O risco jurídico que não entra no planejamento porque não vira dado
Uma reflexão sobre por que o risco jurídico ainda é tratado como percepção e como a ausência de dados enfraquece o papel do jurídico nas decisões estratégicas.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Atualizado em 13 de janeiro de 2026 11:20
Poucos temas geram tanto consenso retórico nas organizações quanto a importância da gestão de riscos. Conselhos discutem risco, diretorias cobram controle e o jurídico é frequentemente chamado a opinar sobre exposições relevantes. Ainda assim, na prática, o risco jurídico permanece envolto em abstração.
Na prática, tenho visto o risco jurídico ser amplamente debatido, mas raramente tratado como insumo efetivo de decisão. Fala-se em risco, mas raramente se mede risco. E aquilo que não se mede tende a ser relativizado.
Essa distância entre discurso e prática não decorre de desprezo pelo tema, mas da forma como o risco jurídico historicamente foi tratado: como algo qualitativo, dependente da experiência e da sensibilidade do profissional. O problema é que, em ambientes decisórios cada vez mais orientados por dados, essa abordagem se tornou insuficiente.
Quando o risco vira percepção
Ao apresentar riscos sem indicadores claros, o jurídico se vê limitado a argumentos subjetivos. O risco é descrito como “alto”, “médio” ou “baixo”, sem que se consiga explicar com precisão o impacto financeiro, a probabilidade de ocorrência ou a extensão operacional da exposição.
Nesse cenário, o risco jurídico passa a competir com números concretos trazidos por outras áreas. Projeções de receita, custos estimados, indicadores de performance e análises financeiras ganham prioridade. O risco, desprovido de dado, vira opinião. E, no jogo decisório das organizações, opinião raramente vence número. Não por falta de razão, mas por falta de comparabilidade.
O paradoxo dos contratos invisíveis
Grande parte do risco jurídico está concentrada nos contratos. Prazos críticos, valores relevantes, obrigações sensíveis, penalidades, cláusulas de renovação automática e histórico de disputas formam um conjunto rico de informações estratégicas. Na prática, esse patrimônio informacional permanece enterrado em PDFs, planilhas e pastas esquecidas.
O paradoxo é que esses dados existem, mas não circulam. Estão espalhados em documentos, sistemas desconectados ou arquivos que não conversam entre si. O contrato é tratado como peça jurídica isolada, não como fonte contínua de informação gerencial.
Sem essa transformação do contrato em dado, o risco permanece invisível. E o que não é visto dificilmente é priorizado.
Decidir sem enxergar o impacto real
Decisões estratégicas seguem sendo tomadas sem uma leitura clara da exposição contratual envolvida. Projetos são aprovados, investimentos são realizados e compromissos são assumidos sem que o risco jurídico tenha sido incorporado de forma concreta ao processo decisório. Não por descuido, mas porque o risco não chegou à mesa no formato que a decisão exige.
Quando o risco se materializa, o espaço de reação já é limitado. O custo é maior, a margem de negociação é menor e a atuação jurídica se torna essencialmente corretiva.
Dado não elimina risco, governa risco
A ausência de dados não elimina o risco jurídico. Apenas impede que ele seja governado. Transformar contratos em informação estruturada não é questão de sofisticação tecnológica, mas de maturidade institucional. Enquanto isso não acontece, o risco segue existindo, apenas fora do radar.
Gestão de risco exige método, recorrência e visibilidade. Sem isso, o risco continuará sendo debatido em reuniões, mas raramente influenciará decisões relevantes.
Bruno Doneda
Fundador e CEO da Contraktor, formado em Direito e Tecnologia, atua especialmente nas frentes de vendas e marketing.


