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O inimigo não é o DPO ao lado

A escolha é simples: Colaborar para fortalecer a profissão, ou seguir alimentando a narrativa de que o DPO não merece confiança.

terça-feira, 3 de março de 2026

Atualizado às 10:37

Nos últimos anos, a figura do encarregado de dados deixou de ser uma abstração legislativa para se tornar um ator real no ecossistema corporativo brasileiro. O DPO virou profissão, serviço, carreira, estratégia. E, com isso, naturalmente, surgiram bons profissionais, aprendizes, aventureiros e especialistas. Nada diferente do que ocorreu com advogados, contadores ou peritos quando suas áreas se abriram ao mercado.

O que chama atenção, contudo, é o tom de disputa que tem se instalado dentro da própria categoria. Cresce um discurso recorrente nas redes: “a maioria dos DPOs não sabe o que está fazendo”, “tem muito DPO de teatro”, “só poucos são realmente sérios”. A crítica até pode partir de um incômodo legítimo com entregas rasas, mas quando repetida sem cuidado produz um efeito colateral perigoso: cria-se desconfiança não sobre um indivíduo, mas sobre a profissão inteira.

Ademais, quem determina se um profissional é ou não capacitado, é o mercado que o absorve.

Quando um DPO afirma que o setor está tomado por amadores, ele não está apenas expondo sua indignação técnica. Ele está dizendo ao empresário que contratar um encarregado é arriscado, que a chance de erro é alta e que somente uma minoria iluminada consegue entregar algo confiável. Na prática, esse discurso pode afastar clientes, reduzir investimentos, desvalorizar contratos e alimentar a impressão equivocada de que a LGPD é um custo sem retorno.

Profissões novas dependem de credibilidade coletiva. O médico recém-formado se beneficia da reputação construída por décadas de medicina séria. O advogado de hoje caminha na trilha de uma institucionalidade amadurecida. O DPO brasileiro ainda está pavimentando sua história e, por isso mesmo, não pode perder tempo serrando o galho onde está sentado.

Como lembrava Hannah Arendt, nenhuma comunidade permanece de pé quando os próprios integrantes trabalham para deslegitimar o espaço comum. Quando a categoria enfraquece a si mesma, perde o solo onde poderia crescer.

Isso não significa calar para erros. Significa criticar de maneira inteligente. Em vez de generalizar incapacidade, apontar boas práticas. Em vez de ridicularizar a profissão, oferecer caminhos. É possível dizer que a entrega documental sem implementação é insuficiente sem invalidar quem começou pelo pouco. É possível apontar que assessoria sem governança é fumaça, sem declarar que todo mundo é farsa.

O mercado amadurece quando quem sabe entrega, ensina, compartilha e inspira. Não quando disputa quem tem o discurso propagandista ou quem ostenta a maior coleção de certificados. O empresário observa com lupa e percebe rapidamente quando a crítica vira marketing travestido de indignação.

Como já observava Adam Smith, o interesse individual só constrói riqueza quando equilibrado pela confiança coletiva. Quando cada uma busca se promover destruindo o outro, o resultado é a ruína do próprio mercado.

Somos uma categoria que cuida de confiança, transparência e responsabilidade. Nada mais contraditório do que promover o descrédito da própria função que defendemos. O crescimento do DPO no Brasil não depende da queda do colega ao lado, mas da solidez de um ecossistema inteiro. E isso se constrói com técnica, ética, colaboração e entrega concreta.

Thomas Hobbes sustentou que a lógica da guerra de todos contra todos nunca produz avanço. Se parte da categoria só se enxerga como inimiga interna, fica presa ao caos que impede qualquer amadurecimento. A LGPD abriu uma porta histórica. Cabe a nós atravessarmo-la juntos.

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ARÊNDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995. (Título original: The Human Condition, 1958.)

SMITH, Adam. Teoria dos sentimentos morais. São Paulo: Martins Fontes, 1999. (Título original: The Theory of Moral Sentiments, 1759.)

HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Título original: Leviathan, 1651.)

Jorge Alexandre Fagundes

VIP Jorge Alexandre Fagundes

Advogado em Direito Empresarial Digital, especialista em governança, compliance, privacidade e proteção de dados. DPO EXIN

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