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Quando decisões trabalhistas corroem margem e valuation

Decisões trabalhistas sem estratégia geram custos ocultos, ampliam riscos sistêmicos e comprometem a previsibilidade financeira e o valuation de empresas em crescimento.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Atualizado às 14:26

Como decisões trabalhistas mal fundamentadas corroem margem e valuation

Por anos, o tema trabalhista foi relegado ao papel de coadjuvante nas empresas: um assunto operacional, restrito ao RH ou, na melhor das hipóteses, resolvido pelo jurídico apenas quando o incêndio já estava instalado. Esse é um modelo de gestão que, embora comum, é silenciosamente destrutivo.

A verdade é que decisões trabalhistas tomadas sem a devida estratégia não são apenas geradoras de ações judiciais. Elas são um vetor de corrosão de margem, distorcem a previsibilidade financeira e, de forma direta, derrubam o valuation de qualquer empresa com ambição de crescimento.

O problema não está na lei. Está na decisão.

O erro começa muito antes do conflito se instalar.

Quando analisamos passivos trabalhistas relevantes, o padrão se repete: raramente a origem está em uma "ilegalidade consciente". O que se observa, na maioria dos casos, são decisões tomadas sem o devido diagnóstico, sem processo documentado e sem registro.

Empresas decidem como contratar, como remunerar, como controlar jornada, como desligar colaboradores e como estruturar prestadores de serviço baseadas em práticas de mercado, experiências passadas ou orientações fragmentadas. O risco surge quando essas decisões não são sustentáveis juridicamente nem coerentes entre si.

O custo disso não aparece no DRE no mês seguinte. Ele se acumula, silenciosamente.

Margem corroída não nasce no processo, nasce na rotina

Toda empresa conhece o impacto direto de uma condenação trabalhista. O que poucas percebem é o impacto indireto e recorrente das decisões mal fundamentadas que se tornam rotina:

  • Horas extras não controladas que se transformam em passivo;
  • Políticas de premiação que, na prática, se transformam em custo fixo;
  • Modelos de contratação que se confundem;
  • Desligamentos mal conduzidos que se multiplicam em litígios.

Esses elementos pressionam a margem de forma contínua. Não são eventos extraordinários, tornam-se parte do custo estrutural da operação. E quando a empresa cresce, o problema cresce junto, exponencialmente.

Valuation é sobre risco - e o trabalhista pesa mais do que se imagina

Em processos de investimento, venda ou reorganização societária, o passivo trabalhista raramente é visto apenas pelo valor nominal das ações em andamento. O que pesa, de fato, é o risco sistêmico que a gestão demonstrou.

Empresas com histórico de decisões trabalhistas inconsistentes geram alertas claros em qualquer due diligence:

  • Ausência de documentação de processos.
  • Dependência excessiva de acordos para "apagar incêndios".
  • Modelos frágeis de contratação.
  • Falta de governança sobre a área de Pessoas.

O mercado de M&A e o investidor leem isso como imprevisibilidade. E imprevisibilidade reduz valuation. Não porque o direito do trabalho seja "punitivo", mas porque decisões mal estruturadas sinalizam falhas de gestão e controle que o novo sócio ou comprador terá que herdar e corrigir.

O ponto de inflexão: decisão informada

Empresas que conseguem reduzir passivo e proteger margem não são aquelas que "não erram". São aquelas que decidem melhor.

Decidir melhor, no contexto trabalhista, significa:

  • Não contratar sem antes mapear o risco.
  • Não remunerar sem critério documentado.
  • Não desligar sem um processo robusto.
  • Não crescer sem revisar estruturas antigas.

É nesse momento que o jurídico deixa de ser um departamento reativo e passa a atuar como apoio estratégico à tomada de decisão. Não para impedir o negócio, mas para torná-lo sustentável e mais valioso.

O custo de não decidir bem

Toda decisão trabalhista gera um efeito econômico. Algumas empresas apenas não sabem mensurá-lo.

Quando não há clareza sobre o impacto de uma escolha, o risco não desaparece, ele apenas se transfere para o futuro, normalmente em um cenário menos controlável e muito mais caro.

É comum ver empresas tentando negociar valuation enquanto ainda convivem com estruturas frágeis de RH, contratos desatualizados e práticas que já não se sustentam juridicamente. O mercado percebe. E precifica.

Decisão trabalhista é decisão de negócio. O amadurecimento empresarial passa por reconhecer que decisões trabalhistas não são técnicas isoladas. Elas fazem parte da estratégia central.

Empresas que entendem isso constroem previsibilidade, reduzem litígios e fortalecem sua posição no mercado. As que ignoram continuam operando, até o momento em que o custo aparece de forma incontornável.

No fim, não se trata de evitar riscos a qualquer custo, mas de assumir riscos conscientes, informados e alinhados à estratégia do negócio. E isso começa antes da ação judicial. Começa na decisão.

Sara Malard

VIP Sara Malard

Advogada empresarial com 18 anos de experiência, especialista em gestão de risco, compliance e jurídico preventivo.

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