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Quando o cargo incomoda mais do que a competência

"Metade do mundo são mulheres e a outra metade, os filhos delas." Efu Nyaki

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Atualizado às 13:30

Não é a primeira vez e, infelizmente, ainda não é a última que uma mulher precisa justificar sua presença em espaços que, por mérito, já conquistou.

A delegada Raphaela Natali Cardoso, recém-empossada na Polícia Civil de São Paulo, tornou-se alvo de comentários ofensivos que buscavam desqualificar sua capacidade profissional exclusivamente por sua condição de mulher, após compartilhar um momento simbólico de sua trajetória. O que deveria ser a celebração de uma conquista legítima transformou-se em uma manifestação de preconceito e tentativa de deslegitimação.

As palavras usadas contra a delegada não atacavam suas decisões, conduta ou currículo. Atacavam o fato de ser mulher. Esse detalhe é fundamental para a correta análise do ocorrido.

Quando alguém afirma que mulheres "não deveriam ocupar cargos de autoridade", não está simplesmente exercendo o direito à opinião. Está, na verdade, reproduzindo uma violência estrutural, histórica e profundamente enraizada na sociedade. Trata-se de um discurso que tenta recolocar a mulher em um lugar que, para alguns, ainda lhe é reservado: o da submissão, do silêncio e da invisibilidade.

As condutas estão sendo devidamente apuradas pela Polícia Civil, que instaurou procedimento para identificar os autores dos ataques. Os fatos podem configurar crimes contra a honra, discriminação e, a depender do enquadramento, violência psicológica contra a mulher (art. 147-B do CP), além de ensejar responsabilização civil por danos morais e a determinação judicial para remoção do conteúdo ofensivo.

A sub-representação feminina em números

Apesar de representarem mais da metade da população brasileira, as mulheres continuam amplamente sub-representadas nos espaços de poder.

No Legislativo nacional, elas ocupam apenas 18,1% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 19,8% no Senado Federal. Segundo o relatório Women in Politics 2025, da ONU Mulheres e da União Interparlamentar, esses índices colocam o Brasil na 133ª posição no ranking global de representação parlamentar feminina.

No Executivo, os números revelam um padrão desigual conforme o nível de governo. No âmbito municipal, as eleições de 2024 registraram um recorde: 727 mulheres foram eleitas prefeitas entre os 5.570 municípios brasileiros. No nível estadual, apenas 2 mulheres governam estados. No Executivo Federal, o governo conta com 10 ministras em um total de 38 ministérios. Embora esse último número seja o mais positivo entre os três níveis, todos permanecem ainda distantes da paridade.

No Judiciário, embora haja avanço na base da magistratura, a presença feminina diminui drasticamente à medida que se ascende na estrutura de poder. O STF, em sua longa história, é um exemplo claro desse padrão: teve mais de 170 ministros homens e apenas três mulheres.

Esses números demonstram que, quando uma mulher chega a um cargo de autoridade, ela ainda pode ser vista como uma exceção, e não como parte integrante e natural daquele ambiente, há quem tente tratá-la como uma intrusa, como se competência tivesse gênero e mérito precisasse de permissão.

A violência dirigida a mulheres em espaços de poder não é um problema pessoal; é um problema institucional, jurídico e democrático. Combatê-la não é uma questão de militância, mas de cumprir o que determina a Constituição, que assegura igualdade, dignidade e acesso plural aos espaços de decisão.

Cada mulher que permanece, resiste e não se cala não está apenas ocupando um cargo; está abrindo caminho para outras. E toda tentativa de silenciamento precisa encontrar uma resposta clara e firme do Estado, do Direito e da sociedade.

Porque o problema nunca foi a mulher no cargo. O problema sempre foi o incômodo de quem não aceita vê-la ali.

A competência como resposta

A trajetória para a ocupação de espaços de liderança é, muitas vezes, um caminho solitário, mas que se torna emblemático.

A resistência à presença feminina em posições de autoridade pode surgir de onde menos se espera tais situações, embora lamentáveis, reforçam a importância de uma atuação firme e técnica, que se impõe não pela força, mas pela qualidade do trabalho apresentado.

A resposta mais eficaz a qualquer tentativa de deslegitimação não está no confronto emocional, mas na solidez dos argumentos, na precisão técnica e na serenidade de quem sabe que a sua posição foi conquistada por mérito. E é essa a mensagem que deve ecoar para as futuras gerações de mulheres que ocuparão, com toda a legitimidade, os espaços que lhes são de direito. Porque, como disse Efu Nyaki: "Metade do mundo são mulheres e a outra metade, os filhos delas."

Kênia Rodrigues Quintal

VIP Kênia Rodrigues Quintal

Advogada há mais de 20 anos, desde 2021 exerce o cargo de Procuradora-Geral do Município de Carapebus.

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