Jornada nova, propósito antigo: quando a fé vira prática cotidiana
Quando o simples, praticado com constância, se torna ferramenta real de transformação.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Atualizado às 14:03
Todo início de ano no calendário civil carrega consigo um movimento quase automático de balanço e reinício. Independentemente de crenças religiosas, trata-se de um marco social amplamente compartilhado, que sinaliza a passagem de um ciclo e convida à revisão de escolhas, prioridades e caminhos.
É a partir desse ponto — e não de uma celebração em si — que a reflexão proposta pelo Rabino Eliahu Hasky para 2026 ganha relevância. Embora o judaísmo estabeleça seu próprio calendário espiritual, o rabino reconhece que viver no Brasil e em um mundo organizado por esse marco temporal permite utilizar o momento como uma referência simbólica para uma nova jornada pessoal e coletiva.
O problema, como ele frequentemente aponta, não está na intenção de mudar, mas na forma como encaramos o próprio conceito de transformação. Promessas grandiosas, metas inalcançáveis e discursos empolgados tendem a se dissolver rapidamente quando não encontram sustentação na prática cotidiana. A mudança real, segundo essa abordagem, nasce da constância — não do espetáculo.
Hasky parte de ensinamentos da tradição judaica apresentados de maneira universal, acessível e profundamente humana. Não há dogmatismo nem exclusividade religiosa. Há uma provocação contemporânea: pequenas ações repetidas com consciência têm mais poder transformador do que grandes planos abandonados pelo caminho.
Essa lógica dialoga diretamente com um mundo marcado por ansiedade, excesso de estímulos e uma sensação difusa de esgotamento emocional. Vivemos cercados de cobranças irreais, comparações constantes e expectativas que pouco dialogam com os limites humanos. Nesse contexto, desacelerar, rever prioridades e reconectar-se com o essencial deixa de ser luxo e passa a ser necessidade.
Entre os pilares destacados pelo rabino estão práticas simples e sustentáveis: momentos diários de gratidão, reflexão, estudo, silêncio, empatia e atos cotidianos de bondade. Nada que exija rupturas radicais ou performances espirituais. O foco está na chamada disciplina leve — aquela que cabe na vida real e se mantém ao longo do tempo.
Outro ponto central dessa reflexão é a defesa de uma espiritualidade que dialoga com a razão e com a complexidade do mundo contemporâneo. A fé, nessa leitura, não se opõe ao pensamento crítico nem ignora a pluralidade cultural e religiosa. Ao contrário: funciona como uma bússola ética para decisões mais conscientes, relações mais equilibradas e escolhas alinhadas a valores.
Essa mensagem encontra eco porque responde a uma demanda concreta por sentido. Empresas falam em propósito, profissionais buscam significado no trabalho, famílias tentam reconstruir vínculos fragilizados pelo ritmo acelerado da vida moderna. O discurso vazio já não convence. O que se busca, cada vez mais, é coerência entre discurso e prática.
Talvez o principal ensinamento para este novo ciclo seja justamente esse: mudar não exige promessas heroicas nem rituais grandiosos. Exige presença, constância e disposição para transformar o simples em algo verdadeiramente transformador. Afinal, propósito não nasce do extraordinário — nasce do que escolhemos fazer, todos os dias.


