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Supermercados fechados aos domingos: Avanço ou retrocesso?

O artigo discute o fechamento dos supermercados aos domingos no ES, avaliando impactos no consumo, na rotina das famílias e no varejo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Atualizado em 21 de janeiro de 2026 14:01

A partir de 1/3/26, os supermercados do Espírito Santo passarão a fechar aos domingos, uma mudança que promete alterar hábitos de consumo profundamente enraizados e reacender uma série de polêmicas no varejo alimentar. A medida, válida até 31/10/26, não decorre de lei ou decisão judicial, mas de uma CCT - Convenção Coletiva de Trabalho firmada entre sindicatos patronais e o sindicato dos trabalhadores do comércio (Sindicomerciários-ES), em caráter de projeto piloto.

Pela regra, deverão manter as portas fechadas aos domingos supermercados, atacarejos, mercearias e minimercados que tenham empregados registrados, inclusive unidades instaladas em shoppings centers. Permanecem autorizados a funcionar os pequenos comércios familiares sem funcionários, além de padarias e açougues.

O argumento central do sindicato laboral é a garantia do descanso semanal remunerado, do convívio familiar e social e da prática religiosa - direitos que, segundo a entidade, não seriam plenamente atendidos quando a folga ocorre em dias úteis. Já para o setor supermercadista e especialistas em varejo, o fechamento dominical levanta uma discussão mais ampla: a população vai se acostumar a não ter supermercados abertos no domingo?

A questão é que o domingo se consolidou, ao longo de décadas, como um dia estratégico tanto para o consumidor quanto para o varejo de alimentos. Não se trata apenas de conveniência, mas de um comportamento social já incorporado à rotina das famílias. Mudar esse hábito por acordo coletivo, sem um debate mais amplo com a sociedade, tende a gerar impactos que vão muito além da relação trabalhista.

Na prática, o consumidor capixaba precisará antecipar compras, reorganizar a despensa e resolver imprevistos até o sábado. Compras de última hora, reposição emergencial de alimentos ou aquela ida rápida ao mercado no domingo deixam de ser opção. Especialistas alertam que a tendência é de sobrecarga no sábado, com maior fluxo de clientes, filas mais longas e pressão sobre a operação das lojas.

A polêmica recai também sobre o processo de adaptação forçada do consumidor, porque a pergunta que precisa ser feita é: a população vai se adaptar por escolha ou por imposição? Em outros mercados, quando o serviço deixa de existir, o consumidor até se ajusta, mas isso não significa que o impacto econômico e social seja neutro. O risco é naturalizar a perda de um serviço essencial sem medir corretamente os efeitos sobre consumo, emprego e competitividade.

É preciso lembrar também que o varejo alimentar opera com margens estreitas e alta dependência de volume. Assim, retirar um dia inteiro de funcionamento pode afetar faturamento, investimentos e até a manutenção de postos de trabalho no médio prazo, especialmente em um cenário econômico já desafiador.

Prevista para ser reavaliada ao fim de outubro, a experiência do Espírito Santo deverá servir de termômetro para o setor em todo o país. Até lá, a controvérsia permanece: o fechamento dos supermercados aos domingos representa um avanço nas relações de trabalho ou um retrocesso na oferta de serviços essenciais à população? A resposta, ao que tudo indica, virá da reação - e da adaptação (ou não) - dos próprios consumidores.

Alvaro Luiz Bruzadin Furtado

VIP Alvaro Luiz Bruzadin Furtado

Advogado, ex-procurador do Município e presidente do Sincovaga-SP (Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios do Estado de São Paulo).

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