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A corrida dos data centers: O custo ambiental da revolução digital

A inteligência artificial está transformando radicalmente o mundo dos negócios, e o setor jurídico não é exceção.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Atualizado em 24 de setembro de 2026 16:19

Enquanto empresas investem bilhões em soluções de IA para ganhar eficiência e competitividade, escritórios de advocacia implementam ferramentas de análise preditiva, automação de processos e gestão inteligente de documentos. Mas há um lado dessa revolução que permanece invisível para a maioria: a infraestrutura física que sustenta toda essa transformação digital.

Cada consulta a um assistente virtual, cada análise automatizada de contrato, cada pesquisa jurisprudencial alimentada por IA depende de vastas instalações físicas conhecidas como data centers. Essas estruturas, que abrigam milhares de servidores operando ininterruptamente, tornaram-se o alicerce silencioso da economia digital, e sua expansão acelerada está gerando impactos ambientais que demandam atenção urgente da comunidade jurídica, reguladores e empresas.

O crescimento exponencial da infraestrutura digital

A demanda por capacidade computacional cresceu de forma vertiginosa nos últimos anos, impulsionada principalmente pela corrida da inteligência artificial generativa. Modelos de linguagem, sistemas de aprendizado profundo e aplicações corporativas de IA exigem poder de processamento em escala sem precedentes. Como consequência, a indústria de data centers experimenta um boom de investimentos e construções que pode ser comparado apenas às grandes ondas de industrialização do século passado.

Os números revelam a dimensão desse fenômeno. Em 2024, os data centers ao redor do mundo consumiram 310,6 TWh (terawatts-hora) de energia elétrica, segundo levantamento publicado pela Data Centre & Network News Magazine. Para contextualizar, essa cifra equivale ao consumo energético anual de países de médio porte ou à alimentação elétrica de milhões de residências por um ano inteiro.

Apesar da escala impressionante, é importante dimensionar esse consumo dentro do contexto energético global. Análises independentes, como a publicada pela Carbon Brief, indicam que os data centers atualmente respondem por pouco mais de 1% da eletricidade consumida no planeta e geram aproximadamente 0,5% das emissões globais de CO2. São números aparentemente modestos, mas que ganham outra dimensão quando projetamos o futuro.

A IEA - International Energy Agency, em seu relatório sobre centros de dados e redes de transmissão, projeta que o consumo energético do setor pode alcançar 945 TWh até 2030. Isso representaria um crescimento superior a 200% em apenas seis anos, um salto com o qual poucos setores da economia podem rivalizar.

A pegada de carbono da nuvem

Quando falamos em "computação em nuvem", o termo pode sugerir algo etéreo, imaterial e sem consequências físicas, mas a realidade é bastante diferente. A nuvem tem peso, consome recursos e deixa rastros ambientais concretos. Compreender a pegada de carbono dessa infraestrutura tornou-se essencial para qualquer discussão séria sobre sustentabilidade corporativa e responsabilidade ambiental.

As emissões de GEE - gases de efeito estufa associadas aos data centers derivam principalmente da fonte de energia utilizada para alimentá-los. Data centers operando em regiões cuja matriz energética depende fortemente de combustíveis fósseis apresentam uma pegada de carbono substancialmente maior do que aqueles alimentados por fontes renováveis.

Há, contudo, sinais encorajadores. A intensidade média global de carbono na operação de data centers caiu de 366,9 para 312,7 mtCO2e/GWh (toneladas métricas de dióxido de carbono equivalente por gigawatt-hora) entre 2019 e 2024, conforme dados do relatório ESG 2025 da Data Centre & Network News Magazine. Essa redução, de aproximadamente 15%, reflete o esforço crescente da indústria em adotar energias renováveis e melhorar a eficiência operacional.

Grandes operadores têm anunciado compromissos ambiciosos de neutralidade de carbono e contratos de compra de energia renovável. Microsoft, Google, Amazon e outros gigantes da tecnologia já investem bilhões em fazendas solares e eólicas para alimentar suas instalações, no entanto, a velocidade da expansão da infraestrutura pode suplantar os ganhos de eficiência, resultando em aumento absoluto das emissões mesmo com melhorias relativas.

Água: O recurso esquecido na equação digital

Se o consumo energético e as emissões de carbono já começam a figurar nos debates sobre sustentabilidade digital, há um aspecto ainda mais negligenciado: o uso intensivo de água. Data centers modernos dependem de sistemas sofisticados de resfriamento para evitar o superaquecimento dos equipamentos, e muitos desses sistemas consomem quantidades monumentais de água.

Reportagens recentes na Forbes Brasil e análises da Fronteira Econômica têm documentado conflitos emergentes entre operadores de data centers e comunidades locais pelo acesso a recursos hídricos. Em regiões já enfrentando estresse hídrico, a instalação de grandes data centers pode agravar disputas por água e afetar o abastecimento de populações inteiras.

O problema é particularmente agudo em áreas áridas ou semiáridas, onde empresas de tecnologia estabelecem data centers atraídas por incentivos fiscais ou proximidade a fontes de energia renovável (como parques solares). O paradoxo é evidente, busca-se reduzir a pegada de carbono, mas potencialmente cria-se um passivo hídrico de consequências igualmente graves.

Algumas instalações utilizam sistemas de resfriamento a ar ou tecnologias de circuito fechado que reduzem significativamente o consumo de água. Porém, essas alternativas frequentemente são mais caras e menos eficientes em termos energéticos, criando dilemas de otimização que nem sempre favorecem a escolha mais sustentável do ponto de vista hídrico.

Impactos socioambientais e o desenvolvimento local

A chegada de um grande data center pode transformar completamente a dinâmica de uma região. Por um lado, gera empregos (embora frequentemente menos do que a construção civil tradicional, dada a automação), atrai investimentos e pode impulsionar o desenvolvimento de infraestrutura local, por outro lado, contudo, pode sobrecarregar redes elétricas, tensionar recursos hídricos e elevar custos para residentes.

Estudos recentes, incluindo análise do Think Tank da ABES - Associação Brasileira de Engenharia de Sistemas, identificam tanto riscos quanto oportunidades na corrida pelos data centers de IA. Entre os riscos destacam-se:

  • Pressão sobre infraestrutura energética: a demanda súbita e concentrada pode desestabilizar redes elétricas locais ou desviar capacidade de geração que atenderia outros consumidores;
  • Conflitos por recursos naturais: competição por água e terra, especialmente em regiões com recursos limitados ou populações vulneráveis;
  • Gentrificação e impacto habitacional: a chegada de instalações tecnológicas de grande porte pode elevar o custo de vida e deslocar comunidades;
  • Externalidades ambientais não compensadas: emissões, consumo hídrico e produção de calor residual que afetam o entorno sem contrapartidas adequadas.

Por outro lado, quando adequadamente planejada e regulada, a instalação de data centers pode trazer benefícios substanciais, incluindo modernização da infraestrutura energética, geração de empregos qualificados, atração de talentos técnicos e desenvolvimento de ecossistemas de inovação.

O vácuo regulatório e a necessidade de governança

Um dos aspectos mais preocupantes dessa expansão acelerada é a relativa ausência de marcos regulatórios específicos para data centers na maioria dos países, incluindo o Brasil. Enquanto setores industriais tradicionais estão sujeitos a rigorosos processos de licenciamento ambiental, avaliações de impacto e exigências de compensação, a indústria de data centers frequentemente opera em zonas cinzentas regulatórias.

A classificação dos data centers varia conforme a jurisdição. São equiparados a instalações industriais? A edifícios comerciais? Que padrões ambientais devem cumprir? Quais estudos de impacto são obrigatórios antes da instalação? Como se mensura e compensa o uso de recursos públicos (água, energia subsidiada, ocupação de solo)?

Essas questões demandam respostas urgentes do poder público e representam oportunidades significativas para a advocacia especializada. Escritórios que atuam em Direito Ambiental, regulação de energia, infraestrutura e compliance ESG têm pela frente um campo vasto e crescente de atuação.

A experiência internacional oferece algumas pistas. A União Europeia avança em diretrizes mais rigorosas para eficiência energética e uso de renováveis em data centers, alguns estados norte-americanos estabeleceram critérios específicos para licenciamento e operação dessas instalações e Singapura chegou a impor moratória temporária para novos data centers devido a preocupações energéticas e ambientais.

A responsabilidade do setor corporativo

Empresas que dependem de serviços em nuvem e soluções de IA, o que inclui praticamente todo escritório de advocacia moderno, são indiretamente responsáveis pelos impactos ambientais da infraestrutura que utilizam. A escolha de provedores, os termos contratuais estabelecidos e as exigências de transparência ambiental fazem diferença concreta.

O conceito de "Escopo 3" nas emissões de carbono corporativas (emissões indiretas na cadeia de valor) vem ganhando relevância e empresas comprometidas com metas de sustentabilidade precisam considerar não apenas suas operações diretas, mas também as emissões incorporadas nos serviços que contratam, incluindo computação em nuvem e infraestrutura digital.

Isso cria tanto riscos quanto oportunidades:

  • Riscos: empresas podem enfrentar escrutínio crescente sobre suas pegadas digitais, clientes, investidores e reguladores começam a demandar transparência sobre impactos ambientais indiretos e a escolha de provedores com práticas insustentáveis pode gerar passivos reputacionais e regulatórios.
  • Oportunidades: provedores que demonstrem compromissos ambientais verificáveis ganham vantagem competitiva, surgem mercados para certificações, auditorias e instrumentos de compensação ambiental específicos para infraestrutura digital e desenvolve-se expertise jurídica especializada em contratos e compliance para o setor.

Rumo a uma infraestrutura digital sustentável

A transição para uma economia digital não precisa, e não deve, ocorrer às custas do meio ambiente. Tecnologias e práticas já existem para tornar a expansão de data centers mais sustentável, o desafio está em implementá-las em escala e velocidade adequadas.

Entre as soluções tecnológicas disponíveis destacam-se:

  • Eficiência energética: chips mais eficientes, sistemas de resfriamento otimizados e arquiteturas de software que reduzem processamento desnecessário;
  • Energias renováveis: contratos de longo prazo para compra de energia limpa, instalação de geração própria renovável e localização estratégica próxima a fontes renováveis;
  • Gestão inteligente de recursos: uso de IA para otimizar consumo energético, resfriamento adaptativo baseado em condições climáticas e redistribuição dinâmica de cargas de trabalho;
  • Economia circular: reuso de calor residual para aquecimento urbano ou processos industriais, reciclagem de componentes e extensão da vida útil de equipamentos.

Mas soluções tecnológicas por si só não bastam. É necessária a criação de marcos regulatórios claros, incentivos adequados, transparência de dados e responsabilização efetiva. 

E é precisamente aqui que o setor jurídico desempenha papel fundamental.

O papel da advocacia na transição sustentável

Escritórios de advocacia e departamentos jurídicos corporativos encontram-se em posição privilegiada para influenciar a trajetória da infraestrutura digital. Seja na elaboração de contratos que incorporem cláusulas ambientais, na consultoria regulatória para adequação de instalações, na defesa de comunidades afetadas ou na estruturação de políticas corporativas de ESG.

Algumas frentes de atuação merecem destaque:

  • Contratos e due diligence: incorporação de critérios ambientais na seleção de provedores de serviços digitais e criação de cláusulas contratuais que exijam transparência sobre fontes de energia, eficiência e pegadas ambientais;
  • Consultoria regulatória: orientação a empresas do setor sobre licenciamento ambiental, adequação a normas energéticas e antecipação de requisitos regulatórios futuros;
  • Compliance ESG: desenvolvimento de políticas e procedimentos para mensuração, report e mitigação de impactos ambientais relacionados à infraestrutura digital corporativa;
  • Litígio estratégico: representação de comunidades em conflitos ambientais relacionados a data centers ou defesa de empresas em disputas regulatórias e ambientais;
  • Advocacy e formulação de políticas: participação em debates públicos e contribuição para a elaboração de marcos regulatórios equilibrados e eficazes.

Conscientização e responsabilidade coletiva

A revolução digital é irreversível e, em muitos aspectos, desejável. As tecnologias de Inteligência Artificial prometem avanços significativos em produtividade, acesso à justiça, eficiência corporativa e solução de problemas complexos. Mas essa transformação não pode ocorrer desconsiderando seus custos ambientais e sociais.

A corrida pelos data centers coloca em evidência contradições fundamentais do nosso tempo: a busca simultânea por avanço tecnológico e sustentabilidade ambiental, o desejo de crescimento econômico e proteção de recursos naturais, a tensão entre inovação acelerada e desenvolvimento equilibrado.

Não há respostas fáceis, mas a pior resposta seria a indiferença. O setor jurídico, por sua capacidade de traduzir valores sociais em normas e contratos, de equilibrar interesses conflitantes e de responsabilizar atores por suas ações, tem papel crucial nessa transição.

Escritórios de advocacia que ignorarem essas questões perderão oportunidades de negócio e relevância, já aqueles que as abraçarem, desenvolvendo expertise e posicionamento claro, estarão na vanguarda de um dos debates mais importantes das próximas décadas.

A nuvem não é etérea. Ela tem peso, consome recursos e deixa marcas. Cabe a todos nós, advogados, empresários, reguladores e cidadãos, garantir que essas marcas sejam o mais leves possível e que o futuro digital seja também um futuro sustentável.

Eduardo Koetz

Eduardo Koetz

Eduardo Koetz é advogado, sócio-fundador da Koetz Advocacia e CEO do software jurídico ADVBOX . Especialista em tecnologia e gestão, ele também se destaca como palestrante em eventos jurídicos.