma mudança no perfil dos cargos e nas competências exigidas. O mercado começa a valorizar não apenas a formação jurídica tradicional, mas também a habilidade de operar sistemas, interpretar dados, colaborar em times multidisciplinares e propor soluções com base em ferramentas tecnológicas.
Assim, o que se observa não é o fim do emprego jurídico, mas a redefinição da profissão em direção a uma prática mais consultiva, analítica e orientada por indicadores. Escritórios que entenderem essa lógica estarão mais bem posicionados para crescer sem inflar suas estruturas, aumentando a rentabilidade com base na eficiência e no uso estratégico do capital humano.
O impacto da automação e da IA
A incorporação de tecnologias de automação e IA nos fluxos jurídicos é, hoje, uma realidade consolidada.
Ferramentas de jurimetria, análise preditiva de julgamentos, triagem automática de documentos e gestão de contratos por machine learning são amplamente utilizadas nas maiores bancas do país.
Esse cenário é corroborado por dados internacionais. O relatório The Future of Jobs 2025, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, projeta que até 2027 cerca de 23% das funções hoje existentes serão impactadas pela automação. Em contrapartida, mais de 69 milhões de novos empregos surgirão em setores relacionados à IA, tecnologia verde, segurança cibernética e transformação digital.
No campo jurídico, isso se traduz na substituição de tarefas operacionais (como digitalização, protocolo, conferência de prazos e elaboração de peças repetitivas) por automações e sistemas inteligentes.
Em paralelo, cresce a demanda por profissionais com domínio de tecnologia, pensamento crítico, empatia, capacidade de negociação e aptidão para liderar projetos híbridos.
Essa reconfiguração desafia o modelo tradicional de formação jurídica, o profissional do Direito precisa hoje desenvolver competências que, até poucos anos atrás, eram consideradas periféricas: alfabetização digital, noções de programação, análise de dados e habilidades interpessoais complexas.
Escritórios de advocacia: inovação e sustentabilidade
O setor jurídico brasileiro, notadamente os escritórios de advocacia, tem enfrentado o desafio de se adaptar a esse novo mercado com diferentes graus de maturidade digital.
Enquanto algumas bancas ainda operam com modelos baseados em horas, papéis e reuniões presenciais, outras já adotam tecnologias de controle de desempenho em tempo real, modelos de gestão por resultados e estratégias de automação que aumentam a produtividade sem necessidade de ampliar equipes.
A diferença entre esses dois modelos não é apenas operacional, é estratégica. A primeira forma de atuação mantém estruturas rígidas, custos elevados e baixa escalabilidade, já a segunda aposta em inteligência, automação e flexibilidade para crescer de forma sustentável.
Esse tipo de inovação também tem impacto direto na saúde financeira dos escritórios, permitindo margens operacionais mais sólidas, maior controle sobre o ciclo financeiro e, principalmente, melhor qualidade de vida no trabalho para os profissionais envolvidos.
Novas competências jurídicas para a próxima década
A transformação do mercado jurídico e a queda do desemprego nos setores intensivos em conhecimento estão intimamente ligadas ao surgimento de novas competências exigidas pelos profissionais.
Nesse sentido, de acordo com o levantamento do Fórum Econômico Mundial, as habilidades mais demandadas até 2027 incluem:
- Pensamento analítico e inovação;
- Alfabetização digital e tecnológica;
- Capacidade de resolução de problemas complexos;
- Tomada de decisão baseada em dados;
- Colaboração em equipes híbridas e remotas;
- Gestão do tempo e produtividade pessoal;
- Criatividade aplicada a processos jurídicos;
- Capacidade de adaptação rápida a mudanças;
- Consciência ética no uso de tecnologias;
- Empatia e comunicação interpessoal em ambientes digitais.
Essa lista revela uma importante ruptura: o foco sai do conhecimento técnico exclusivo e passa a englobar atributos comportamentais, tecnológicos e estratégicos.
Escritórios que pretendem manter competitividade precisam promover cultura organizacional voltada à aprendizagem contínua, programas de capacitação digital e modelos de gestão que valorizem a autonomia, a responsabilidade e o alinhamento de propósito entre lideranças e times.
Lideranças jurídicas e a construção de culturas ágeis
A transformação digital no setor jurídico exige, sobretudo, lideranças preparadas para conduzir mudanças organizacionais complexas. O sócio ou gestor jurídico tradicional, centrado na autoridade técnica e na hierarquia, precisa evoluir para um perfil de liderança mais adaptativa, orientada por dados, colaborativa e com visão de longo prazo.
Essa nova liderança deve ser capaz de conduzir equipes multidisciplinares, articular indicadores de desempenho, alinhar cultura com estratégia e tomar decisões baseadas em evidências, não apenas em intuições. Deve, ainda, ser protagonista na construção de um ambiente saudável, transparente e meritocrático.
Modelos de gestão baseados em OKRs - Objectives and Key Results, ou Objetivos e Resultados Principais em tradução livre, squads jurídicos, ciclos de feedback contínuo e governança compartilhada já são realidade em escritórios de alta performance. Essas práticas reduzem a dependência de controles burocráticos, estimulam a inovação e aumentam o comprometimento dos profissionais com os resultados entregues.
Desafios estruturais do Judiciário digital
A transformação do trabalho jurídico também afeta diretamente o Poder Judiciário. Desde 2020, houve um avanço considerável na digitalização dos tribunais, mas essa transição ainda enfrenta obstáculos.
As desigualdades regionais de acesso à internet, a falta de padronização dos sistemas e a ausência de interoperabilidade entre plataformas são entraves que dificultam a atuação plena de advogados e partes nos processos.
Além disso, muitos tribunais continuam operando com lógicas burocráticas herdadas do processo físico, mesmo em ambientes digitais. Essa contradição gera ineficiência e resistência por parte dos operadores do Direito.
A modernização efetiva do Judiciário dependerá de investimentos públicos estruturantes, parcerias com o setor privado e, sobretudo, da formação de magistrados, servidores e advogados para o uso pleno dos recursos digitais disponíveis. A Justiça do futuro será menos dependente de papel e mais centrada na inteligência de dados e no atendimento cidadão por meio de tecnologia humanizada.
A queda do desemprego e o reposicionamento estratégico do setor jurídico
A redução da taxa de desemprego para 5,6% deve ser analisada, portanto, não apenas como um indicador econômico positivo, mas como parte de uma mudança estrutural nas formas de produzir, contratar, gerir e remunerar o trabalho.
A expansão das vagas em setores como tecnologia da informação, jurídico-digital, consultoria estratégica e automação de processos demonstra que a economia está migrando para uma base de valor sustentada por conhecimento, capacidade analítica e domínio de ferramentas digitais.
Para os escritórios de advocacia, departamentos jurídicos corporativos e instituições do sistema de Justiça, esse cenário representa oportunidades e riscos. A oportunidade de crescer com eficiência, atrair novos talentos e oferecer serviços mais sofisticados e personalizados e o risco de estagnação para aqueles que não conseguirem se adaptar às exigências de um novo tempo.
Advocacia de hoje: tecnologia, propósito e valor humano
A queda do desemprego observada em julho de 2025 representa um marco para o mercado de trabalho brasileiro. Muito além de um bom indicador conjuntural, ela sinaliza a consolidação de um novo modelo de organização produtiva, centrado na transformação digital, na automação e na valorização de competências humanas complexas.
O setor jurídico, tradicionalmente conservador, precisa se posicionar diante dessa nova realidade. Escritórios de advocacia devem abandonar modelos ultrapassados de gestão, investir em tecnologia e capacitação e adotar estruturas de trabalho mais flexíveis, ágeis e colaborativas.
Aqueles que compreenderem a profundidade dessa mudança estarão preparados para liderar um novo ciclo de desenvolvimento profissional e institucional, já os que resistirem correm o risco de se tornarem irrelevantes num mercado em rápida mutação.
A era do trabalho jurídico repetitivo, padronizado e centralizado chegou ao fim. Em seu lugar, surge uma advocacia mais estratégica, conectada, inteligente e orientada por dados. O desemprego caiu, mas a complexidade do mercado aumentou. O futuro pertence aos que conseguirem interpretá-lo com lucidez e coragem de transformação.


