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Disputa global da IA: O que a liderança chinesa impõe ao mercado jurídico

Com 14 das 20 principais plataformas de IA sob seu domínio, a China avança para liderar a próxima era da tecnologia.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Atualizado às 15:57

A disputa pela supremacia em inteligência artificial tem se tornado uma batalha em busca de poder econômico, autonomia digital e influência global. Nos últimos anos, a China avançou de forma acelerada para reduzir e possivelmente inverter a histórica vantagem dos Estados Unidos em IA. 

O país estabeleceu um plano de tornar-se a maior potência global de IA até 2030, e para isso já investiu dezenas de bilhões de dólares no setor.

Movida por um ecossistema privado altamente dinâmico e por políticas estatais que tratam os sistemas inteligentes como infraestrutura nacional, a China transformou empresas como Alibaba, Tencent e Cambricon em motores de pesquisa, inovação e adoção massiva.

Ao mesmo tempo, enfrenta um cenário de pressões externas. Isso porque as sanções americanas, principalmente no acesso à chips avançados e semicondutores estratégicos, tentam desacelerar a marcha chinesa. 

Ainda assim, Pequim busca definir seus próprios padrões e influenciar a governança global da IA, moldando normas internacionais de acordo com seus interesses.

Neste contexto de competição direta e tensões geopolíticas crescentes, abre-se um questionamento: até onde a China pode chegar e em que ritmo na busca pela liderança mundial da inteligência artificial? 

Como conciliar tecnologias globais com normas que se contradizem?

A China lançou mais de 1.500 modelos de inteligência artificial generativa (LLMs) apenas até meados de 2025, o que representa cerca de 40% dos 3.755 modelos lançados globalmente. Esse volume revela a escala da inovação e também a velocidade com que novos modelos entram no mercado, cada um deles com potenciais implicações jurídicas que precisam ser avaliadas.

Com o país responsável por quase metade dos novos modelos de IA lançados no mundo, cresce a necessidade de alinhar soluções globais a diferentes sistemas regulatórios. Assim, cria-se um cenário em que escritórios operam sob normas distintas e, muitas vezes, incompatíveis definidas por três polos principais: o AI Act da União Europeia, as diretrizes de segurança dos Estados Unidos e as regras chinesas de governança algorítmica.

Para o setor jurídico, isso significa lidar com um ambiente mais complexo, em quecada decisão que envolve sistemas inteligentes precisa considerar requisitos variados de transparência, proteção de dados, explicabilidade e responsabilidade civil, dependendo da origem da ferramenta e do país onde o cliente atua. 

Em outras palavras, o profissional jurídico agora precisa compreender regulações transnacionais, antecipar vulnerabilidades e orientar clientes que operam em múltiplas jurisdições, muitas vezes com obrigações que se chocam entre si.

Além disso, a utilização dessas IAs, seja para automação, análise de dados ou atendimento, exige a avaliação de riscos adicionais relacionados à confiabilidade, à transferência internacional de dados e à dependência de infraestruturas digitais.

Departamentos jurídicos passam, portanto, a ser obrigados a criar novas políticas de uso responsável, mecanismos de due diligence tecnológica e processos consistentes de avaliação de impacto algorítmico.

Quem realmente controla a tecnologia que os escritórios utilizam?

Das 20 principais plataformas de inteligência artificial avaliadas em capacidades como raciocínio, conhecimento geral e codificação, a China detém 14 delas. Esse dado mostra que não estamos falando somente de “ferramentas novas”, mas de uma mudança na distribuição de poder computacional no mundo.

Quando a infraestrutura de IA, que sustenta automações jurídicas, pesquisas jurisprudenciais, análise de contratos, gestão de risco e até suporte à tomada de decisão, passa a ser dominada por modelos desenvolvidos fora dos regimes regulatórios tradicionais do Ocidente, surge uma questão: como escritórios jurídicos vão garantir conformidade, soberania de dados e segurança para seus clientes nesse novo cenário?

Para entender essa nova dinâmica tecnológica e geopolítica, alguns pontos se tornam essenciais:

  • Entender quem controla a tecnologia que utilizam e sob qual regime jurídico ela é desenvolvida;
  • Avaliar se suas operações estão preparadas para um cenário em que padrões chineses, americanos e europeus disputam a definição do que é IA “segura” ou “responsável”;
  • Formar equipes capazes de dialogar com TI, confiabilidade da informação e negócios, e não apenas com o processo judicial.

O que a disputa entre China e EUA significa para o mercado jurídico?

A disputa tecnológica entre China e Estados Unidos não ocorre apenas dentro de seus próprios territórios. A China está exportando infraestrutura de inteligência artificial e modelos de código aberto para países em desenvolvimento, influenciando como essas nações irão regular, fiscalizar e adotar sistemas inteligentes nos próximos anos. 

Na prática, isso significa que os padrões de governança internacional estão sendo moldados não por um consenso global, mas por uma disputa de influência e o mercado jurídico precisará se adaptar rapidamente.

Nesse contexto, advogados e gestores de escritórios devem adotar uma postura estratégica, proativa e orientada por governança. Veja como.

Estruturar uma política interna de uso de IA

Não basta usar IA, é preciso definir como, quando e para que cada ferramenta pode ser aplicada. Isso porque ter uma política clara reduz riscos, aumenta a confiança da equipe e protege o escritório em caso de questionamentos.

Isso inclui:

  • Limites para uso em documentos sensíveis;
  • Regras de confidencialidade e mitigação de vazamento de dados;
  • Diretrizes sobre IA generativa x IA analítica;
  • Processos de validação humana.

Criar governança de dados e critérios de escolha de fornecedores

Diante da disputa entre modelos chineses, americanos e até mesmo europeus, escritórios precisam estabelecer critérios objetivos para selecionar ferramentas, considerando:

  • País de origem e legislação aplicável;
  • Práticas de segurança e privacidade;
  • Mecanismos de auditoria e explicabilidade;
  • Riscos de soberania de dados e dependência de fornecedores;;
  • Nível de transparência do modelo (fechado, aberto ou híbrido).

Além desses pontos, é importante que o escritório documente suas decisões e mantenha um processo contínuo de revisão dos fornecedores, já que as regulações e as soluções evoluem rapidamente. 

Sem esses critérios, o escritório pode incorporar soluções incompatíveis com regulações futuras ou com exigências de clientes globais.

Desenvolver competências internas em IA e regulação internacional

A advocacia não pode tratar os sistemas inteligentes como um assunto exclusivamente técnico. Os escritórios precisam investir na formação de equipes preparadas para compreender tanto a tecnologia quanto os efeitos jurídicos e regulatórios que dela decorrem.

Isso envolve preparar profissionais para interpretar regulações internacionais, como o AI Act europeu, as diretrizes americanas e as normas chinesas, participar de discussões sobre governança algorítmica, orientar clientes em contratos, vulnerabilidades e questões de compliance envolvendo IA, além de avaliar os impactos jurídicos associados a modelos open-source e a infraestruturas desenvolvidas em outros países.

Adotar IA com estratégia

É fundamental identificar problemas reais antes de escolher ferramentas. A implementação de inteligência artificial deve estar conectada às necessidades internas do escritório, e não a modismos tecnológicos. 

Para isso, os escritórios devem mapear alguns pontos, como prazos, retrabalho e tempo gasto em pesquisas, identificar processos que podem ser automatizados com segurança e analisar em quais áreas a IA é capaz de acelerar o trabalho sem comprometer a qualidade. Também é importante observar as oportunidades de criar novos serviços jurídicos baseados em dados, ampliando a atuação do escritório.

Além desse mapeamento, é importante avaliar o impacto prático de cada solução escolhida, garantindo que a ferramenta, de fato, melhore o fluxo de trabalho, reduza riscos e contribua para resultados mensuráveis no dia a dia da operação.

Estabelecer parcerias com especialistas em tecnologia e segurança

A nova onda de IA exige uma atuação verdadeiramente multidisciplinar para evitar perigos invisíveis e fortalecer a capacidade de resposta diante de problemas. 

Para isso, os escritórios precisam trabalhar em conjunto com profissionais de TI, especialistas em governança e compliance digital, consultores de segurança da informação e equipes de cibersegurança. 

Essas parcerias ajudam o escritório a avaliar melhor os riscos tecnológicos, implementar controles adequados e garantir que o uso de sistemas inteligentes esteja alinhado às boas práticas de segurança, privacidade e conformidade regulatória, evitando falhas que podem comprometer tanto a operação quanto a confiança do cliente.

Monitorar continuamente mudanças regulatórias globais

Apesar do uso da inteligência artificial estar se tornando cada vez mais comum, a tecnologia ainda está em plena evolução, tanto no aspecto técnico quanto no regulatório. Isso significa que normas, orientações e requisitos de compliance podem mudar em questão de meses.

Como a China está exportando seus modelos e influenciando países emergentes, essas transformações tendem a ocorrer de maneira acelerada e assimétrica, exigindo atenção constante dos escritórios. 

Dessa forma, é indispensável acompanhar novas leis sobre IA, tratados internacionais, guias de boas práticas, decisões judiciais relacionadas à responsabilidade por sistemas inteligentes e padrões técnicos emergentes. 

Somente assim os escritórios conseguem ajustar suas políticas internas e manter uma atuação segura, atualizada e em conformidade com as exigências globais.

Como integrar IA com segurança, responsabilidade e conformidade regulatória?

Está claro que os escritórios de advocacia enfrentam o desafio de se adaptar a um ambiente em que tecnologia e regulação andam lado a lado.

Isso significa que, em um cenário em que a China expande sua influência exportando infraestrutura de IA e modelos de código aberto, contribuindo para a definição de padrões de governança internacional, as IAs jurídicas auxiliam os escritórios a compreenderem como essas mudanças impactam a rotina jurídica, quais riscos regulatórios surgem ao utilizar tecnologias desenvolvidas em diferentes jurisdições e de que forma a IA pode ser integrada com responsabilidade, conformidade e vantagem competitiva.

Além disso, cada nova inovação que o sistema se propõe a desenvolver é construída em conformidade com a LGPD, adotando práticas de segurança, minimização de dados e responsabilidade no tratamento das informações, garantindo que a atuação dos escritórios seja confiável e alinhada às exigências regulatórias.

O que a advocacia precisa ajustar para lidar com a IA de forma estratégica?

O principal desafio para a advocacia agora é posicionar-se diante da inteligência artificial. Isso significa saber quais modelos adotar, como justificá-los perante clientes, como documentar decisões tecnológicas, como antecipar riscos regulatórios e como construir fluxos de trabalho que resistam às mudanças que virão, sejam elas impulsionadas pelo AI Act europeu, pelas diretrizes americanas ou pela expansão dos modelos chineses.

Quanto antes os escritórios ajustarem sua forma de lidar com a tecnologia, mais protegidos estarão. Isso inclui não apenas reagir à IA, mas planejar estrategicamente com ela e também escolhendo parceiros de forma consciente.

Eduardo Koetz

VIP Eduardo Koetz

Eduardo Koetz é advogado, sócio-fundador da Koetz Advocacia e CEO do software jurídico ADVBOX . Especialista em tecnologia e gestão, ele também se destaca como palestrante em eventos jurídicos.

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