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Tirzepatida (Mounjaro): Segurança jurídica para o médico

O crescimento exponencial da procura por medicamentos injetáveis para controle metabólico e emagrecimento colocou o médico em uma posição delicada.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Atualizado às 13:19

O medicamento Mounjaro® (tirzepatida) é indicado para melhorar o controle glicêmico de adultos com diabetes mellitus tipo 2, sempre em associação a dieta e exercícios físicos.

A consulta mudou: o paciente chega com expectativas prontas

Hoje, o paciente frequentemente chega ao consultório munido de informações fragmentadas da internet, comparações com conhecidos e uma expectativa objetiva de resultado. Isso altera profundamente a dinâmica da consulta.

O problema jurídico não está na prescrição em si, mas no desalinhamento entre:

  • o que o médico explicou;
  • o que o paciente compreendeu;
  • e o que ficou documentalmente provado.

É nesse ponto que muitos profissionais, tecnicamente corretos, se tornam vulneráveis.

O dever de informar e o papel central do TCLE - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

O dever de informação é um dos pilares da relação médico-paciente. Ele não se limita à boa-fé ou à conversa clínica: precisa ser comprovável.

TCLE - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido é o instrumento que materializa esse dever. Não se trata de burocracia, mas de proteção recíproca da autonomia do paciente e da racionalidade da conduta médica.

Um ponto crítico:

TCLEs genéricos encontrados na internet não possuem validade jurídica adequada.

Hoje, o entendimento jurídico é claro: não é necessário haver erro médico.

A simples ausência de um TCLE adequado, ou o uso de um termo genérico, pode comprometer a justificativa da conduta e a credibilidade da atuação profissional em sindicâncias, processos éticos ou ações judiciais.

O entendimento do STJ:

STJ consolidou o entendimento de que o TCLE é indispensável para formalizar o dever de informação e assegurar a autonomia do paciente.

No julgamento do REsp 1.848.862, o Tribunal deixou claro que:

  • termos genéricos ou meramente formais são inválidos;
  • o documento deve ser específico, claro e individualizado;
  • riscos, benefícios e alternativas terapêuticas precisam estar expressamente descritos.

Em outras palavras: o TCLE não é um anexo administrativo é prova central da licitude da conduta médica.

Aplicação da tirzepatida no consultório e limites éticos

É permitido ao médico:

  • prescrever a tirzepatida quando clinicamente indicada;
  • individualizar o tratamento;
  • fundamentar cientificamente sua decisão;
  • realizar a aplicação no próprio consultório, quando adequado.

Entretanto, o Código de Ética Médica impõe limites claros:

  • é vedada a vinculação do médico a atividades de comercialização de medicamentos;
  • é proibida a obtenção de vantagem financeira com a venda do fármaco ou com a cobrança disfarçada de aplicações rotineiras;
  • práticas que confundam ato médico com comércio podem caracterizar mercantilização da medicina.

Clínicas que estocam, vendem ou aplicam medicamentos sem rastreabilidade adequada se expõem não apenas a sanções éticas, mas também a litígios cíveis e administrativos. Ainda assim, mesmo quando o médico respeita esses limites a ausência de um TCLE adequado continua sendo um fator altamente prejudicial à sua defesa.

Por que a falta do TCLE fragiliza tanto o médico?

Porque, em um conflito, a prova fala mais alto que a intenção.

Sem documentação adequada, a narrativa do paciente tende a prevalecer, ainda que a conduta médica tenha sido tecnicamente correta. A ausência do TCLE:

  • dificulta comprovar que os riscos foram informados;
  • enfraquece a justificativa clínica da prescrição;
  • compromete a percepção de diligência e prudência profissional.

Documentação como principal instrumento de proteção:

TCLE específico e individualizado

Deve contemplar:

  • riscos conhecidos e potenciais;
  • benefícios esperados e seus limites;
  • alternativas terapêuticas (como outras medicações ou procedimentos);
  • cuidados necessários durante o tratamento;
  • efeitos gastrointestinais e risco de desidratação;
  • ciência expressa do paciente sobre o caráter individual do tratamento.
  • Se não está registrado, juridicamente não existiu.

Conclusão

A tirzepatida representa avanço terapêutico relevante, mas também inaugura uma nova fronteira de responsabilidade para o médico.

No cenário atual, segurança jurídica não nasce apenas da boa técnica, mas da transparência, da informação clara e da documentação robusta. O TCLE deixou de ser opcional: tornou-se um elemento estruturante da prática médica responsável.

Proteger-se não significa atuar com medo.

Significa exercer a medicina com consciência ética, respaldo jurídico e respeito à autonomia do paciente.

Em tempos de alta exposição, quem documenta, se protege. Quem se protege, continua cuidando.

Monique Magalhães Moraes

VIP Monique Magalhães Moraes

Advogada referência na Defesa dos Médicos no CRM e Judiciário. Conselheira do Hospital Municipal Carlos Tortelly. Fundadora FEC. Compliance Saúde - Hosp. Sírio-Libanês. Coordenadora de Dir. Médico ESA

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