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O xadrez da IA: Quando os cientistas mudam de lado no tabuleiro global

A trajetória de Song-Chun Zhu e o que ela revela sobre o futuro da IA, a geopolítica tecnológica e os desafios estratégicos para o setor jurídico brasileiro.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Atualizado às 14:04

O futuro da IA - Inteligência Artificial está intrinsecamente ligado à nova configuração geopolítica mundial, onde potências emergentes, como a China, disputam protagonismo com os Estados Unidos. 

A trajetória do cientista de IA Song-Chun Zhu, que deixou os EUA para atuar estrategicamente na China, é um exemplo emblemático desse deslocamento do eixo tecnológico global. Essa movimentação não apenas revela as tensões e estratégias nacionais em torno da IA, mas também impõe um recado claro ao setor jurídico brasileiro: a transformação tecnológica é inevitável e exige adaptações profundas em carreiras, modelos de negócio e regulação.

Em 2020, em meio à pandemia de COVID-19 e a uma crescente onda de tensões geopolíticas, Song-Chun Zhu embarcou em um voo sem volta. Após quase três décadas nos Estados Unidos, onde construiu uma carreira brilhante na UCLA e recebeu mais de US$30 milhões em financiamento federal para pesquisas em IA, o cientista chinês retornou à sua terra natal para liderar o Instituto de Pequim para BIGAI - Inteligência Artificial Geral.

Não foi apenas uma mudança de endereço, foi um movimento tectônico que ilustra uma das transformações mais profundas da nossa época, a redistribuição global do poder tecnológico.

Para o mundo jurídico brasileiro, essa história vai muito além de uma narrativa geopolítica fascinante, ela expõe com clareza as forças que estão redesenhando a competitividade internacional, os modelos de negócio e as estruturas regulatórias que afetarão diretamente escritórios de advocacia, departamentos jurídicos e a prestação de serviços legais nas próximas décadas. 

Quando um dos mais respeitados pesquisadores de IA do mundo escolhe trocar o Vale do Silício por Pequim, não estamos apenas testemunhando uma mudança de lealdades acadêmicas, estamos vendo o futuro da inovação sendo reescrito em tempo real.

A jornada de um cientista e o espelho de uma era

Nascido em 1968 na província de Hubei, durante a Revolução Cultural chinesa, Zhu cresceu cercado por histórias de pobreza e perdas. Em seu relato ao The Guardian, ele lembra de ter folheado o livro genealógico de sua família e notado que, além das datas de nascimento e morte, não havia nada mais registrado sobre seus ancestrais, quando perguntou o porquê recebeu uma resposta que o marcaria para sempre: "Não há nada digno de ser registrado sobre a vida de um camponês".

Essa resposta moldou mais do que uma ambição pessoal, ela se tornou uma busca filosófica por significado e legado, ecoando questões que atravessam séculos de pensamento humano. O filósofo alemão Martin Heidegger argumentava que o ser humano é o único ente capaz de questionar sua própria existência e de buscar autenticidade em um mundo que tende à impessoalidade. 

Para Zhu, a IA não seria apenas uma ferramenta técnica, mas uma forma de conferir significado, memória e dignidade às vidas que, de outra forma, permaneceriam invisíveis aos registros da história.

Sua trajetória acadêmica foi meteórica, graduou-se na Universidade de Ciência e Tecnologia da China em 1991, obteve seu PhD em Harvard em 1996 sob orientação do renomado matemático David Mumford, e rapidamente se estabeleceu como uma das vozes mais importantes em visão computacional e aprendizado estatístico.

Em 2003, aos 35 anos, ganhou o Prêmio Marr, uma das honrarias mais prestigiadas na área de visão computacional. Na UCLA, onde permaneceu por 18 anos, ele fundou o Centro de Visão, Cognição, Aprendizado e Autonomia, treinou gerações de estudantes e se tornou referência mundial em IA.

Mas algo começou a mudar na última década, enquanto o Vale do Silício celebrava os avanços espetaculares do deep learning e dos grandes modelos de linguagem, Zhu tornava-se cada vez mais cético em relação ao que via como uma abordagem fundamentalmente limitada. Em suas próprias palavras, a indústria havia se tornado obcecada por uma mentalidade de "desempenho a qualquer custo", alimentando algoritmos com quantidades astronômicas de dados para resolver tarefas relativamente simples. Para ele, isso era o oposto da verdadeira inteligência.

Small data, big task: A filosofia contra a corrente

A discordância de Zhu com o mainstream da IA não era apenas técnica, era filosófica. Ele defendia o que chamou de paradigma "small data, big task" (pouco dado, grande tarefa), em contraposição ao modelo dominante de "big data, small task" que caracteriza ferramentas como o ChatGPT. 

Sua visão era de que a verdadeira inteligência não está em processar montanhas de informação, mas em raciocinar, compreender contexto e resolver problemas complexos com recursos mínimos, exatamente como o cérebro humano faz.

Essa perspectiva dialoga diretamente com a crítica do filósofo francês Henri Bergson à "inteligência instrumental". Bergson distinguia entre inteligência, que fragmenta, analisa e manipula o mundo em categorias, e intuição, que compreende o fluxo contínuo da experiência e a essência das coisas. Para Zhu, a IA contemporânea estava presa em um modelo de inteligência fragmentada, incapaz de capturar o que realmente significa "entender" algo.

Em 2024, seu instituto lançou o "Tong Tong 2.0", descrito como a primeira "criança de IA" do mundo, projetada para desenvolver raciocínio de senso comum semelhante ao de uma criança humana, com capacidade de navegar ambientes físicos e sociais de forma autônoma. A metáfora não poderia ser mais clara: enquanto o Ocidente busca construir gigantes de dados, Zhu quer criar máquinas que aprendam como bebês.

Mas essa divergência intelectual não explica sozinha sua decisão de voltar à China, havia também o contexto político.

A China Initiative e o êxodo dos talentos

Durante a administração Trump, os Estados Unidos lançaram a chamada "China Initiative", um programa de investigação e fiscalização voltado a cientistas de origem chinesa acusados de vínculos com programas de transferência de tecnologia do governo chinês. O clima de suspeição tornou-se sufocante. Vistos foram negados, colaborações internacionais se tornaram arriscadas e muitos pesquisadores chineses sentiram que não eram mais bem-vindos.

Zhu não foi exceção. Embora negue ter violado qualquer lei americana, relatórios indicam que ele recebia financiamento federal mesmo após estabelecer vínculos com instituições chinesas e integrar programas de recrutamento de talentos de Pequim. Congressistas americanos questionaram publicamente por que a Marinha e o Pentágono continuaram financiando suas pesquisas em robótica autônoma, tecnologia com aplicações militares óbvias, mesmo depois de sinais claros de suas conexões com a China.

A ironia é palpável. Durante décadas, os Estados Unidos se beneficiaram enormemente de sua política de portas abertas para talentos internacionais, o Vale do Silício, por exemplo, foi construído por imigrantes. Agora, ao adotar uma postura de fechamento e suspeição, o país pode estar alimentando exatamente o cenário que temia: a ascensão de um rival tecnológico com recursos comparáveis e determinação política inabalável.

Ao retornar à China, Zhu recebeu posições de professor pleno em duas das universidades mais prestigiadas do país, a Universidade de Pequim e a Universidade Tsinghua, além de recursos praticamente ilimitados para liderar o BIGAI. 

Em sua proposta submetida à Conferência Consultiva Política do Povo Chinês em 2023, ele comparou a importância estratégica da Inteligência Artificial geral à bomba atômica, argumentando que o país que alcançar a AGI (Inteligência Artificial Geral) primeiro se tornará o "vencedor" da competição tecnológica internacional. Nas palavras de Zhu: "Eles me dão recursos que eu jamais poderia ter nos Estados Unidos. Tenho que fazer isso."

Clique aqui e confira o artigo na íntegra. 

Eduardo Koetz

VIP Eduardo Koetz

Eduardo Koetz é advogado, sócio-fundador da Koetz Advocacia e CEO do software jurídico ADVBOX . Especialista em tecnologia e gestão, ele também se destaca como palestrante em eventos jurídicos.